Transformar a pausa do almoço numa porta de entrada para a diversidade do cinema brasileiro é a proposta que leva a 13.ª edição da mostra Curta no Almoço à CAIXA Cultural Rio de Janeiro, um dos espaços culturais cariocas mais concorridos, entre 1 e 25 de setembro. Criado em 2007 pelo cineasta, produtor, programador e cineclubista Guilherme Whitaker, o projeto reúne 20 curtas-metragens de diferentes regiões do Brasil, distribuídas por três sessões gratuitas, de terça a sexta-feira, às 12h00, 12h45 e 13h30, na unidade da Rua do Passeio, no centro carioca. Ficção, documentário, animação e obras híbridas cruzam questões de raça, género, sexualidade, memória, precariedade laboral, periferia, ancestralidade e inclusão, num programa concebido para apanhar trabalhadores e transeuntes justamente na hora de almoço. A mostra terá ainda sessões acessíveis nos dias 23 e 24 e encerra-se no dia 25 com uma conversa com os realizadores Roberto Moura e Rodrigo de Janeiro, após a exibição dos seus filmes.
As produções selecionadas foram: Chega de Demanda, Cartola, de Roberto Moura; A Jornada do Valente, de Rodrigo de Janeiro; A Última Batatalha, de Lucas Signorini e Matheus Ros; Efeito Casimiro, de Clarice Saliby; Pororoca, de Fernanda Roque e Francis Frank; Cidade Afluente, de Josianne Diniz; No Mar, de Clara Linhart e Rodrigo Garcia; O Futuro Que Me Alcance, de Nat Grego; Avôa, de Lucas Mendes; Nem Sempre, de Leandro Olimpio e Telmo Martins; Lapso, de Carol Cavalcanti; La Caramela, de Gian Orsini; As Marias, de Dannon Lacerda; Dela, de Gian Orsini; Pai em Versos, de Julio Folha; Nação Comprimido, de Bruno Tadeu; O Expresso para Indaiatuba, de Ramon Navarro; Posso Contar nos Dedos, de Victória Kaminski; Menino Pássaro, de Diogo Leite; e Forrando a Vastidão, de Higor Gomes.
Ao C7nema, Whitaker fala da vitalidade política do formato curto, da democratização trazida pelo digital, da ausência de uma verdadeira política de difusão para o cinema brasileiro e do potencial económico e artístico de filmes que dispensam a longa duração para produzirem impacto.

Que retrato traçam estes filmes selecionados da realidade da curta-metragem brasileira, tanto em termos poéticos como políticos?
A curta nacional, há décadas, tem primado pela diversidade e pela qualidade, comprovadas pela quantidade de filmes realizados todos os anos e pela sua presença em festivais internacionais, não raramente com prémios. Uma das graças da curta é a facilidade de realização, possível sobretudo depois da popularização do vídeo e, mais tarde, do digital, hoje presente na vida de quase todos através dos telemóveis. Poeticamente, é maravilhoso perceber que qualquer pessoa consegue expressar-se audiovisualmente em poucos minutos, mesmo sem ter tido qualquer formação em cinema. É a liberdade máxima. Nem todos fazem filmes para serem exibidos em festivais, mas quem quiser dedicar-se a esse objetivo consegue hoje fazê-lo de uma forma relativamente simples e barata, algo que, há duas décadas, era muito mais difícil por causa dos custos elevados e das exigências técnicas necessárias para operar os equipamentos de captação e montagem. Politicamente, o advento do vídeo digital foi e continua a ser revolucionário, mudando a face do mundo e das sociedades, tanto documental como ficcionalmente. Em 2026, praticamente todas as áreas do conhecimento podem retirar proveito do audiovisual, da medicina ao desporto. O vídeo participa diariamente na rotina de toda a gente. Basta recordar que milhões de vídeos são publicados todos os dias apenas no YouTube. Isso altera a compreensão da realidade e, dessa forma, participa política e ativamente, mesmo que muitas vezes de modo inconsciente, na vida das pessoas e das sociedades.
O que justifica a convivência destes filmes dentro de um espaço como o Curta no Almoço?
A seleção das 20 curtas da mostra Curta no Almoço exemplifica essas questões e muitas outras particularmente importantes para o Brasil de hoje, sobretudo a relação entre cinema, trabalho, cidade e tempo. Isso cria um conceito muito interessante: levar o cinema brasileiro para dentro da rotina quotidiana do trabalhador e de quem frequenta o centro do Rio, utilizando a hora de almoço como uma oportunidade de acesso cultural. É algo exótico e, também por isso, cativante. Nesse sentido, é fundamental agradecer à CAIXA Cultural por ter querido recuperar um projeto tão interessante e importante para a efetiva formação de público para o nosso cinema, uma vez que muitas das pessoas que vão às sessões nunca tinham visto uma curta-metragem numa sala de cinema de grandes dimensões. Na curadoria, procurámos construir um pequeno painel com filmes que retratam questões relevantes para o Brasil contemporâneo. A mostra reúne diferentes identidades, experiências sociais e perspetivas.
Que eixos temáticos aparecem?
Questões de raça, género, sexualidade, geração e pertença aparecem em vários filmes, como o belíssimo Avôa, que aborda raça, masculinidade e a memória de uma família negra e periférica. A representação da população negra surge como um dos eixos importantes da programação, tanto nessa curta como nos filmes dedicados a Cartola e Assis Valente, que permitem igualmente discutir memória e a contribuição da cultura afro-brasileira. O trabalho, a precariedade e a vida urbana estão presentes em filmes como Cidade Afluente, que apresenta trabalhadores submetidos a jornadas intensas, chefes exigentes, clientes e insegurança profissional. É um tema que dialoga especialmente com o próprio conceito do evento: inserir o cinema no quotidiano de quem trabalha e circula pelo centro do Rio. Juventude, periferia e exclusão social surgem em filmes como Lapso, que coloca adolescentes periféricos perante a repressão, as medidas socioeducativas e o esquecimento institucional, e Menino Pássaro, que também trabalha as diferenças sociais e as relações entre personagens provenientes de universos distintos. A autonomia feminina está presente em As Marias, ao abordar mulheres submetidas a expectativas familiares, religiosas e conjugais que rompem com o silêncio e a invisibilidade. Já Dela trata da identidade, da aparência, da autoestima e da pertença durante a infância. A diversidade LGBTQIA+ e o envelhecimento aparecem em Nação Comprimido, que introduz a questão da velhice LGBTQIA+, da militância e da criação de espaços de acolhimento para idosos LGBTQIA+. É um tema particularmente relevante por cruzar diversidade sexual, envelhecimento, direitos e inclusão social. E estou a citar apenas alguns aspetos e alguns filmes de uma mostra que está fantástica.
A chamada “Lei do Curta”, cumprida de meados dos anos 1970 até 1990, a exigir a exibição em circuito de uma narrativa em pílula antes das longas-metragens, ajudou, num período anterior às nossas carreiras, a formar muitas vozes autorais no Brasil. Existe a possibilidade de regressar? Este trabalho de curadoria comunga, de alguma forma, dos princípios de ocupação dos ecrãs e de formação de talentos que a curta sempre proporcionou?
De facto, a chamada “Lei do Curta” ajudou bastante o formato a popularizar-se e a gerar receitas para os filmes, entre 1975 e 1990. Desde então, nunca mais houve interesse em tornar obrigatória a exibição de curtas antes de longas estrangeiras, até porque, quando falamos de comércio e indústria, ninguém quer dividir uma parte da receita com quem faz curtas. O que existe hoje é uma quota de ecrã anual que obriga as salas comerciais a exibirem um número mínimo de longas nacionais perante a quantidade muito superior de filmes estrangeiros em cartaz. Na minha opinião, deveria acontecer o contrário. A tão falada soberania nacional também deveria estar presente aí, invertendo-se a lógica e atribuindo quotas aos filmes estrangeiros, de maneira a privilegiar a produção nacional de longas e, consequentemente, encontrar espaço para a exibição remunerada de curtas antes das sessões. Mas isso significa mexer com gente grande e com milhares de milhões. Seria necessária uma nova lei que, com um Congresso Nacional de tendência conservadora, dificilmente seria aprovada. Assim, mostras, festivais e cineclubes são hoje praticamente a única maneira de levar o cinema brasileiro cultural, e não apenas industrial, para dentro do Brasil, sobretudo para lugares onde o cinema comercial não chega porque não encontra perspetivas de lucro.

Sob essa lógica, como se dá a circulação de filmes hoje no Brasil?
Historicamente, o Brasil continua a errar ao sobrevalorizar a produção de filmes e a desvalorizar a difusão, que é uma ação fundamental para escoar e fazer ecoar uma produção tão gigantesca como o próprio país. A Ancine, Agência Nacional do Cinema, arrecada milhares de milhões de reais e poderia, se quisesse, criar políticas mais eficazes para levar o cinema nacional para além das salas dos centros comerciais, investindo em ações de médio e longo prazo para desenvolver novos exibidores culturais através de cineclubes, a uma fração do que investe em salas comerciais. Poderia também apostar na continuidade de mostras e festivais nacionais, que não recebem recursos regulares dessa agência e precisam de disputar editais e leis de incentivo que, obviamente, não são suficientes para dar conta de tantos filmes em tantas cidades. O Brasil ganharia se fosse mais e melhor visto em grandes ecrãs. Há ainda toda uma cadeia produtiva direta e indireta que surge quando um cineclube funciona semanal ou mensalmente, ou quando um festival acontece todos os anos. Infelizmente, falta visão e interesse em devolver ao cinema nacional uma parte desta imensa verba arrecadada. Acaba-se por ajudar mais os grandes do que os pequenos e médios, que, a meu ver, são tão ou mais relevantes justamente porque chegam ao Brasil profundo, onde as multinacionais não têm interesse em estar.
Existe uma dimensão quase escolar na curta, mas há, para além dela, uma dimensão profissional que continua a levar artesãos do ofício — no Brasil, Julio Bressane, Susanna Lira ou Carlos Adriano; no estrangeiro, Pedro Almodóvar ou Wes Anderson — a regressarem ao formato. O que representa a curta como atividade económica para quem vive do cinema?
O cinema nasceu curto antes de se tornar longo. As primeiras experiências eram curtas, muito antes de o cinema se transformar numa indústria mundial de entretenimento. Eram experiências únicas: filmar e projetar imagens eram quase milagres numa época em que as pessoas viviam 50 ou 60 anos, quando muito. Era outro mundo, embora fosse este mesmo planeta.
Hoje, depois de tudo o que aconteceu e sobretudo do advento do vídeo digital e da Internet, existe uma overdose audiovisual. Basta olhar para a quantidade de conteúdos disponibilizados todos os dias. Se considerarmos um filme de 30 segundos uma curta, temos milhões por mês. A maioria é pouco vista, mas, quando um destes conteúdos conquista maior visibilidade, é possível gerar receitas. É uma minoria que consegue tornar-se “viral” e faturar, mas existe, e isso amplia quase infinitamente a potência deste audiovisual de curta duração. A revolução audiovisual posterior aos anos 2000 é hoje também uma realidade económica. Claro que ganhar dinheiro com curtas não é fácil, mas, havendo qualidade, persistência e networking, torna-se viável, a médio prazo, imaginar receitas recorrentes provenientes de produções de curta duração e baixo custo.
O que representam estes filmes para quem se expressa através do cinema?
Em termos poéticos, representam o mesmo que uma música de Chico Buarque ou uma caricatura de Aroeira: criação, emoção, potência. Olhos a brilhar em quem faz e/ou em quem aprecia o haver neste absurdo e estranhíssimo mundo de 2026. É arte que revolve o mundo, apontando para novas e velhas possibilidades de ação e reação perante o infinito. Ninguém faz curtas para ganhar dinheiro, mas para se expressar, documental ou ficcionalmente, e talvez assim ampliar a cognição do real, seja através de uma gargalhada, de um suspiro lacrimejante, de uma denúncia ou simplesmente da diversão. A vida é cada vez mais audiovisual e isso é, no mínimo, interessante.
E o que tem atualmente de produção autoral própria, para além do trabalho como curador?
Sou bissexto. A minha última curta, Instante Karma, é de 2015. Essa e as minhas outras curtas podem ser vistas no meu site, guiwhi.com. Espero realizar em breve uma nova curta, desta vez dedicada à questão do armamento e aos acidentes envolvendo crianças e jovens.

