Morreu, aos 56 anos, a artista franco-iraniana Marjane Satrapi, autora da novela gráfica Persépolis. A notícia foi avançada esta quinta-feira pela AFP, a partir de informação transmitida pela família e pelo círculo próximo da autora. “Marjane Satrapi morreu de tristeza pouco mais de um ano depois da morte de Mattias Ripa, o seu marido e o amor da sua vida”, lê-se no comunicado da família à agência. Ripa, ator, argumentista e produtor, faleceu em abril de 2025. Na conta de Instagram de Satrapi há várias publicações em que se pode ler: “I lost the love of my life” (“Perdi o amor da minha vida”).
Nascida em Rasht, no Irão, em 1969, Satrapi tornou-se um voz da banda desenhada contemporânea ao transformar a própria infância, atravessada pela Revolução Islâmica, a guerra Irão-Iraque e o exílio, numa obra de alcance universal. Publicada em 2000, Persépolis explicava a repressão política e a condição das mulheres iranianas sem perder ternura e humor, levando a uma passagem para o cinema em 2007, realizada com Vincent Paronnaud.
O filme venceu o Prémio do Júri em Cannes e foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Animação, mas a escolha da animação não significava uma vontade de ficar presa ao género. Pelo contrário, Satrapi explicou várias vezes que não se considerava uma realizadora de animação e que recorreu a essa forma porque lhe parecia impossível escolher atores para encarnar pessoas ainda vivas e próximas de si, incluindo ela própria.

O sucesso dessa adaptação trouxe à autora uma armadilha industrial. Como recordou Paronnaud, depois da nomeação ao Óscar, ele e Satrapi imaginaram que seria mais fácil financiar um novo projeto. Encontraram o contrário, pois para muitos financiadores, se a dupla tinha triunfado com uma animação, o filme seguinte teria de ser, naturalmente, na mesma forma. Satrapi recusou e Galinha com Ameixas (2011), novamente assinado com Paronnaud, seria produzido em imagem real.

Satrapi viveu em França e construiu uma carreira entre livros, cinema e uma intervenção cívica. Mais tarde, a solo, assinou filmes como The Voices, com Ryan Reynolds, e Radioactive, este último dedicado a Marie Curie e protagonizado por Rosamund Pike. O seu último filme, Paradis Paris (2024), apresentou-se como um conjunto de histórias cruzadas onde vários habitantes de Paris viam as suas vidas viradas do avesso quando a morte lhes bate à porta.
Em 2023, ela coordenou a obra coletiva Mulher, Vida, Liberdade, ligada ao movimento de contestação no Irão após a morte de Mahsa Amini. Em 2024 recebeu o Prémio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades e, no ano seguinte, recusou a Legião de Honra francesa, criticando a posição de Paris perante o regime iraniano.

