Breve Mirada de Sol: firme como… Rocha, sem perder a leveza

(Fotos: Divulgação)

Mobilizada pela densidade política do debate racial de M8- Quando a Morte socorre a Vida e pelo humor trágico de Três Verões, a competição pelo troféu Redentor do 21º Festival do Rio recebe hoje o trabalho mais recente de Eryk Rocha, em campo com o suave Breve Miragem de Sol.

É o trabalho de maior lirismo do combativo cineasta, filho do mítico Glauber Rocha (1939-1981), que construiu uma voz própria, particularíssima na sua combatividade, para além de seu legado. Laureado em 2016 com a honraria anual da Croisette aos documentários por Cinema Novo, Eryk estreou a produção em outubro no BFI London Film Festival, cercado de críticas calorosas.

Agora, entra na competição de longas-metragens nacionais da maratona cinéfila carioca – que termina na quinta-feira – com fôlego para um prémio de realização.A sua condução de uma narrativa com tónus de cónicas urbana e relevo de poesia é de uma precisão invejável. Sugere-se como o seu exercício mais maduro como realizador, coroando uma rota investigativa que vem de 2002, com Rocha que voa, seguido pelo esfuziante Quimera (2004), copilotado por Tunga.

No filme que o Festival do Rio vê esta noite, em concurso, mora um anjo que se chama solidão e um querubim com corpo de menino. Com os dedos em riste, em sinal de “tudo bom” para a vida, esse anjo da guarda… um menino de 10 anos, cujo nome é Mateus… abençoa as avenidas de uma terra sem sol por onde um São Jorge, Paulo, um taxista no empobrecido Rio de Janeiro da década de 2010, ganha o seu pão e desenha a sua sina de andarilho. Mateus é filho e farol do seu protagonista, vivido por Fabrício Boliveira nas raias da contenção, nas raias do minimalismo, nas raias do insinuar em vez de afirmar… um Fabrício maduro, na marcha da delicadeza.

O ator vem de produções de sucesso como Faroeste Caboclo (2013), crescendo em moral a cada longa-metragem. O amor incondicional é o que guia a relação entre o chofer de praça vivido por Fabrício e o menino. O problema da personagem é que a fruição do amor irretrocedível da paternidade tem andado pela radial da metafísica. Os motivos: Mateus viajou para a casa dos avós; a sua mãe anda a forçar Paulo a cumprir com a sua parte na pensão de maneira mais assídua, para autorizar os encontros deles; e a vida, essa danada, o semáforo anda no vermelho para quem vive em solo carioca. Naquela cidade, os cruzamentos e as avenidas andam assombradas pela pobreza e pelo alcaide (Marcelo Crivella), acusado de ter secado os investimentos na Saúde, sem cuidados com o bem da sua população. Essa acusação não é dita no filme, porque não são necessários os anunciados trágicos. O que está posto é visível.

Miguel Vassy, fiel fotógrafo de Eryk, desenha essa (nossa) geografia diluindo marcas regionais, dessaturando os excessos, pasteurizando pistas de Zona Norte e Sul, de modo a marcar que a velha noção de Cidade Partida já não é tão demarcada quanto antes. Partidos estamos todos que aqui vivemos, sem saber que via nos leva à mais violenta das armadilhas: a segregação social.

É um caminho bem parecido com o tomado por Eryk em Campo de Jogo (2014), porém, ainda mais arguto: a geopolítica brasileira hoje planificou as suas capitanias hereditárias para a microfísica do Poder. Até num táxi, o passageiro acha-se donatário do Rei… senhor do seu banco, de toda a viatura, do motorista que o guia. É o que demonstra o grupinho que faz sinal para o táxi de Paulo sem saber se vai para o “Baixo Bota” (apelido dado ao complexo de bares do bairro de Botafogo) ou para a área do Jóquei Clube. O abuso rege a forma com que eles se expressam… sempre senhoriais. Mas com Paulo não é assim: o seu lado Ogum (santo guerreiro) enfrenta o dragão de uma maldade que extrapola a mais-valia marxista, a maldade do “se a farinha é pouca, meu pirão vem primeiro”.

Paulo flana atento e forte, como um centauro num cavalo amarelo que, na montagem de Renato Valone (um dos editores mais afeitos a ligações lúcidas da imagem na produção audiovisual das Américas), passeia entre a encenação e o registo documental sem curvas bruscas. Há uma conversa de Boliveira em que as personagens “da praça”, vividas por Xando Graça e Márcio Vito, enfileiram-se entre depoimentos de quem encara a rua “na real”. Tudo vira ator… tudo se transforma em vivência. E, na afirmação do verbo viver, Paulo tem o seu espaço para o prazer e para o carinho, no sorriso Cristo da enfermeira Karina (Barbara Colen, de Bacurau, sempre elétrica, económica), que o leva à ascese de uma troca sem mercantilismo, sem esperas. Uma troca que serve como analgésico para a saudade de Mateus, que não chega.

Tudo indica, nessa espera de Paulo por Mateus (e pelas surpresas do trabalho de chofer), que Eryk fez o seu trabalho de maior serenidade… de maior leveza. Ser sereno não significa não ser crítico, não ser alarmado, não ser alarmista. Tem tudo isso em Breve miragem de sol: denúncia, reflexão sociológica, experimentações plásticas com a mesma febre do objeto que retrata (uma metrópole em pleno movimento), urgência. Mas, na maturidade de quem – de Intervalo Clandestino (2005) para cá – esculpiu uma estética autoral própria (em evolução), essa carga combativa ganha mais (e melhor) retidão… mais elegância… mais retumbância, sobretudo na parceria de uma lâmina afiada como Boliveira. É o filme mais próximo da jam session Jards, pelo qual recebeu o troféu Redentor de melhor realização no Festival do Rio de 2012. Tem tudo para repetir o placard agora, neste ano em que o evento ergue-se a duras penas, por falta de apoios institucionais de peso, contando com o financiamento coletivo. Com todos os percalços, o Festival conseguiu montar uma seleção de filmes de peso, de brasileiros e estrangeiros, totalizando 200 atrações do mundo todo. E a longa-metrgem de Eryk é, sem dúvida, uma das melhores entre essas atrações.

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