Aruanda, uma luz acesa online para o documentário brasileiro

(Fotos: Divulgação)

Termo religioso para designar a morada da luz dos espíritos no sincretismo de raiz africana e título de um filme seminal da estética audiovisual moderna no Brasil, Aruanda empresta o seu simbolismo a um dos festivais de maior prestígio da América do Sul, com sede na Paraíba, de onde construiu fama internacional por unir reflexão académica e projeção de curtas e longas-metragens inéditas. Organizado e dirigido pelo crítico e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Lúcio Sérgio de Oliveira Vilar, o evento este ano teve que acontecer numa mescla entre projeções presenciais e online, via http://aruandaplay.festaruanda.com.br/. A programação começou na quinta-feira passada, com “Os Quatro Paralamas”, e termina nesta quinta, com a entrega de prémios e a exibição dos documentários “Zuza Homem de Mello”, de Jorge Bodanzky, e “Me Chama Que Vou”, de Joana Mariani.  

As longas-metragens em competição: Chico Rei Entre Nós, de Joyce Prado (Doc., 2020, SP, 95 min); Codinome Clemente, de Isa Albuquerque (Doc, 2019, RJ, 99 min.); Glauber, Claro, de César Meneghetti (Doc., 2020, SP, 80 min.); “Libelu – Abaixo a Ditadura”, de Diógenes Muniz (Doc., 2020, SP, 95 min.); Nheengatu – A Língua da Amazónia, de José Barahona (Doc., 2020, Brasil/Portugal, 114 min.); “Tentehar – Arquitetura do Sensível”, de Paloma Rocha e Luís Abramo (Doc., 2020, DF, 89 min.); e Todas as Melodias, de Marco Abujamra, Mariana Marinho e Viviane D’ Ávilla (Doc., 2020, RJ, 80 min.)

Esses filmes serão premiados a partir da decisão de um júri formado pelas realizadoras Susanna Lira e Helena Solberg e pelo ator e cineasta Caco Ciocler. Na entrevista a seguir, Lúcio Vilar explica ao C7nema como foi estruturada a seleção.

Como você avalia o recorte documental feito pelo Aruanda e como ele traduz a força da não ficção do Brasil?

Foi concebido e deliberado em nome dos 60 anos do filme “Aruanda”, obra responsável por realinhar o modus operandi de se documentar a realidade brasileira naqueles anos efervescentes. Como bem disse a professora Marília Franco, da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo), o filme paraibano foi uma espécie de “metáfora prévia do Cinema Novo“. Por toda essa simbologia, legitimada imediatamente por Glauber Rocha, e, em seguida por (críticos ensaístas como) Paulo Emílio Salles Gomes, Jean-Claude Bernardet, entre outros, fizemos essa opção corajosa, mas absolutamente coerente com a linha curatorial desta edição. Dito de outra forma: numa época de fake news, pós-verdades e negacionismos irracionais, o documentário nunca foi tão necessário nesse país enquanto eficiente e corrosivo antídoto.

Como o cinema documental manifesta-se hoje na Paraíba e de que maneira o Aruanda se configura como um termómetro dessas manifestações da não ficção no estado?

O cinema paraibano tem um DNA documental desde os seus primórdios, nos anos do cinema silencioso (1920) através de nosso primeiro cineasta, Walfredo Rodriguez. Quando quase todos os ciclos regionais produziam filmes “posados” (ficcionais), o Walfredo Rodriguez funda as bases do género de não ficção em 1919, com algo que será retomado por Linduarte Noronha em 1960, seguindo hegemónico durante todo o século XX. Como costuma dizer (o diretor) Vladimir Carvalho, o documentarismo está na veia do paraibano, de modo que encontramos, hoje, jovens com câmaras digitais imersos nessa seara da captura do real, ainda que a ficção tenha chegado com força nos últimos dez anos.

Como a pandemia afetou as atividades do Aruanda e como o evento deste ano traduz o atual estado de coisas da realidade brasileira?

A realização do Fest Aruanda 2020, celebrando 15 anos, em formato misto (presencial e online), é a expressão última desses tempos pandémicos. Foi uma travessia difícil até aqui, marcada por instabilidades de todos os tipos, como o foi para os demais setores da sociedade, afetados direta e indiretamente pelas indigestas condicionantes e pelo “novo normal” que ainda não sabemos até onde vai. De todo modo, se reinventar num ano atípico como esse, foi um desafio hercúleo, e, por isso mesmo, nós sentimo-nos vitoriosos por essas conquistas até aqui alcançadas. Estamos vivos e isso é muito importante; seguimos na resistência e na guerrilha para botar o circo de pé, ainda que minimamente presencial, e a sua essência imersa no âmbito digital que nos permite, por outro lado, chegar mais longe, significa democratizar radicalmente o acesso. Convenhamos, isso não é pouco.

Quais são as principais frentes temáticas do evento nesta edição? O que esperar da sessão do documentário sobre Magal para o encerramento?

As longas-metragens documentais da mostra competitiva nacional “passeiam” por temas caros à sociedade brasileira como racismo estrutural, questões indígenas, políticas e identitárias, todas atualmente na ordem do dia num país literalmente em transe, com a proliferação de discursos de ódio e uma diagnosticada “saudade” patológica da ditadura militar e dos valores ultra-conservadores. Entre longas e curtas, há uma sintonia fina de tais nuances temáticas, num diálogo que conecta Glauber Rocha e Clemente, um ex-guerrilheiro da luta armada, ambos ambientados nos anos 70, além de jovens universitários que se rebelam através de uma controvertida tendência do movimento estudantil (Libelu), em São Paulo. Há filmes que jogam luzes sobre o cantor Luiz Melodia e os jovens negros da periferia de Fortaleza e da figura mítica de Chico Rei (figura central de Minas Gerais no regime escravocrata). Por aí trafegou o festival, que conta com dois documentários musicais (um sobre a banda Paralamas do Sucesso, na abertura, e um sobre o cantor Sidney Magal, no encerramento), pontuado pelo historiador da MPB Zuza Homem de Mello. Este ganha um perfil assinado pelo cineasta Jorge Bodanzky, que terá exibição junto com o documentário sobre o Magal. Mais coerente, impossível, não é verdade? Vamos “aruandar” que ainda não acabou.

Últimas