A par da religião, um das marcas severas do colonialismo é a imposição linguística (o ensino oficial da língua do colonizador sempre foi uma estratégia de dominação de massas), mas o foco de José Barahona nesta viagem pelo Amazonas, rio acima, rio abaixo, não é a implantação do português na região, mas sim do Nheengatu, uma língua indigena que nasceu depois de 1500 porque os portugueses aprenderam Tupi-Guarani, que era a língua que se falava na costa. Quando os lusos foram entrando no território brasileiro, foram levando essa língua e adaptando-a às outras tribos. Ela tornou-se assim uma língua franca, uma das mais faladas no Brasil, até que o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas e proibiu-a, pois estava a perder o Brasil por causa dela.
Curiosamente, hoje em dia, em tempos de Bolsonaros e de uma cada vez pressão sobre os indígenas, a língua proibida e colonial transformou-se num ato de resistência da população nativa, que lamenta que os mais novos não a aprendem e mantenham de alguma forma uma ligação maior às suas raízes.
A tarefa “quixotesca” de Barahona – em território onde a paisagem natural engole os habitantes- transforma-se num ato “herzogiano” de peripécias e estórias complicadas, com o cineasta mesmo a sofrer uma desinteria, isto quando o hospital mais próximo se encontrava a 8 horas de distância. Esse detalhe, tal como muitos outros apresentados no filme, transformam “Nheengatu – A Língua da Amazónia” num documentário sobre a língua, sobre gentes, mas simultâneamente num making-of sobre o próprio filme em si, onde assistimos a muitas entrevistas, tribo a tribo, povoado em povoado, passando entre o Brasil, a Venezuela e a Colômbia, na chamada tripla fronteira, em busca de uma língua em extinção.
É certamente valoroso o exercício que Barahona executa, mostrando tanto grandes planos de uma tremenda beleza cinematográfica, como imagens caçadas por ele e pelos próprios objetos através de um smartphone. No final, temos um filme didático, educativo, muitas vezes belo e certamente reflexivo, onde na busca das marcas do colonialismo fica claramente a sensação do esquartejamento cada vez mais das praticas e rituais linguísticos do passado, e uma eterna desconfiança perante o “homem branco” que se lhes apresenta pela frente.



















