Fim de Festa: policial com ecos de David Lynch triunfa no Festival do Rio

(Fotos: Divulgação)

O Festival do Rio encerrou a 20 de dezembro

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Após uma maratona de 200 filmes, com direito a masterclass de Pedro Costa sobre a ventura de fazer Vitalina Varela, o 21º Festival do Rio encerrou as suas atividades na quinta-feira com a coroação de um thriller policial intimista e sensual capaz de atualizar as convenções do noir ao se ancorar numa discussão política e moral sobre as exclusões brasileiras: “Fim de Festa”, de Hilton Lacerda.

Filmado no Recife, terra do culto de Aquarius (Kleber Mendonça Filho, 2016), a longa-metragem levou para o seu estado, Pernambuco, o troféu Redentor de melhor filme e o de melhor argumento, num gesto do júri presidido pela produtora Mariza Leão (de sucessos como De pernas Pro ar) capaz de coroar as narrativas de género, as afirmações LGBTQs e a resistência autoral. Duas outras apostas saíram cravejadas de vitórias. Breve Miragem de Sol, de Eryk Rocha, regresso do London BFI, “papou” os troféus de fotografia (Miguel Vassy), montagem (Renato Vallone) e ator (para Fabrício Boliveira). Já Três Verões, de Sandra Kogut, exibido antes em Toronto, foi consagrado com o troféu de melhor atriz, dado ao magistral desempenho de Regina Casé. O prémio de direção foi confiado a Maya Da-Rin por A Febre, que vem arrebatando láureas pelo mundo desde Locarno.

Conhecido como realizador por Tatuagem (2013), Lacerda foi o vencedor do festival graças à solidez narrativa de Fim de Festa [na imagem acima] na construção de uma radiografia da ressaca pós Carnaval, tendo como foco uma investigação do policial federal Breno Wanderley (Irandhir Santos). O trabalho dele para decifrar os segredos por trás de um crime (uma turista foi assassinada em plena folia) se estabelece no meio a uma crónica de prazeres e vivências. Entre os bons filmes da competição nacional de ficções do evento (cujo júri popular premiou o achado M8 – Quando a Morte Socorre a Vida), o trabalho de Lacerda se impõe pela escrita aguda. Uma escrita com ecos de David Lynch não na sua mirada mais surrealista, mas pela sua estranheza na crónica de costumes de diferentes classes sociais, que vão entrando numa (subtil) colisão.


Fim de Festa

O cineasta (um argumentista de nome, com obras aclamadas como Amarelo Manga no currículo) aposta num tom dionisíaco na celebração do sexo como instância de liberdade e a perceção de que a lealdade tem uma dimensão trágica. Há algo de leal entre os primos Breninho (Gustavo Patriota) e Penha (Amanda Beça, de precisa ironia) e o casal baiano Indira (Safira Moreira, capaz de sarcasmos pontuais) e Ângelo (Leandro Villa, um achado, na sua atuação reflexiva). O segundo é focado em Emma (Maria Barreira), francesa morta “à paulada”. Eles vivem num prazer a quatro, numa cumplicidade exponenciada pela leveza e pelo gozo. Breninho tem lá suas questões (silentes) com o pai, mas é leal a ele, ajudando-o na sua investigação do crime contra a francesa.

Vemos esse vértice desse quadrilátero recifense de incongruências morais sob a ótica de um casal de visitantes: ela, vivida por Suzy Lopes, é brasileira; ele é francês, e o seu intérprete é Jean Thomas Bernardini, dono da distribuidora Imovision. O filho dela (Ariclenes Barroso) é o viúvo da estrangeira morta. Mas há algo de podre nesse reino onde Hamlet não tem pais para vingar. Príncipe dessa Dinamarca mestiça, Breno Wanderley tem que driblar convenções legais e advogados de retórica torta para saber o que aconteceu. Nessa jornada, o policial vai rever que é, o que fez e o lugar onde vive, com toda a sua riqueza humana, pontuada por um carnaval que passou, construído na fotografia de Ivo Lopes Araújo sem saturações.

Vencedores do Festival do Rio 2019

MELHOR LONGA-METRAGEM DE FICÇÃOFim de Festa, de Hilton Lacerda
MELHOR LONGA-METRAGEM DOCUMENTÁRIORessaca, de Vincent Rimbaux e Patrizia Landi
MELHOR CURTA-METRAGEMA Mentira, de Klaus Diehl e Rafael Spínola
MELHOR REALIZAÇÃO EM FICÇÃO – Maya Da-Rin, por A Febre
MELHOR REALIZAÇÃO EM DOCUMENTÁRIO – Vincent Rimbaux e Patrizia Landi, por Ressaca
MELHOR ATRIZ – Regina Casé, por Três Verões
MELHOR ATOR –Fabricio Boliveira, por Breve Miragem de Sol
MELHOR ATRIZ SECUNDÁRIA – Gabriela Carneiro da Cunha, por Anna
MELHOR ATOR SECUNDÁRIO – Augusto Madeira, por Acqua Movie
MELHOR FOTOGRAFIA – Miguel Vassy, por Breve Miragem de Sol
MELHOR MONTAGEM – Renato Vallone, por Breve Miragem de Sol
MELHOR ARGUMENTO – Hilton Lacerda, por Fim de Festa
PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI – para o Som do filme A Febre – Felippe Schultz Mussel e Breno Furtado (Som direto), Felippe Schultz Mussel e Romain Ozanne, (Edição de som) e Emmanuel Croset (Mixagem)
Menção honrosa do Júri especialFavela é Moda, de Emílio Domingos e M8 – Quando a Morte Socorre a Vida, de Jeferson De

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