Após recusar a ideia de solidão no curso das personagens de “Sirât”, que pode lhe valer prémios em Cannes na sua primeira indicação à Palma de Ouro, o galego nascido em Paris Oliver Laxe admitiu: “Todos os meus filmes são complicados de fazer”. A frase foi a tónica da conferência de imprensa da sua nova longa-metragem, que virou um ímã de elogios por um misto de aparente incompatibilidade entre o ser radical e ser melífluo numa realização ousada. De caras, temos uma rave em Marrocos, numa região desértica de rochas e areias que parece nos transportar para aquela paisagem.
“Amo a cultura rave e queria partir dela para cruzar o limite do que é humano ao seguir uma figura que confronta com o abismo”, explica o realizador de “Mimosas” (Grand Prix na Semana da Crítica de 2016) e “O Que Arde” (Prémio do Júri na mostra Un Certain Regard de 2019). “É um filme que se desmaterializa ao passar do bate-estacas da música techno a uma instância quase celestial de esoterismo”.

O título, segundo o realizador de 43 anos, já sugere uma dimensão mítica: “Esse nome refere-se ao caminho que liga o Inferno ao Céu, como se fosse um espaço de transformação”.
Na trama de “Sirât”, um pai (Sergi López) e o filho chegam a uma rave perdida nas montanhas do sul do Marrocos. Eles estão à procura de Mar – filha e irmã – que está desaparecida há vários meses numa dessas festas intermináveis. Imersos na música eletrónica e numa liberdade crua que lhes é estranha, eles distribuem incansavelmente a foto dela à espera que alguém a reconheça. A esperança vai-se esvaindo, mas eles perseveram e seguem um grupo de ravers para uma última festa nas montanhas. À medida que se aprofundam na imensidão escaldante, a jornada leva-os a confrontar os próprios limites.
“É um filme feito em família, com a equipa que sempre me acompanha”, disse o cineasta em resposta ao C7, ao confrontar uma analogia com a arena desértica do (também) metafísico “El Topo”, do chileno Alejandro Jodorowsky. “Nunca vi esse filme, nem qualquer outro de Jodorowski, mas li os seus livros e conheço a sua prosa. A referência aqui foi mais ‘Stalker’, Bresson e o cinema americano dos anos 1970”.
A competição pela Palma de Ouro de Cannes termina no dia 24.

