Alberto Iglesias, músico que serve de medula à estética chamada por Caetano Veloso de “Almodrama”, embala Amarga Navidad com acordes de rara sofisticação melódica no cinema europeu contemporâneo. Há algo entre Georges Delerue e Michel Legrand. A banda sonora acelera nos momentos mais refulgentes de uma narrativa que parece semiótica, interessada na arte da dramaturgia, até se revelar apaixonada pela arte de viver, nas suas práticas imperfeitas, mas irretrocedíveis. Destoa por completo da brandura de The Room Next Door, o anterior filme de Pedro Almodóvar, que lhe valeu o Leão de Ouro. Ali havia cheiro de morte; aqui, há um sopro de joie de vivre. Iglesias traduz essa energia nas suas composições.

O elenco acompanha esse tom, em especial Patrick Criado. No papel de Bonifácio, um bombeiro que, à noite, faz striptease, exibe um carisma luminoso — uma espécie de Zac Efron ibérico. Ao seu lado, Elsa, cineasta de “filmes de culto” (expressão que Almodóvar desmonta com humor), dá a Bárbara Lennie um espaço amplo para revelar inteligência, charme e força. A sua interpretação é das mais marcantes da 79.ª edição do Festival de Cannes, na corrida pela Palma de Ouro.

Já estreado em Espanha, Amarga Navidad é um Almodóvar particularmente sofisticado, próximo do nível de Volver, e chegou à Croisette rodeado do habitual fervor que acompanha cada regresso do realizador.

Aos 76 anos, o cineasta manchego volta a transformar o melodrama num laboratório íntimo, aprofundando a vertente autoficcional já presente em Dolor y Gloria (2019). O que aqui se vê é uma exposição mais crua. Na estreia espanhola, o filme foi acompanhado pela frase: “este é o filme em que fui mais cruelmente eu mesmo”. A declaração prepara o espectador para uma autópsia sentimental.

Ambientado entre Madrid e as Ilhas Canárias, o filme articula duas narrativas paralelas que se refletem. De um lado está Elsa (Lennie), uma operária da publicidade devastada pela morte da mãe durante o Natal. Consumida pelo luto e pelo excesso de trabalho, mesmo sob o afeto de Bonifácio, abandona a capital e ruma a Lanzarote, numa tentativa de reorganizar a própria subjetividade.

Do outro lado do tabuleiro semiológico, surge Raúl Durán, cineasta vivido pelo argentino Leonardo Sbaraglia, cujas crises criativas de meia-idade dissolvem fronteiras entre experiência pessoal e ficção, com uma certa dose de oportunismo. A duplicação de histórias, olhares e emoções transforma o filme numa engrenagem metalinguística em permanente combustão, fotografada por Pau Esteve Birba, numa apetência voraz pelas cores da direção de arte de Antxón Gómez.

O recurso do “filme dentro do filme”, frequente na obra de Pedro Almodóvar, em especial desde La Mala Educación (2004), ganha aqui um peso confessional. Em Amarga Navidad, a narrativa parece menos interessada em separar realidade e invenção do que em fundi-las num mesmo fluxo emocional, onde memória, desejo e perda coexistem sob um colorido saturado e enquadramentos estilizados. Elsa, uma leoa, pode ser apenas fantasia de Raúl. A imagem promocional — uma silhueta masculina que contém a figura de uma mulher — sintetiza essa lógica de identidades fragmentadas e afetos que sobrevivem como fantasmas internos. É um Persona que sublima as suas tramas na passionalidade.

Produzido pela El Deseo em parceria com Movistar Plus+, Amarga Navidad reúne ainda nomes históricos do universo do realizador, como Rossy de Palma e Aitana Sánchez-Gijón, ao lado de intérpretes de uma geração mais recente, entre eles Milena Smit e Quim Gutiérrez, que rouba cada sequência em que surge, no papel do namorado de Raúl. O elenco reforça a sensação de síntese de carreira: um filme que revisita obsessões antigas — maternidade, desejo, abandono, performance — com maior depuração formal, sem abdicar do excesso emocional que tornou Almodóvar uma assinatura estética reconhecível em qualquer parte do mundo.

Mais do que disputar a Palma de Ouro que ainda lhe falta, Amarga Navidad parece interessado em radicalizar o próprio “almodrama”. Enquadra-se no que o teórico José Carvalho define como “metamelodrama” (ou “quarto campo narrativo”): uma carpintaria melodramática cuja matéria não reside na experiência sensível do real, mas no próprio cinema — um cinema onde o sentimental nunca é fraqueza, mas matéria-prima de investigação estética e existencial.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
amarga-navidad-e-um-almodrama-com-alegria-de-viverO elenco reforça a sensação de síntese de carreira: um filme que revisita obsessões antigas — maternidade, desejo, abandono, performance — com maior depuração formal, sem abdicar do excesso emocional que tornou Almodóvar uma assinatura estética reconhecível em qualquer parte do mundo.