Pavimento afetivo e dramatúrgico de Darren Aronofsky na concepção do sucesso de público e crítica “The Whale” (“A Baleia”), o autor teatral americano Samuel D. Hunter está no Rio de Janeiro para acompanhar a montagem brasileira do seu texto mais famoso, celebrizado pelo realizador de “Pi” (1998) no grande ecrã… e na cerimónia do Oscar de 2023. Brendan Fraser recebeu a estatueta de Melhor Ator pelo professor de Redação Charlie, papel que, a partir desta sexta, será visto no circuito das artes cénicas do Brasil, no Teatro Adolpho Bloch, encarnado por José de Abreu. A encenação é conduzida por Luís Artur Nunes, um parceiro antigo de Abreu na sua carreira. Como no filme, o espetáculo narra o calvário de Charlie, nos seus momentos finais de vida, que, assolado por um luto devastador, tenta reaver os laços paternais com uma filha da qual ficou afastado. A obesidade mórbida prejudica a sua reeducação sentimental, mas o amor funciona como aríete no seu processo de reconstrução emocional assolado pela finitude anunciada.
A adaptação de Aronofsky ganhou ainda o Oscar de maquiagem. Para interpretar Charlie, Abreu também terá uma caracterização complexa. O ator usa prótese facial e um figurino com enchimento, climatizado. O figurinista Carlos Alberto Nunes e a visagista Mona Magalhães, ambos da Unirio, comandam a concepção desse exoesqueleto.
Na entrevista a seguir, Samuel passa em revista do diálogo entre “The Whale” e a literatura de Herman Melville (1819-1891), autor de “Moby Dick” (1851).
O texto seminal da sua peça “A Case for the Existence of God” fala sobre empatia num espaço de reunião em um cubículo. “The Whale” processa a mesma operação num sofá. Quanto do espaço claustrofóbico das suas narrativas também são uma personagem? O que esse espaço cénico lhe oferece como arena para as suas guerras sentimentais?
Sempre tive interesse em contar as maiores histórias possíveis nos menores contentores possíveis. Acho que isso coloca o público na busca. Quando eles assistem a uma peça com o título absurdamente grandioso “A Case For the Existence of God” (literalmente “Um Caso Para a Existência de Deus”) e se deparam com um cubículo e duas pessoas conversando sobre um pequeno empréstimo, acredito que eles queiram descobrir o que a peça está a tramar. Em ambos os casos, com essa peça e com “The Whale”, espero que o terreno emocional cresça… e cresça… e cresça… até se tornar esmagador tanto para as personagens quanto para o público. Uma coisa é escrever uma peça chamada “A Case for the Existence of God” e encená-la em uma igreja, outra coisa é encená-la num cantinho. Talvez a busca por Deus, por significado, seja mais necessária nesse diminuto terreno.
Como “The Whale”, na sua jornada pelos mares de Herman Melville, o autor de “Moby Dick”, redefine sua relação com a literatura? Até que ponto o Capitão Ahab da prosa literária sintetiza ou prefigura a solidão do homem contemporâneo?
Acho que tanto Charlie quanto Ahab compartilham algo, que é uma fé ou talvez uma obsessão em torno de algo que talvez não exista. No caso de Ahab, é essa obsessão que ele tem em matar essa baleia em particular. E isso o leva à destruição. No caso de Charlie, a sua obsessão é acreditar que a filha, contra todas as indicações, é uma boa pessoa, amorosa e capaz de ser amada. Essa obsessão também o leva a um ponto de destruição. Acho que Melville estava a explorar um aspeto muito real da experiência humana por meio de Ahab, e é por isso que ele ainda ressoa tanto hoje.
Para alguém que era adolescente na década de 1990, ver a vitória de Brendan Fraser na cerimónia do Oscar foi uma alegria. Quanto a sua atuação o emociona e quanto ela reflete a grandeza da peça?
Penso que, na maioria das minhas peças, estou simplesmente a tentar criar um veículo para um ator maravilhoso brilhar. A linguagem das minhas peças não é uma linguagem de ideias ou enredo, é uma linguagem de emoção. Poder escrever para Brendan e trabalhar com ele nos sets foi uma das maiores experiências artísticas da minha vida. E é ainda mais maravilhoso saber que Brendan é um ser humano tão gentil e amoroso.

