Dupla Criação: a Disney do Maranhão

(Fotos: Divulgação)


Sombrio do começo ao fim, mas regado de um colorido antropológico de brasilidade único, “Terra Santa Terra Maldita” – um filme com tintas macabras sobre uma mulher que recorre ao Além para punir um homem amaldiçoado – é a nova animação dos irmãos Nádia e Beto Nicácio, sediados em São Luís, no Maranhão, e conhecidos como Dupla Criação.

Mais e melhor do que um pseudónimo, a alcunha dos Nicácio Bros, hoje é uma marca de excelência nas Américas, a partir do Nordeste brasileiro. Em apenas dez anos, realizaram seis curtas-metragens animadas num estado de mirrado histórico no setor. Fora essas curtas, um projeto de longa-metragem (baseado em romance de Aluísio Azevedo) e publicidade, os dois ainda investem nas BDs, tendo produzido jóias como “Proscritos” e “Jurados de Morte”.

Neste domingo sai um trabalho novo com o traço de Beto, “Além de Lendas”. Professor de Artes na rede municipal de São Luís, Beto desenha e dirige. Nádia, formada em Administração, produz, sendo que, recentemente, aceitou encarar o desafio da realização, ao rodar um documentário chamado “Janela”, centrado em mulheres empreendedoras. Sobrinho dela, o pequeno Felipe Nicácio já dá suas contribuições ao núcleo. O miúdo escreveu o livro infantil “O Machado de Assis” e o seu pai, Beto, desenhou.

Com um volume impressionante de produção, para apenas uma década de existência, Nádia e Beto estão a finalizar “Terra Santa Terra Maldita” de olho nos grandes festivais do país. Esta nova curta evoca os melhores momentos de José Mojica Marins (1936-2020), o Zé do Caixão, pilar brasileiro do horror.

O sucesso do filme no Brasil e fora dele pode redesenhar a realidade do cinema do Maranhã. Na entrevista a seguir, a Dupla Criação explica ao C7nema como funciona a sua luta para sobreviver e criar.

É difícil olhar para a estrutura que vocês têm aqui na produtora, na Dupla Criação, e não pensar num estúdio, quase como uma Disney ou um Ghibli do Maranhão. Como começou o projeto de criar esse núcleo criativo aqui?

Nádia: 
Como o Beto já trabalhava como ilustrador, desenhando cartilhas, tínhamos o sonho de apostar nos quadradinhos. Começamos trabalhando ainda com o Iramir Araujo, que foi nosso sócio, e fomos expandindo. Hoje nós dois, irmãos, entramos por outros mercados, como o da animação, sonhando em abrir um núcleo animado em São Luís. “A Ponte”, uma história do Joaquim Haickel, foi o nosso primeiro projeto, com a direção dele. Era um texto desafiador, muito criativo, com a explosão de uma ponte. Era um desafio para a gente reproduzir aquilo. Mas os desafios batem à nossa porta. E deu certo. Foram seis filmes desde 2011 e ainda temos uma longa escrita: uma adaptação do romance “O Mulato”. O cenário aqui não era muito aberto e a pandemia complicou as coisas pra todo mundo. Mas nossa maior potência são nossos artistas. A maior potência do Maranhão é sua gente.  

Qual seria a “maranhensidade” da sua obra?

Beto: O Brasil não conhece o Brasil. Não explora sua gente e não percebe a riqueza que tem. O Maranhão costuma ser pouco mencionado nacionalmente, fora o facto de sediar algumas das festas populares de maior força do país. E ainda tivemos a pecha de ser um estado ligado a um pensamento oligárquico. Mas a nossa riqueza artística é gigante. Como as BDs e o cinema são espelhos de um povo, tentamos levar a nossa realidade a essas vitrines sem estereótipos e lugares comuns. Cada lugar tem seu diferencial. O diferencial maranhense é ser um quê de resistência, de resiliência e de alegria.

Proscritos

Um filme como “Terra Santa Terra Maldita” sugere a força do empoderamento feminino na representação das mulheres, algo que parece uma marca das BDs e das vossas curtas. O documentário “Janela” parece ir por esse caminho também. Como avaliam esse modo de representar as inquietações femininas?

Nádia Nicácio: 
Tenho me surpreendido por causa do “Janela” principalmente. Conversando com algumas mulheres, tenho me surpreendido com a força, a resistência e com o que representa ser mulher neste país, que é o Brasil. A mulher na família, a mulher na sociedade…No outro dia, estava a conversar e fiz o convite para uma moça, para fazer parte do “Janela”. Ela perguntou o motivo de convidá-la. Eu respondi que ela era uma representante do que vejo de mais forte dentro do “Janela”, por toda a estrutura que ela fez dentro de casa, de ela ser o carro chefe de um lar. Ela disse que, naquela tarde, as mulheres iriam para casa dela aprender a fazer croché e bolinhos, e poder levar comida para dentro de casa nesse momento difícil em relação a emprego. Quem é que vai sem medo hoje, para a luta, sem nada? É a mulher. É ela que bota para poder vender um churrasquinho na porta. Para mim, é resistência e cada vez está muito mais forte.

Beto: 
Quando a Dupla foi criada, em 2001, o motivo da nossa génese foi atender à demanda de sindicatos e ONGs. Nós trabalhávamos para poder montar, diagramar e ilustrar os jornais e as cartilhas informativas para essas entidades ligadas a lutas de classe. A partir daí nasceu em nós um sentimento inclusivo de representação. Acabamos incorporando esse sentimento de luta e defesa de classes. Não estou a falar que colocamos isso como o pilar principal, mas, de certa forma, caminhamos em paralelo a esse pensamento. Dentro das lutas de classes… e dos géneros, naturalmente, estavam a questão das mulheres, as lutas, as representatividades e as dificuldades que elas enfrentam. Dentro desses atendimentos que fazemos, um dos trabalhos foi para o sindicato das empregadas domésticas. Fizemos arte para as bancárias, funcionárias públicas.

Mas além da questão feminina, o cinema e a BD de vocês parecem pautados pelo empenho em expor toda a diversidade de povos do país, valorizando populações negras e indígenas. Como você avalia esse trabalho de tom geopolítico?

Beto: Assimilando todo o caldo cultural da brasilidade, tentamos transmitir a diversidade do nosso modo. Dentro dos nossos trabalhos artísticos, temos muito o campo infantil e meio lúdico. Esse discurso tem a proposta de não ser agressivo e de enfrentamento. Aliás, cabe um enfrentamento de conscientização.

Como vocês avaliam o pólo cinematográfico do estado do Maranhão?

Nádia: 
Eu avalio de modo muito positivo, pois existe muita coisa acontecendo. Há muita gente se especializando, buscando e encontrando um meio de fazer e acontecer. Existe muita coisa boa acontecendo, então para mim, o mergulho na produção audiovisual está fluindo. Hoje, aqui, com a Dupla Criação, temos pelo menos umas dez pessoas.

Como definirias o eixo temático da Dupla Criação?

Beto: Vendo muitos dos trabalhos em que estamos envolvidos, penso em falar do Brasil. Quando fizemos o lançamento da BD “Jurado de Morte”, surgiu muita coisa boa, fomos convidados para conversar com muitas pessoas. Esse foi um momento em que ficou elucidado por mim o lugar de troca simbólica que a arte representa. 

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