Depois de encontrar uma marca própria, autoral, nas curtas, com “Messalina” (2004) e “Hóspedes” (2009), a realizadora gaúcha Cristiane Oliveira, de 41 anos, deslumbrou o Brasil com “Mulher do Pai”, drama de formação (termo usado para histórias de educação sentimental) laureado com o troféu Redentor de melhor direção no Festival do Rio 2016.
Na sequência, foi parar na Berlinale, arrebatando olhares germânicos com as angústias da adolescente Nalu (Maria Galant), cheia de conflitos com o seu pai cego (Marat Descartes). No momento em que essa longa-metragem navega pelos mares bravios da streaminguesfera, ao estrear na MUBI, a realizadora começa a conquistar a atenção com um novo filme: “A Primeira Morte de Joana”.
A sua primeira janela estrangeira deu-se em janeiro, no 51º Festival Internacional da Índia, em Goa. No dia 17 de abril, a produção conquistou o Global Vision Award no Festival Cinequest, nos EUA. Este drama tem mais cinco vitrinas audiovisuais confirmadas, duas delas já foram anunciadas: o 22º Festival Internacional Júnior de Estocolmo (Suécia) e o 23º OUTshine LGBTQ+ Film Festival (também nos EUA, em Miami).
No roteiro, escrito por Cristiane e pela atriz Sílvia Lourenço, Joana, 13 anos, quer descobrir porque a sua tia-avó morreu aos 70 anos sem nunca ter namorado alguém. Ao encarar os valores da comunidade em que vive no sul do Brasil, percebe que todas as mulheres da sua família guardam segredos, o que traz à tona algo escondido nela mesma.
Qual é a representação de Sul do Brasil que une a suas longas-metragens e que demarca a sua investigação para uma região que aproxima o seu país das dramaturgias da Argentina e do Uruguai?
Acho que a minha investigação tem sido mais no sentido de explorar a diversidade do estado que nasci, o Rio Grande do Sul, que, por sua vez, é apenas uma parte dessa região Sul do Brasil. Então é difícil falar de uma representação única, que ligue os diversos espaços geográficos que existem dentro desse espaço. Porto Alegre, cidade em que nasci e cresci, tem uma placa de trânsito muito simbólica: ela aponta três direções. São: Serra, Fronteira, Litoral. Crescer em Porto Alegre é crescer com esse trânsito, pois é um hábito sair da capital em direção a essas regiões, onde sempre tive amigos e familiares para visitar. Então, quando escrevo, o meu olhar volta-se mais para uma determinada comunidade. Na minha primeira longa-metragem, a paisagem era uma vila de 200 habitantes, isolada nos pampas, próxima à fronteira do Brasil com o Uruguai. Já na segunda longa-metragem, as famílias principais do filme são de descendentes dos colonos alemães que estabeleceram-se próximo ao litoral no século XIX. E é a intimidade das personagens – atravessada pelos aspectos geográficos e sociais das paisagens em que estão – que me interessa revelar.
O seu cinema carrega um tom existencialista, ainda que com leveza, mas que parece refletir o vazio que temos. Onde (e como) a ideia de família entra nessa sua representação?
A estranheza de se dar conta que alguns afetos não se encaixam nos modelos tradicionais de estrutura familiar guiou a criação da minha primeira longa-metragem, “Mulher do Pai”. Pela trajetória de Nalu, e como ela vive uma confusão de papéis familiares, o espectador acompanha a intimidade de uma construção afetiva muito própria daqueles personagens. Eles não se encaixam nas expectativas sociais daquele ambiente. Um pai que não cumpre o papel de provedor, uma filha que, tão jovem, de repente vê-se a ter que cuidar do pai. Os conflitos que surgem daí permitem que eles consigam perceber o que os une de facto. Já no segundo filme, “A Primeira Morte de Joana”, a família é uma estrutura forte, na qual a autonomia individual frequentemente choca com o conceito de cuidado e o que é visto como proteção, na verdade, pode vir a ser uma forma de violência para o outro. Em ambos os casos, a família é um espaço em que as protagonistas põem à prova as barreiras alheias e isso ajuda a definir os seus próprios limites.
Como foi começar a carreira de “A Primeira Morte de Joana” pela Índia? O que o festival indiano te trouxe de original, como experiência de projeção lá fora?
Há um grande volume represado de filmes que não encontraram espaço nos últimos meses, em função de cancelamentos ou da redução da grade dos festivais. O ano de 2021, por isso, será super competitivo. Foi muito importante conseguirmos abrir a trajetória do filme num evento desse porte. O International Film Festival of India está entre os grandes festivais do mundo reconhecidos pela FIAPF e é mesmo grandioso, com seções que valorizam a diversidade de cinematografias do mundo todo, além de ser o festival mais antigo da Ásia.
Em 2020, o nosso filme estava entre os pré-selecionados para um festival que foi cancelado devido à pandemia. Então, optamos por nos abrir para outros festivais e não aguardar um ano para tentar novamente o que seria a nossa porta de estreia. Para o filme, foi ótimo, pois assim pudemos aceitar convites de outros festivais que não exigem ineditismo e já temos oito festivais confirmados para este semestre, sendo que o filme foi premiado já na sua segunda seleção, nos Estados Unidos, um território difícil de entrar.
Pessoalmente, estrear no IFFI foi muito bom também para receber opiniões de fora do eixo ocidental a que estamos mais acostumados, é surpreendente saber que o filme ecoou numa plateia com uma cultura diferente da nossa. E, sendo num país que ama o cinema, como a Índia, onde o cinema faz parte da vida de pessoas de todas as classes sociais, foi uma alegria.
O que está por vir, na tua obra?
Tem algo próximo já por vir: a minha terceira longa-metragem, “Até que a Música Pare”, foi selecionadano laboratório de roteiros do Festival de Berlim, o Talents Script Station, que ocorreu em março passado. Foi uma grande experiência, não apenas pela seleção, super disputada. Eram mais de 500 projetos para apenas 10 vagas. Foi uma excelente troca com realizadores e consultores do mundo todo. O projeto é uma coprodução com Itália e estamos apenas aguardando que a Ancine pague para poder começar a pré-produção, sendo que o projeto foi aprovado em 2018.

