Inaugurado na terça-feira no Youtube, celebrando a diversidade do humor, o Primeiro Festival Brasileiro de Cinema Cómico, que decorre até o dia 11, reunindo uma série de curtas-metragens em concurso no www.festcomico.com.br, escolheu a realizadora carioca Betse de Paula como homenageada, revendo deliciosas crónicas de costumes. “O Casamento de Louise” (2001) abriu sua estrada entre as longas-metragens, celebrizando a sua observação dos conflitos do dia a dia. No ano seguinte, com “Celeste & Estrela” (2002), ela abriu o Festival de Brasília com uma história de amor ligada à política dos editais cinematográficos. O seu maior sucesso é “Vendo ou Alugo”, uma saga sobre malandragem na Zona Sul do RJ, laureada com 11 troféus no Cine PE, em Recife. Em paralelo à sua trajetória pelas veredas do riso, Betse tem ainda um repertório de documentários, como “Revelando Sebastião Salgado” (Prêmio Especial do Júri em Gramado em 2013) e “A Luz de Mário Carneiro” (Prémio de Montagem em Brasília, em 2020). Na conversa a seguir, ela faz uma reflexão sobre como fazer rir.
De “O Casamento de Louise” a “Vendo ou Alugo”, a sua comédia parece mais próxima da crónica de costumes, de uma herança neorrealista de observação do mundo a partir de uma lupa social. Qual é a génese cinematográfica desse SEU humor? Que influências carrega? O que ele procura?
Desde o cinema mudo o humor traz essa lupa social: Chaplin, Três Patetas [Três Estarolas], Gordo e o Magro (Bucha e Estica), Harold Loyd. Do humor mais subtil ao histriónico, as personagens eram o outsider, o peixe fora d’água, o excluído do sistema, o apartado do sucesso financeiro. A chanchada sempre brincou com as desigualdades sociais. Oscarito e Grande Otelo interpretavam personagens irreverentes e socialmente inadequadas. Com Ernst Lubitsch, Billy Wilder e Frank Capra, as personagens ganham dimensão, por vezes, épica, e o humor fica mais sofisticado, porém, sempre com um pé no social. É o gangsterismo e a pobreza dos músicos de “Quanto Mais Quente Melhor”. “Do Mundo Nada Se Leva”[Não O Levarás Contigopt], “Mr. Smith Goes To Washington” [Peço a Palavrapt], “A Felicidade Não Se Compra” [Do Céu Caiu uma Estrelapt] eram filmes que têm vilões ricos, banqueiros e empresários gananciosos.
O neorrealismo influenciou-me, é claro, apesar de a minha geração já tê-lo recebido com o filtro do Cinema Novo, principalmente o (diretor) Joaquim Pedro de Andrade, em “Couro de Gato” e “Macunaíma”. Na minha juventude, na época de iniciação profissional, vieram David Neves (diretor de “Fulaninha” e “Muito Prazer”), Domingos de Oliveira (realizador de “Todas as Mulheres do Mundo”) e Hugo Carvana (que dirigiu “Vai Trabalhar, Vagabundo”). Da Europa, Buñuel, Fellini, Lina Wertmüller, Mario Monicelli e, mais recentemente, Almodóvar (“Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”). São muitas as fontes em que bebi desse humor crítico, irónico, que retrata o quotidiano. Devo muito ao José Roberto Torero, o meu parceiro nas três longas-metragens de ficção. A lupa social também compartilho com a minha corroteirista, Julia de Abreu, uma socióloga como eu. Somos parecidas nessa maneira de perceber o mundo, que tem a ver com uma formação semelhante e uma juventude engajada. E buscamos através do humor fazer pensar e trazer a realidade para perto.

Você participou de um lendário debate no Rio de Janeiro, em 2012, sobre o que seria “neochanchada”, com Maurício Sherman e Marcelo Laffite, na Caixa Cultural, onde modelos de representação do riso no Brasil foram discutidos. Uma das questões que você levantou, à época, era a necessidade de se discutir as dificuldades do seu tempo. Hoje, onde tudo anda mais fluído, como seria “esse tempo”? Como é fazer rir? Que personagens ainda cabem para representar o Brasil? Que conflitos ainda nos permitem rir?
Ontem, o Gregório Duvivier, numa crónica brilhante, perguntou se é possível fazer humor com o Titanic afundando. Como rir na pandemia, com 4 mil mortos por dia? Como fazer humor quando o nosso futuro artístico está comprometido por um desmonte das instituições culturais? O mundo e o Brasil estão muito mais para a tragédia do que para a comédia. Nessas horas, nós temos que olhar para a história: o humor sobreviveu à crise de 1929 e à Segunda Guerra. O cinema americano floresceu no pós-guerra. Em todas as épocas, o humor trabalhou nas brechas e deu a volta no tirano, como diz o Ziraldo. O teatro de revista no Rio de Janeiro sobreviveu à gripe espanhola. Não será diferente desta vez. Onde há conflito, há crítica e deboche. O Brasil, como diz o (jornalista) Zé Simão, é o país da piada pronta. Hoje vivemos uma grande piada de mau gosto. Temos um caminho nada fácil pela frente, mas não vamos desistir
O que mudou no Brasil do tempo de “Por Dúvida Das Vias”, um de seus primeiros filmes, para cá? Como é que “O Síndico”, o seu novo projeto, espelha essas mudanças?
O excesso de burocracia, tema daquela curta, permanece até hoje, mudou pouco. Muita coisa mudou: eleições diretas, inclusão social pela educação, representatividade e diversidade. São conquistas que estão ameaçadas de retrocesso, mas que não têm volta, vieram para ficar e isso reflete-se nos filmes, que abordam uma gama enorme de temas novos. “O Síndico” traz um panorama de muita diversidade que tem um pouco de tudo desse novo Brasil do século XXI pré-pandemia. A grande novidade é que a série passa-se no interior da Bahia, Itabuna, num grande condomínio, com personagens inspirados em histórias reais dos próprios atores e atrizes baianos. A sensação é de que todo mundo tem um vizinho como aqueles, abordando as dificuldades de convivência com pessoas diferentes, englobando assim, temas como racismo, homofobia, machismos e lutas identitárias tão presentes atualmente. Tudo feito, é lógico, com muito humor e respeito.
Quais são seus atuais projetos na ficção e no documentário?
De documentário, no dia 14, passa no 2º Festival Mulheres+ do Audiovisual do Inffinito, o meu filme “A Luz de Mario Carneiro”, longa-metragem que recebeu o prémio de melhor montagem no Festival de Brasília 2020. Outro longa documental minha, “Vozes da Floresta”, vai passar nos dias 22 a 29 de abril no Festival Ecobrasil. Estou a terminar agora a segunda temporada da série “Guardiãs da Floresta” para a CineBrasil TV e a série “Pelos Caminhos dos Orixás” para o canal Curta!. Gostaria de filmar uma ficção no sul da Bahia. Estou cheia de projetos de séries e longas, mas sem saber em que porta bater.

