No ar na TV brasileira com uma das séries de mais visibilidade atualmente no seu país – a romcom “Todas As Mulheres Do Mundo”, escrita em duo com Janaína Fisher -, Jorge Furtado é encarado como uma bíblia da arte de escrever roteiros na América Latina. Esse prestígio vem desde que uma curta documental, “Ilha das Flores”, rendeu a este realizador e argumentista gaúcho o Prémio do Júri na Berlinale, em 1990.
Desde então, ele virou uma marca na TV, com sucessos como “Comédias da Vida Privada” (1995-1997); “Doce de Mãe” (vencedora do Emmy Internacional, em 2015); e “Mister Brau” (2015-2018). Angariou troféus, críticas elogiosas e fãs também no cinema, com filmes de culto como “O Homem Que Copiava” (2003) e “Saneamento Básico” (2007). Envolvido ainda em fenómenos populares como “Sob Pressão” (ficção médica serializada de maior êxito de audiência no Brasil), Furtado vai condensar a sua experiência num curso sobre como escrever dramaturgia. As suas aulas integram uma sinergia entre o Centro Cultural b_arco, a Casa de Cinema de Porto Alegre (a sua produtora, no Rio Grande do Sul) e o Projeto Paradiso. Com início a 16 de março, o curso será dividido em 27 aulas, que podem ser assistidas no período de um ano, quando e onde quiserem, inaugurando um novo formato de seminários gravados: o b_arco on. Mais informações podem ser acedidas em https://barco.art.br/. Os colóquios de Furtado abordam temas fundamentais do roteiro cinematográfico: os elementos da linguagem, as etapas de desenvolvimento do roteiro, as personagens, a trama, as cenas, os diferentes géneros e formatos. Na entrevista a seguir, ao C7nema, ele antecipa parte das ideias que vai compartilhar com os seus estudantes e antecipa projetos.
Qual é a dimensão plástica e poética da palavra no cinema? Em que lugar a palavra pode transcender o que Érico Veríssimo chamava de “literatice” e virar audiovisual?
Sempre procurei fazer um cinema que dialogue mais com a poesia que com a prosa. No sentido de que a poesia tem uma métrica, uma rima, repetições, uma duração, um ritmo, ela tem muita coisa na música. Gosto muito da definição do Abel Gance: “o cinema é a música da luz”. Nesse sentido, a palavra poética vai muito bem no cinema. Não sei exatamente o que o Érico chama de literatice, mas quando escrevo para ser filmado, seja no cinema ou na televisão, penso sempre em histórias visuais ou sonoras, histórias que possamos ver acontecer e não histórias contadas. Essas, às vezes, ficam melhor na literatura. A história vista é a que vai bem para o cinema. Há bons textos que são facilmente filmáveis e há bons textos que são impossíveis de filmar. São estilos diferentes. Um conta a história mais com imagens e o outro mais com ideias, reflexões, pensamentos e sentimentos.
De que maneira a experiência de lecionar roteiros e orientar/ supervisionar equipas afeta, melhora, transforma a sua prática como roteirista?
Só aceito fazer cursos de roteiro, dar cursos e palestras de roteiro para aprender. É curioso, mas lembro-me de uma frase do psicanalista Wilfred Bion, que iria dar uma palestra e disse: “Estou curiosíssimo para ouvir o que vou dizer”. Antes de começar, não sei exatamente o que vou falar. Mas para o curso de roteiro, já tenho pesquisado e organizado material e uma lógica mais didáctica. Ao preparar as aulas e estudar sobre cada um dos assuntos, ao ouvir as perguntas e dúvidas dos alunos, aprendo muito cada vez. Este ano que gravei esse curso inteiramente online, são dez horas de material, aprendi muito ao voltar aos textos e pesquisar filmes. Isso ajuda-me bastante porque quase não temos tempo para parar e pensar no que fazemos.
Há 30 anos, um documentário tornou o seu nome e o cinema de não ficção do Brasil famosos na Europa, quando a curta “Ilha das Flores” ganhou o Urso de Prata na Berlinale. O que a escrita de roteiros para documentário tem de diferente em relação à ficção? Como é escrever o Real?
O roteiro de documentário é muito diferente do roteiro de ficção. O roteiro de ficção é quase o filme inteiro. É tudo que a gente imagina que o filme será, no papel, antes dele existir. No documentário, começamos sem saber exatamente o que ele vai ser, porque a realidade acaba impondo-se de várias maneiras. O documentarista precisa estar atento para mudar de rumo, assunto e direção. Talvez o maior exemplo seja o grande livro de não-ficção brasileiro, “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, que é a história de uma mudança de opinião. Euclides saiu de São Paulo a pensar uma coisa sobre Canudos, chegou lá, viu que era uma coisa diferente e mudou de ideias. O documentário é assim, sem sabermos exatamente como vai ser, mas existe muita coisa que se pode prever. A estrutura, momentos, o começo, o fim, perguntas: muito está em um roteiro de documentário. Ainda assim, é bem diferente de um roteiro de ficção.
Como avalia o impacto das novas convenções narrativas do streaming sobre a maneira como se escreve filmes e séries? Um projeto para um streaming como a Globoplay, por exemplo, exige um formato diferente do que se faria na TV aberta?
A tecnologia tem sempre uma grande influência sob a arte e a dramaturgia. Não avaliamos quanto uma grifa [obturador] foi importante para o surgimento do cinema, mas uma peça de metal tornou possível o cinema, assim como um novo tipo de papel tornou o livro possível. Como uma câmara leve tornou possível o Neorrealismo e o Cinema Novo. A tecnologia sempre altera a linguagem. As novas medias, os streamings, certamente vão ter uma influência nas formas de escrita e formas de dramaturgia. Chego a perguntar-me se o cinema de longa metragem – esse formato entre uma hora e meia, e duas horas – vai sobreviver. Certamente não será hegemónico.
Hoje, as séries já são hegemónicas, porque são economicamente mais rentáveis. Elas já estão a superar o formato longa-metragem em muitos streamings. Claro que vai continuar a existir a longa-metragem, mas será que ela não vai diminuir a sua ocorrência? Tudo sempre vai mudando. O streaming é uma forma muito pessoal de ver filmes. Você vê exatamente o que quer, então cada vez mais existem nichos e o filme pode encontrar o seu público mais facilmente. Isso facilita a diversidade porque podes fazer um filme como o “Primavera das Neves”, um filme sobre uma tradutora portuguesa que traduziu Emily Dickinson. É uma coisa que possui um interesse restrito às pessoas que gostam de livros de poesias. Mas ela pode ser encontrada nos streamings de várias maneiras. Não tenho uma maneira de pensar um texto para a Globoplay sendo diferente por ser televisão aberta. Tanto que fizemos uma série, “Todas as Mulheres do Mundo”, escrita por mim e pela Janaína Fischer, sobre a obra do Domingos de Oliveira. Foi escrita originalmente para a Globoplay. O primeiro episódio foi exibido na Globo e depois ficou na Globoplay. É ousada em termos de comportamento, tem muitas conversas sobre poesia, filosofia, política, sobre relações, psicanálise que talvez seja hermético pensar que isso fosse para a televisão aberta. Mas ela está na televisão aberta com uma audiência e repercussão boa.
Quais são seus próximos planos para TV e para o Cinema e como anda a sua carreira como autor de literatura? Novos livros a caminho?
Os planos para televisão e para o cinema foram adiados por causa da pandemia. É o caso do trabalho que era para ser feito em 2020: a longa-metragem do Guel Arraes, “Grande Sertão: Veredas”, que roteirizei com ele. Espero que seja feito este ano. “Todas as Mulheres do Mundo” está a ser exibida e vai até abril. Existem mais duas séries que estão escritas e prontas, pelo menos as primeiras temporadas, com a Globo.
Uma delas já foi divulgada, que é o “Glória”, uma série sobre uma treinadora de futebol. Um projeto já exibido, “Amor e Sorte”, fiz durante a pandemia. Foi o último trabalho escrito depois de “Todas as Mulheres do Mundo”, teve cinco episódios e foi uma dramaturgia da pandemia com o que dava para fazer sobre aquele momento. Foram histórias escritas para serem feitas com atores e com atrizes que estavam quarentenados num mesmo espaço. Foi um trabalho interessante, mas não sei se haverá mais.
Existe um livro a caminho e chama-se “Dama Negra”. É uma história de poesias e piratas, que se passa no século XVII. O livro está a ser ilustrado. Tem muita coisa pela frente, incluindo o curso, ao qual dediquei-me bastante durante 2020, para gravar essas 27 aulas.
Como foi a passagem do Ilha das Flores em Berlim?
Essa história do “Ilha das Flores” em Berlim, no momento da queda do Muro, daria uma longa-metragem, ou, pelo menos, uma novela curta. Foi um momento muito especial. Estava lá e ajudei a derrubar o Muro de Berlim. Fui junto com aquela gente que ia todas as noites tirar lascas do Muro. Trouxe muitas lascas do muro para distribuir aos amigos. A apresentação do filme foi muito impactante.
O filme começou com as pessoas rindo muito, o que acontece normalmente, e quando o filme dá aquela sua virada, as pessoas pararam de rir. Teve apenas uma voz que riu. No final, o filme foi muito aplaudido. Aconteceu uma coisa curiosa, porque ficamos na coxia do teatro para entrar depois da exibição dos filmes da noite. Em Berlim, era assim: a equipa era chamada após a exibição do filme. Nós ficámos na coxia com a Nastassja Kinski. Ela estava com um filme italiano (“Il Segreto”, de Francesco Maselli) e, quando, entrou, foi muito vaiada. Ficamos tensos e quando fomos chamados o filme foi muito aplaudido no palco. Dias depois, recebemos uma ligação a dizer que o filme tinha ganho o Urso de Prata. Eles avisaram antes para nós irmos à noite buscar. O debate foi muito interessante e as pessoas ficaram muito impactadas pelo filme. Depois, a sessão em Berlim Oriental também foi ótima e acabou sendo um momento bem especial.
Outra curiosidade é que começamos a vender o filme ali. Imediatamente tinha gente a queret comprar o filme. Um produtor americano da First Run/Icarus Films, uma distribuidora, procurou-nos e queria comprar o filme para distribuir nos EUA. Mas ele queria tirar a cena dos judeus, do Holocausto, para os EUA. Não aceitei tirar cena nenhuma. Ele disse que não teria como vender o filme por lá com a cena e continuei a não tirar. Não vendemos. Um tempo depois, o filme ganhou o Festival de Jerusalém e o mesmo homem aceitou comprar o filme sem tirar a cena.

