Matteo Garrone alterna a violência de ‘Dogman’ com o lirismo de ‘Pinóquio’

(Fotos: Divulgação)

Laureado duas vezes com o Grande Prémio do Júri de Cannes, por “Reality”, em 2012, e por “Gomorra” (2008), considerado um dos maiores filmes de máfia já feitos, o romano Matteo Garrone, um pintor que migrou para o cinema em 1996, anda pincelando as suas representações do Velho Mundo com as cores da fábula.

Há um ano, ele foi ovacionado na Berlinale com a sua versão para “Pinocchio” (1883), de Carlo Collodi (1826-1890), que em Portugal estreou em novembro passado, mas que acaba de chegar ao mercado brasileiro. Com uma abordagem ao mesmo tempo divertida e sombria da prosa de Collodi, o filme com orçamento de €11 milhões estreou em Itália às vésperas do Natal de 2019, vendendo milhões de ingressos, e configurando-se como um sucesso comercial pronto para exportar. Apoiado numa exuberante direção de arte, o filme de Garrone conquistou no circuito europeu, antes de chegar a pandemia, cerca 21 milhões de dólares, dos quais 17 milhões foram arrecadados no seu país de origem.

Roberto Benigni é o principal destaque do elenco. O oscarizado ator e realizador de “A Vida É Bela” (1998) vive o carpinteiro Geppetto. Benigni havia interpretado Pinóquio numa versão que dirigiu e protagonizou em 2002, sem muito êxito comercial. Agora, como Geppetto, tudo mudou, e não faltam elogios para esta longa-metragem do produtor inglês Jeremy Thomas (de “O Último Imperador”). Federico Ielapi é quem vive Pinóquio, um brinquedo de madeira que ganha vida e passa a frequentar a escola, tendo numa entidade em forma de insecto, chamada Grilo Falante (na voz de Davide Marotta), a sua consciência. Mas no desejo de se tornar um menino de verdade, envolve-se em mil confusões, sendo ameaçado de se transformar num asno. Uma fada (Marina Vacth) será a sua salvação – ou quase – nas susa andanças pelo mundo. Na entrevista a seguir, concedida por telefone ao C7nema, Garrone faz uma semiologia da fabulação.


Existe uma mirada assustadora no seu “Pinóquio” que, embora não esmoreça a dimensão de encantamento da história, de modo algum, abre precedentes para uma reflexão sobre a violência inerente à prosa de Collodi. Mas você tem um histórico memorável de filmes violentos, como “Gomorra” e “Dogman”. Qual é o lugar da brutalidade na sua obra?

O meu aporte para a violência é o mesmo para o medo, por serem forças que caminham em compasso na condição humana. São sentimentos. Mas o meu empenho, numa realização, é estabelecer uma conexão da violência com as contradições sociais e económicas à nossa volta. “Gomorra” não queria ser um thriller de ação e, sim, um estudo sobre infâncias roubadas pelo crime organizado. “Pinóquio” é um estudo sobre escolhas infelizes e sobre as tentações que nos rodeiam.     

E o quanto desse conceito vem de Collodi?

Eu desenhava a figura de Pinóquio quando era criança, a partir das lembranças dos desenhos animados, mas não fazia ideia de onde aquela figura vinha, do trabalho de Collodi. Só li o livro dele há uns sete anos. Toda a gente tem a sensação que conhece a história de Pinóquio, pois é uma narrativa universal, mas não temos ideia do quão específica aquela trama é e do quão rica pode ser. Tentei levar para o meu filme questões que não encontrava em nenhum dos filmes derivados de Collodi, mas que estivessem no livro. Uma das questões é a diversidade de perigos que circundam a infância, tentando as crianças.  

De que maneira essa sua releitura celebra a relevância estética dos contos de fadas? E quanto a “Conto dos Contos” (2015), baseado em Giambattista Basile (1566–1632)?

As fábulas permitiram-nos conhecer os arquétipos da psique humana, numa ponte direta com a cartografia de humanidades que os gregos, nas tragédias, começaram a documentar. O que procuro fazer, ao operar com as fábulas, é mesclar realismo e fantasia, levando um pouco de um para o outro, misturando o que é lúdico com o que existe de mais duro no real.

E de que maneira esse procedimento conversa com a tradição do cinema italiano?

Sou influenciado por muitos dos grandes realizadores do meu país. Se tivesse que fazer uma escolha radical acerca de quem mais me influenciou, falaria de Rossellini e Fellini, mas há todo um legado de Elio Petri, de Marco Ferreri e de Monicelli em mim. Tento preservar uma relação vívida com o passado, como muitos dos meus contemporâneos fazem. Fico muito feliz ao saber que o cinema italiano tem atravessado as nossas fronteiras, em parte pela diversidade do que fazemos, honrando os grandes mestres que nos antecederam.   

E de que maneira a covid-19 abalou os seus planos?

Estou, neste momento, a ler coisas diversas, atrás de um novo projeto. Mas aqui em Roma, a situação parece apertar, em relação à pandemia, pelo menos nas próximas semanas.   

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