Soldado Estrangeiro: a guerra como fetiche

(Fotos: Divulgação)

O que leva um jovem a buscar o caminho da fé e entrar para um seminário? A essa pergunta o cineasta José Joffily respondeu com “O Chamado de Deus”, em 2001. Curioso para entender o que conduz a juventude carioca a ingressar na eleição para os vereadores, fez um outro filme conetado à ideia da “convocação”, do “chamado”: “Vocação do Poder” (2005), assinado em parceria com Eduardo Escorel. Agora é a vez deste mestre do thriller, consagrado por “Olhos Azuis” (2009) e “2 Perdidos Numa Noite Suja” (2002), regressar ao documentário para dar conta de outra vocação, agora a do militarismo, com “Soldado Estrangeiro”. Realizado em duo com Pedro Rossi, o seu parceiro de “Caminho de Volta” (2015), a longa-metragem vai numa contramão à cultura militar ufanista que se reestabeleceu no Brasil após a vitória de Jair Bolsonaro na disputa eleitoral de 2018 pela presidência. O foco de Rossi e de Joffily está nas razões que levam um brasileiro a querer alistar-se em forças armadas do exterior.

Exibida no É Tudo Verdade e no Docs MX – Festival Internacional de Documentário da Cidade do México, em 2019, o filme chega agora ao circuito exibidor do seu país de origem seguindo os passos de três militares. O primeiro apresentado no filme é o aspirante Bruno Silva, carioca da periferia do Rio de Janeiro. Ele deixa a família para trás, junta todas as suas economias e parte para França, sem falar o idioma local, com a intenção de realizar o sonho de servir na Legião Estrangeira. Com exclusividade, o filme regista o rigoroso processo de seleção da unidade militar de elite.

Já o combatente Mário Wasser é um jovem da classe média paulista. Serve ao exército de Israel, numa base militar na Cisjordânia. O mais jovem dos três parece ser também o mais bem adaptado e confortável na função, fluente em hebraico e usufruindo dos benefícios que o exército oferece, como a casa e os estudos.  

O terceiro brasileiro é o veterano Felipe Nascimento, que vive atualmente em Nova Iorque. Ele saiu do Brasil para servir como fuzileiro naval no exército do Tio Sam. O ex-combatente, que atuou na Guerra do Afeganistão, não esconde, no entanto, as marcas deixadas pela guerra.

Quais são as noções de militarismo que norteiam a concepção de “Soldado Estrangeiro“, não na afirmação dessa égide militar, mas no sentido de pensar as bases de poder (e de fetiche) que a farda representa?

José Joffily:
 Farda, sobretudo a militar, nos tempos bicudos que vivemos aqui, evoca segurança, remuneração fixa e status. Quando era menino aqui no Rio, os fuzileiros navais faziam grande sucesso com as moças. Acho que é no filme “Rio 40 graus”, que Pedro, uma personagem do ator Roberto Battaglin, seduz Rosa, interpretada pela Glauce Rocha. Para a nossa personagem Bruno, vestir uma farda da Legião Estrangeira era a garantia que sua família, no Brasil, teria segurança financeira. Claro que não é só um desejo que leva o Bruno a abandonar Mesquita, na Baixada Fluminense. Mesquita, por si só, já é abandonada. Da mesma forma, no exército de Israel, os soldados têm privilégios e gozam de prestígio. Ainda mais numa zona ocupada como a Cisjordânia, onde as tensões com os palestinos lembram muito aquelas que vivem os cariocas na desigualdade social. O Felipe, o veterano, talvez já tendo sido usado o suficiente. E, agora, batalha pelos seus direitos. Mas em algum momento, ele talvez acreditasse que teria um status, mesmo sendo imigrante latino.  

Pedro Rossi: Cresci vendo filmes do Rambo e torcendo pelo Schwarzenegger enquanto ele fuzilava cucarachos de Valverde no filme “Comando para Matar” [Comando, em Portugal]. Depois de um tempo, já adolescente, a ficha começou a cair. Eu era o cucaracho de Valverde. Nessa época, conheci Pedro, amigo de escola que partiu muito novo para os EUA e serviu como soldado numa divisão de elite do exército americano. Ele acabou morrendo em um campo de treinamento dos rangers, depois de ir duas vezes ao Iraque, engajado em missões para defender os interesses de um país que sempre foi uma espécie de antagonista da América Latina. Os EUA participaram ativamente do golpe de 64 e sempre defenderam os seus interesses por aqui com muita agressividade. Por que meu amigo de escola, alguém de classe média nascido em Copacabana, deu a vida pelo Tio Sam? Essa pergunta era muito importante para mim porque, de alguma forma, eu também já fui seduzido pela narrativa americana e pelo fetiche do guerreiro. Me senti muito atraído pela trajetória desse meu xará. Para além dos padrões ancestrais de comportamento que estão ligados à atividade, existe também a sedução provocada por ações poderosas de propaganda destas instituições.

De que maneira o cinema alimenta ou nega uma noção de belicismo na ficção e no documentário?

José Joffily: 
A guerra é cinematográfica. Uniforme e soldados também. Mas não foi a guerra ou seus soldados que mais me instigaram a fazer “Soldado Estrangeiro”. Acho que foi a imensa curiosidade por aqueles que se aventuram a mudar de vida e o que decorre depois dessa mudança. De início pensamos em acompanhar um único voluntário do começo ao fim da carreira. Mas, nas conversas, – não sei se com o Pedro, com a Isabel Joffily, a nossa produtora, ou comigo mesmo – ficou logo claro que isso seria impossível. Diante da impossibilidade, surgiu então a ideia de fazer essa trajetória através de três personagens: o que sonha em partir e parte; outro que já está vivendo o seu sonho e o terceiro que passou pelas duas etapas e vive o desfecho. Assim, seriam três em um. Mas é verdade também que, se guerra e soldados “de verdade” não foram a primeira motivação, alguns filmes de guerra povoam meu imaginário. 

Pedro: O livro “National Security Cinema“, da dupla Matthew Alford e Tom Secker, narra de forma precisa e embasada em documentos oficiais norte-americanos que vieram a público no Freedom of Information Act, como os EUA investiram e investem bilhões de dólares em produções de cinema que vendem os seus ideais e, sobretudo, defendem a sua agressiva política externa. As revelações são surpreendentes. Quando vemos que algumas destas franquias produzidas com suporte e logística do Pentágono ocuparam quase toda a cadeia de cinemas do Brasil, como por exemplo os filmes dos Vingadores e dos Transformers, percebemos como é poderosa esta máquina de guerra chamada cinema. Mas, para além das produções de propaganda, existe também o fetiche que o cinema cria em torno da atividade do guerreiro. A narrativa das aventuras de soldados em campos de batalhas acompanha a humanidade desde os primeiros registos nas rochas. O cinema pertence, como ferramenta cultural, a esta tradição. E cumpre muito bem o papel: nos filmes as guerras são normalmente representadas como lugares dinâmicos, onde tudo pode acontecer: romances, atos heroicos, bravuras indômitas, a lealdade e a amizade dos “irmãos de armas” é a maior que se encontra na terra. Talvez tudo isto de facto ocorra em torno de uma guerra, mas é seguro afirmar que, na maioria das vezes, o que se tem é um cenário tedioso e de sofrimentos físicos e psicológicos nada glamourosos. A guerra é muito mais um filme do Bruno Dumont do que do Steven Spielberg.

Que filmes clássicos de guerra alimentaram o imaginário de vocês?

José Joffily: Johnny vai à guerra” [E Deram-Lhe uma Espingarda, em Portugal] do Dalton Trumbo é o primeiro. O início do filme é uma conclamação de voluntários para a guerra. Logo antes dos cinco primeiros minutos, uma bomba explode e Joe vira apenas o número 47, um homem que perdeu braços, pernas, olhos, nariz e boca. E, resgatado da frente, é escondido num depósito para que ninguém veja e se assuste com aquele que virou um tronco. “Glória feita de sangue” [Horizontes de Glória, em Portugal] seria o segundo. E conta a história de um general que ordena um ataque suicida e, depois do fracasso, responsabiliza três soldados que são condenados ao fuzilamento. Esse filme e o outro advertem que é sempre prudente desconfiar daqueles que te mandam para o front.

Pedro Rossi: Fui forjado, como todo brasileiro nascido nos anos 80, pelos filmes que passavam na “Sessão da Tarde” da TV Globo, e meus preferidos eram “Comando para Matar” e a franquia “Rambo”, nesta ordem. Ficava fascinado pelo armamento pesado daqueles caras fortes, que matavam a todos como moscas. Aquilo pode ser muito sedutor, sobretudo para crianças. É surpreendente como a guerra e o assassinato são considerados menos ofensivos ao público infantil do que outros temas, como a sexualidade, que desperta todo tipo de tabus e reações de grupos conservadores. “Apocalipse Now”, “Nascido para Matar” e “Platoon” devem, provavelmente, estar no topo da lista da maioria dos cinéfilos. Assisti aos três dublados [dobrados] em português e ainda muito criança, então eram daqueles filmes com que você tem uma relação que já nem passa pela crítica. Eles são objetos pelos quais tenho um afeto juvenil. “Além da Linha Vermelha” [A Barreira Invísivel, em Portugal] foi, para mim, o primeiro que trouxe uma nova camada e um desconforto com aquilo que via nas telas do cinema e onde pude captar a subjetividade da narrativa, sem o filtro que me separava dos demais filmes de guerra que conhecia. Desde então, são inúmeros os filmes que entram na minha lista: “O Bom Trabalho”, da Claire Denis, capta as sutilezas das relações humanas dentro da Legião Estrangeira; “Flanders”, do Bruno Dumont, retrata com muita habilidade o tédio e o absurdo da guerra na vida de pessoas ordinárias; o documentário “Hell and Back Again”, do Danfung Dennis, é um filme extraordinário e muito revelador da sociedade americana. Falando especificamente do “Soldado Estrangeiro”, “Johnny Vai à Guerra”, do Dalton Trumbo, e “A Batalha de San Pedro” [A Batalha de San Pietro, em Portugal], do John Houston, foram dois filmes extremamente valiosos, porque deixaram muito evidente para nós a noção de que “todo os filmes de guerra devem ser antibélicos”. Essa máxima do Houston foi um norte.

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