Disputado pelos cineastas que sonham com salas de exibição cheias e muito riso a ecoar pelo circuito, Paulo Cursino – um paulista de Taubaté formado em Publicidade e com experiência em programas de TV – é hoje um Midas na indústria audiovisual das Américas.
Tem 34 milhões de bilhetes vendidos no seu currículo, à força de filmes como “Até Que a Sorte Nos Separe” (2012), “Fala Sério, Mãe” (2017) e mais uma leva de blockbusters. O seu nome faz qualquer distribuidor sorrir de véspera, como garantia de plateias tamanho XXL. No termómetro da popularidade, a longa-metragem mais esperada de 2020 no Brasil, entre os potenciais campeões de bilheteira, é assinada por ele (claro!), mas acabou ficando sem lar no grande ecrã, por conta da pandemia, e foi diretamente para o streaming: “No Gogó do Paulinho”.
Trata-se de uma das principais apostas da Amazon Prime para este fim de ano, que já vem arrebanhando um boca a boca dos melhores. Nada visto em terra (incluindo na “streaminguesfera”) brasileira, de janeiro para cá, foi mais engraçado e mais falado com a tradição dos ídolos das chanchadas (filão cómico que mobilizou multidões de espectadores de 1934 a 1962, sendo reinventado nos anos ’70 e 2000) do que essa love story galhofeira. Numa brilhante reinvenção paródica de “Forrest Gump” (1994), Cursino e o seu habitual parceiro, o realizador Roberto Santucci (outro Midas), escolheram um comediante hoje íman de público, Paulinho Gogó (personagem de Maurício Manfrini), para sentar num banco de praça, a contar a história do seu quiproquó amoroso com Juju (Cacau Protásio).
Com cerca de 20 longas-metragens como autor, Cursino começou no cinema escrevendo narrativas infantojuvenis para Renato Aragão, como “Didi, o Cupido Trapalhão”, uma das maiores bilheteiras nacionais de 2003.
Em 2010, assinou em parceria com Marcelo Saback o roteiro de “De Pernas pro Ar”, protagonizado por Ingrid Guimarães, que virou fenómeno e rendeu mais duas continuações. Em 2018, foi autor (com Odete Damico) e produtor do hilário “Os Farofeiros”, também com Manfrini, que tornou-se a comédia de maior sucesso daquele ano no Brasil, estabelecendo uma nova franquia, com segundo e terceiro filmes previstos para 2021 e 2022. Os seus roteiros já foram adaptados para outros países com sucesso, sendo o mais recente o “The Honest Candidate”, na Coreia do Sul, e “Pobre Família Rica”, adaptação de “Até que a Sorte nos Separe”, para o México. Atualmente está sob contrato com a Netflix, onde escreverá e produzirá três longa-metragens marcadas com o selo de “Originals“. Diante dessa produtividade toda, Cursino conta ao C7nema de onde vem tanto fôlego para criar e subverter “caretices”.
O que caracteriza o humor de Paulinho Gogó e qual é o desafio de escrever para ele? De que maneira “No Gogó do Paulinho” se inscreve na tradição do humor brasileiro?
O desafio maior é transformar uma tradição oral em audiovisual. Nem toda a piada é adaptável, então tivemos que trabalhar em cima do que era possível, não apenas do que era engraçado. Era mais um trabalho de seleção do que de criação. A criatividade estava mais na execução do que na ideia e isso é diferente de tudo que já havíamos feito antes. Trata-se mais de um roteiro adaptado do que um roteiro original. O que não queríamos perder, de jeito algum, era o carácter da personagem. Tínhamos que protegê-lo, valorizá-lo. Porque o Paulinho Gogó é uma personagem-síntese dos nossos melhores contadores de piadas, uma figura tradicionalíssima do nosso humor, e que o Maurício Manfrini domina como ninguém hoje. Raramente, ele conta uma piada própria. Ele simplesmente se apropria de piadas clássicas, conhecidas, e reconta da sua forma. A arte está na escolha do material, no encadeamento das piadas, e, claro, no próprio jeito de contar essas piadas. Sempre tivemos grandes contadores. E muitos comediantes famosos um dia fizeram shows com este tipo de material. De Grande Otelo a Zé Trindade, de Ankito a Costinha, de Lilico a Juca Chaves, de Tutuca a Ary Toledo, nunca faltaram talentos nos nossos palcos. Até mesmo Chico Anysio e Agildo Ribeiro já fizeram shows com piadas de salão, pois é um tipo de humor que sempre teve boa acolhida do público. Poucas coisas eram mais engraçadas do que Ronald Golias e a sua personagem Carlos Bronco Dinossauro quando se sentava no banco do programa “Praça da Alegria” e batia bola com Manoel de Nóbrega. O Paulinho Gogó é um descendente direto. Não à toa, também se fez no (programa de TV) “Praça é Nossa” com o Carlos Alberto de Nóbrega, filho do Manoela. Há poucas coisas mais tradicionais dentro do humor brasileiro. Os contadores de piada são parte da nossa cultura.
Como é que funciona a sua parceria criativa com Roberto Santucci e de que maneira a dinâmica de direção dele influencia o seu humor?
A nossa parceria é muito tranquila, já estamos muito acostumados a trabalhar juntos. Normalmente, trago a proposta da história, a ideia, e debatemos alguns caminhos. Ele participa desde o primeiro momento. Fechados conceito e proposta, parto para a estrutura da história, cenas, situações e piadas. Santucci lê o primeiro tratamento e traz algumas ideias, algumas pirações. Ele enxerga tudo de forma mais visual. Eu, normalmente, evito dar muito trabalho. Também sou produtor, sei quanto custa fazer algumas cenas. Por exemplo, em “Os Farofeiros”, havia colocado a piscina de água verde na casa apenas como uma piada visual e rápida, nada aconteceria ali. Foi Santucci que falou: “temos que fazer alguém cair nessa piscina, tem que dar confusão”. Então eu pirei. Eu trouxe a ideia de fazer a personagem da (atriz) Danielle Winits, a maior dondoca do filme, caindo e saindo da piscina feito a Samara de “The Ring”. Esta ideia, escrevi ao lado de Santucci e gargalhávamos juntos só de imaginar a cena. A gente parava de trabalhar no roteiro para rir. Sempre que isso acontece no roteiro, a coisa funciona no set. Esse nosso bate-bola é muito bom. Santucci é um diretor atento e generoso. Eu sou mais chato e complicado, pois me apego mais, mas a nossa dinâmica tem funcionado. Costumo dizer que foi o meu casamento que mais deu certo.
Como você avalia o humor que é feito hoje no Brasil e de que maneira as plataformas digitais podem abrir um novo veio para a comédia?
Acho que o humor brasileiro hoje passa por um momento muito complicado. Nós perdemos o teatro. Faz tempo que não temos comédias de sucesso nos palcos. A TV aberta parou de revelar comediantes, a fechada também, e o nosso humor ficou refém da cena stand-up e das plataformas digitais. Note bem: gosto muito da cena do stand-up brasileiro, e de muita coisa que vem do YouTube e tudo o mais. Tem muita gente boa, mas que se encerra no próprio stand-up. Há exceções como Danilo Gentili, que manda bem em tudo, mas é raro. Infelizmente temos um cenário que não forma ator, não forma comediante, forma gente engraçadinha, falando da própria vida, e forma animadores de eventos. O grande diferencial de uma Ingrid Guimarães, de um Leandro Hassum, ou de um Paulo Gustavo, por exemplo, é que eles tiveram formação nos palcos, são mais completos. Por isso, interpretam qualquer coisa e conseguem criar personagens tridimensionais. A molecada que está vindo do stand-up é ótima de texto, rápida, esperta, mas raramente interpreta bem. Não sabem construir ou sustentar personagens simples, não têm humor físico ou ideia do que seja partitura corporal, essencial para o humor audiovisual. O humor brasileiro não pode se limitar a ser piadinhas de “eu não entendo…” ou em imitações canhestras de políticos. Hoje temos aí as plataformas de streaming abrindo possibilidades incríveis para se fazer longas, seriados, sitcoms de primeira, mas temos pouquíssimos comediantes que conseguem dar conta deste espaço. A ironia é que, no momento em que há mais demanda, há mais procura, estamos com pouca gente preparada à mão. Falta escola, falta estudo. Mas acho que é momento. Isto vai acabar se reequilibrando um dia.
Quais são as suas impressões das versões estrangeiras de seus roteiros?
Eu gosto muito de ver. Sempre acho divertido ver as diferenças culturais e o modo como os roteiristas as readaptam. Normalmente as adaptações são mais limpas, mais bem comportadas que as nossas. A versão sul-coreana de “De Pernas pro Ar” desenvolveu melhor a personagem do marido da protagonista. Há sequências e piadas ótimas com ele. Fiquei enciumado, pois queria ter pensado em algumas coisas que eles pensaram. A sacada da versão também sul-coreana de “O Candidato Honesto”, em trazer uma personagem feminina como principal, foi ótima, abriu outra vertente para as piadas, e a comediante era muito boa. Já a personagem do assessor ficou bem parecido com o que estava no nosso roteiro original. Sempre observo muito quais as piadas e sequências sobrevivem, acho que é a grande prova de fogo delas. A versão mexicana do filme “De Pernas pro Ar” tem muito disso. Fico orgulhoso de ver uma cena feita de forma idêntica, pois é sinal de que há universalidade ali. Estou muito curioso para ver a adaptação do roteiro de “Até que a Sorte nos Separe” na Alemanha. A mexicana é muito parecida com o nosso.
Como você avalia a velha lenda de que o ponto fraco do Brasil no cinema é o roteiro?
Sempre tive uma opinião muito dura sobre isto: isto não era uma lenda, isto era canalhice de produtores e diretores brasileiros das antigas. Do modo como falavam, parecia que tínhamos um Bob Evans ou um Steven Spielberg em cada esquina e que, ó, coitados, os pobres génios não tinham roteiros à altura do seu grande talento. Nunca foi verdade. Se formos dar a real, encarar os factos com honestidade, saberíamos que o cinema brasileiro sempre teve deficiência profissional em todos os setores e o roteiro NUNCA foi o nosso maior ponto fraco. O nosso maior problema, de facto, eram produtores e diretores incapazes de aprovar ou ler um roteiro como se deve. Certa vez sentei-me numa mesa de leitura com um realizador e toda a equipa. Em uma das rubricas do meu roteiro, escrevi uma onomatopeia (a descrição de um som) e nem lembro qual era, pois trata-se de um recurso que uso muito pouco, mas quando bem colocado ajuda a “fluição” e o entendimento da cena. O diretor parou a leitura e ironizou, perguntou-me se era para fazer exatamente aquele som, ou se ele poderia criar algo. Claro que não deixei barato. Eu disse que se ele conseguisse fazer qualquer coisa que estivesse no roteiro EXATAMENTE seria um milagre, até porque eu não tinha esperanças que ele acertasse muita coisa. Ficou um climão. Então ele disse que nunca leu uma marcação de roteiro assim, ironizando novamente, achando que era invenção minha. Então respondi na frente de toda equipa: “eu tenho quinze anos de carreira, leio de trinta a quarenta roteiros hollywoodianos por ano, e faço consultoria para cinco produtoras, então acho que domino a técnica. Não tenho culpa se você aqui é quem lê muito pouco”. Bem, este era o nível de grande parte dos produtores e diretores brasileiros até dez anos atrás. Os caras não sabiam ler. Quando liam não entendiam, quando entendiam não sabiam executar. Daí davam entrevistas dizendo que o problema era o roteiro. Jogo baixo. Por sorte, este tipo de picaretagem diminuiu bem. Hoje a maioria dos realizadores tem noção de roteiro, respeitam mais os roteiristas, e sabem onde o calo realmente aperta: na afinação entre texto e direção. Este SIM sempre foi o nosso maior ponto fraco.
Quais são seus atuais projetos e que roteiros seus já estão rodados?
Tem muita coisa. Realmente trabalhei bastante nos últimos dois anos. Tenho três filmes rodados no momento e prontos para estrear. Um deles é “Tudo Bem no Natal que Vem”, pela Netflix, a nossa primeira parceria com o canal, e que irá ao ar no próximo dia 3 de dezembro. Tem “Incompatível”, uma adaptação de um roteiro americano encomendada pela produtora Gullane: uma comédia romântica com o mundo YouTuber de fundo. E, também com a Gullane, temos “Quatro Amigas numa Fria”, uma comédia romântica que rodamos em Bariloche, um dos filmes mais bonitos visualmente que já fizemos. Para o ano que vem rodaremos, no primeiro semestre, “Um Vizinho do Barulho”: é o título provisório de outra comédia que escrevi para a Netflix, um filme onde estrearemos uma dupla, Leandro Hassum e Mauricio Manfrini. Para o segundo semestre, finalmente, rodaremos um roteiro que é muito caro para mim, que estamos já há sete anos em cima dele: “Mussum, o Filmis”, a cinebiografia do trapalhão Mussum, que será dirigida por Silvio Guindane. Para 2022, tenho a encomenda de “Farofeiros 2” e de mais uma comédia para a Netflix, cujo argumento entregarei no ano que vem. Fora isso, estou trabalhando no terceiro tratamento do meu primeiro roteiro de suspense, o “Anônima”, filme sobre o universo do sexo virtual e sobre aplicativos de encontros. Se tudo der certo, rodaremos no ano que vem. Depois de tanta comédia estou achando um alívio escrever para um género diferente. Dá para respirar. Às vezes é mais divertido não ser divertido.

