A maior região administrativa do Distrito Federal, numa área estimada em 230,3 km² próxima à capital do Brasil, com um registo de 500 mil habitantes em seu site oficial, a Ceilândia virou poética, gerou política(s) e tornou-se um cartão postal de resiliência no cinema de Adirley Queirós, que tem em “Branco Sai, Preto Fica” (2014) uma carta de intenções na sua estética de inclusões, denúncias e rap.
Nascido em Morro Agudo de Goiás, há 50 anos, ele foi para a cidade que adotou como lar e como arena da sua dramaturgia em 1977. Despontou no olhar da crítica brasileira em 2005, com “Rap, o Canto da Ceilândia”, e ganhou afagos, elogios e prémios internacionais ao sair de Locarno, em 2017, laureado com a menção honrosa do júri por “Era Uma Vez Brasília”. Aquela distopia congrega as características formais do seu cinema, com um pé na sci-fi e outro no documentário, tendo Marquim do Tropa como estrela.
Esta noite, às 19h no Brasil e 22h em Portugal, ele vai passar a sua expressão poética em revista no seminário Na Real_Virtual, produzido por Marcio Blanco e organizado sob a curadoria de Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos. A conversa ocorre aqui: https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2.
“Acho que a representação de qualquer ficção na periferia, por atores não profissionais, leva para um campo documental muito grande. É uma ficção que possui vontade de contar factos quotidianos”, diz Adirley ao C7nema. “Hoje não faço muito essa diferença entre a relação entre o documental e o ficcional. Vou muito na ideia de fabulação. É como se fosse propor personagens ficcionais e filmasse como sendo uma etnografia documental”.
Decano da crítica cinematográfica brasileira, Carlos Alberto Mattos, um dos curadores do Na Real_Virtual, diz que Adirley foi uma das grandes e gratas surpresas do cinema brasileiro na década passada. “E o foi não somente pelo facto de que, com ele emergia uma voz forte da periferia de Brasília, mas pela qualidade artística dessa voz. A partir de ‘A Cidade é uma Só?’, os filmes de Adirley impuseram uma dicção toda própria, no lusco-fusco entre ficção e documentário, com uma liberdade rara na construção das narrativas. O humor, sempre presente, só faz tornar mais aguda a sua crítica ao muro invisível que separou o Plano-Piloto das cidades-satélite, a metonímia das desigualdades e da ‘limpeza’ social que atinge tantas grandes cidades do país”.
Na entrevista a seguir ao C7, Adirley faz uma reflexão sobre o que é sonhar (com) o futuro sob uma perspectiva periférica.
Que noção de periferia norteia a tua obra e onde essa noção é mais próxima da ficção ou das estéticas documentais?
Periferia é o espaço da minha experiência. Vivo na cidade de Ceilândia desde 1974. No ano que vem, completam-se 47 anos que moro aqui. Era do interior de Goiás. Os meus pais trabalhavam na roça. Vivi toda a minha vida aqui, desde sempre. Toda a minha relação é com esta cidade. O espaço periférico que me orienta é este, ele é recortado por gerações. O espaço periférico que vivi enquanto criança, adolescente, adulto… cada um desses espaços é muito diferente. Mudam o contexto político, as gerações, as pautas e as lutas de cada tempo. Em geral, o consciente de periferia que me guia é esse da cidade que é ancorada com Brasília. O que difere Ceilândia de outras periferias no Brasil é o aspecto de estar muito colado a Brasília, muito próxima. Desde a sua essência é uma cidade negada por Brasília. Comecei a fazer cinema tardiamente, com 35 anos. Antes disso, nunca tinha pegado numa câmara e não tinha relação com cinema. Entrei por acaso em um curso de cinema e aprendi sobre. Isso foi em 1998,num tempo que não era como hoje, pois não existiam essas tecnologias, nem a possibilidade de filmar a periferia. Quando entrei, fui com uma ideia de que fazia documentário. Para mim, isso ainda me norteia e a ficção veio da vontade de fazer os clássicos que assistia no cinema. A cinefilia que tinha era de cinema popular, de rua.
Qual é a Brasília, e o Brasil a ela vinculado, que estão no seu cinema e como estes refletem as irregularidades e desigualdades em nossa volta?
A Brasília e o Brasil que estão vinculados no meu cinema é o Contemporâneo. Tudo o que faço está envolvido e relacionando com o sentimento de política quotidiana. Os meus filmes refletem esse sentimento que tenho das conversas com as pessoas próximas. Tento me aprofundar nesse lugar que acho que seria essa política, que não necessariamente é a política que o documentário tenta refletir às vezes. Não é a política dos grandes movimentos ou dos grandes personagens ou dos grandes atos heróicos das personagens periféricos. Essa Brasília é a do enfrentamento quotidiano, da experiência da minha vida, no sentido que a política está sempre sobre a gente. A ideia do público em Brasília é muito colada na ideia de poder do serviço público. A minha relação com Brasília é de muito estranhamento, muito confronto. Lembro-me de quando éramos jovens, em 1987, 1988, no auge do Rock brasileiro, em Brasília. A gente juntava umas dez ou 15 pessoas e íamos para shows na Esplanada. As bandas estavam lá: Legião Urbana, Plebe Rude, Detrito, Capital Inicial. Os caras iam cantar e a gente ia para arrumar briga em Brasília. Obviamente, a gente apanhava, pois éramos raquíticos e os outros, fortes. Quando chegávamos à Ceilândia, falávamos que tínhamos colocado o terror. A gente já criava essas narrativas, nas quais ir à Brasília era ir a um lugar de enfrentamento. Era uma ideia de enfrentamento de classes. Criávamos uma narrativa sobre aquele espaço, toda uma narrativa de como foi ir à Brasília. A cidade sempre foi, para mim, esse lugar relacional de uma disputa de território. Tenho a idade da minha cidade, vivi cada dia dela. Isso cria uma memória territorial que se expande. O território da cidade está impregnado na minha história de vida.
O seu cinema dialoga muito com a noção de futuro. Que futuro ficcional é esse e como ele dialoga com o presente que temos em nossa frente?
Acho que eles dialogam com essa noção de futuro, muito pelas leituras que tive, pelo cinema que vi, pela vontade que tenho de fazer filmes. Para mim, o que vem primeiro é a vontade de fazer um filme. Nunca tive a pretensão de que os filmes que faço pudessem ir além de um filme independente brasileiro. Sempre pensei em fazer as coisas pequenas e para um público pequeno, que dialogassem connosco. É dialogar com um pequeno grupo que está ali e é muito diferente de outros grupos periféricos.
Não estou muito aberto em ter que ampliar essa comunicação. À medida que você cria muito uma amplitude de comunicação, você perde a única coisa que faz sentido, que é esse teu lugar de ver as coisas. Tenho essa vontade de projetar um futuro. Acho que o futuro já chegou. Para a gente, já existe. Qualquer pessoa que é suburbana, periférica e está na experiência quotidiana com os seus, consegue perceber o futuro.
Qualquer cineasta que ponha uma câmara na rua, projeta e vê um futuro. As pessoas que estão ali precisam projetar um futuro para estarem vivos. As pessoas de periferia estão sempre correndo atrás da janta, mas dialoga com um futuro no sentido da fabulação. Que mundo a gente queria que existisse e queria poder contar? Não é uma ideia de fazer uma análise da conjuntura do presente, é uma ideia de fazer uma análise de futuro, de uma possibilidade de futuro em que pudéssemos sobreviver e contar histórias. Inclusivamente histórias sobre ele. Dizer que vai contar uma história de aventura e de um herói não impede que outras coisas apareçam. O documental sempre vai aparecer em qualquer perspetiva de ficção científica de um cinema de baixo orçamento. O documental é o estranhamento dessa indústria que não existe. O que as pessoas chamam de defeito, eu chamo de futuro. É muita pretensão dizermos que estamos a fazer outra linguagem, ela vai aparecendo de maneira racional, numa maneira de estar aberto a experiências. Essa noção de futuro é a possibilidade de experimentar, a possibilidade de ter uma relativa liberdade como território, a possibilidade de ter uma relativa liberdade com experiências contraditórias que temos, sem estar preso a nenhuma demanda central.
O que interessa é a contradição, o processo dialético, a perceção de que o cinema precisa ter conflitos, mesmo que quase sempre estejam errados. O cinema pode enfrentar qualquer discurso de uma maneira mais honesta ao mundo. Por ser aberta e honesta, a arte pode mostrar todos os preconceitos, racismos e territorialismos, desde que seja feita de maneira franca. Esse é um lugar de pensar o futuro.
De que maneira a ficção científica entra na sua vida como espectador e contador de histórias e de que maneira o género auxilia-te no estudo dos colapsos morais do país?
A minha história de cinema é ver a “Sessão da Tarde” e, eventualmente, ir a uma sala de cinema. A Ceilândia tinha duas salas de cinema apenas e ambas passavam Bruce Lee e pornografia. Eventualmente, assistia a algum filme em Taguatinga ou em outra cidade satélite. Assisti a “Mad Max”, “Blade Runner”, “Apocalypse Now” nessa sala de cinema. Vários desses filmes americanos, assisti em lugares assim.
A ficção científica veio forte na minha vida foi quando assisti a “Blade Runner”, muito por acaso. Era uma segunda-feira e eu estava procurando emprego. Estava muito quente e já havia almoçado. No cinema tinha um ar condicionado incrível e resolvi descansar por lá. Quando entrei, não tinha quase ninguém e começou o filme. Foi muito potente. Ver as primeiras imagens era um mundo absurdamente incrível. Aquilo está na minha mente até hoje. Sonho com isso.
Logo, a ficção cientifica entrou muito antes de fazer cinema, entrou como espectador. A cidade da Ceilândia já é uma ideia de ficção cientifica. É uma mitologia a forma como os velhos narravam o primeiro dia na cidade. As pessoas ficavam dias ao relento. Esta cidade é um lugar de contadores de histórias que permeiam o imaginário espetacular. Eu tenho o hábito de andar pelas ruas e encontrar colegas que trabalham na noite e é incrível como eles narram as histórias da madrugada. É muito curioso como o sentimento da ficção cientifica já está impregnado na cidade.
Vivi aqui a minha vida toda e vi essa cidade crescer desde os primeiros barracões até o metro. Sempre fui um leitor de muitas coisas. Tive muito mais uma proximidade com a literatura do que com o cinema. Não tive e não tenho uma cinefilia tão apurada, não no sentido de conhecer tudo. Passei a conhecer quando comecei a fazer cinema e a ter contacto com o cinema de outros países. Acho que a ficção científica é um lugar muito bom para contar a política de um país por poder projetar um futuro com domínio de suas regras. A ficção cientifica tem o poder de mapear o que está acontecendo. Tem muito de acertos em todos os sentidos, existe uma sensibilidade da experiência que te dá uma projeção.
Como se dá a parceria com o Marquim do Tropa (a sua personagem/ator/colaborador habitual) em termos de criação e quais são os mundos a que ele te apresenta?
A parceria com o Marquim foi muito grande, sempre. Ele é um amigo de infância, assim como o Shokito, que faz o Sartana (em “Branco Sai, Preto Fica”).. Os meus filmes são feitos com os meus amigos de infância, com pessoas que admiro. A parceria com o Marquim é de respeito, de amizade, de conversa, muito nesse sentido do grande ator que ele é.
A parceria é tentar criar um mundo em que ele possa atuar. Ele quase sempre éa personagem principal dos meus filmes, pelo respeito que tenho por ele. A parceria de criação sempre existiu. Pensamos muito diferente inclusive. Temos uma vida em comum, mas pensamos de forma diferente. Porém, somos muito solidários um com o outro, no sentido de amizade.
Marquim é um dos caras mais incríveis no Brasil. O poder de atuação, de concentração e de criar dramaturgias é algo espetacular. Ele não é aquilo que está nos filmes. É incrível pensar de alguém que não teve uma formação oficial em dramaturgia consegue essa percepção da atuação e a “sacação” de como está a representar-se. Mas é triste ver alguém, que já fez tantas coisas como ele, não conseguir emprego de ator. Os mundos que o Marquinho apresenta são esses mundos fantásticos. Ele é rapper e todo rapper é cronista, assim como eu sou cronista, mas ele possui uma musicalidade incrível. Ele consegue ver todos os espaços dos ambientes que vive através da narrativa do ritmo. Ele, enquanto músico, possui muita clareza de como lidar com o mundo ao seu redor. Ele autorrepresenta-se e representa as personagens que cria. Ao mesmo tempo, mostra o mundo dele e o mundo que fabula sobre os outros. É muito bom trabalhar com ele para criar essas diferentes camadas.
Quais são os seus projetos atuais de cinema e (desculpe a abrangência) o seu projeto ideal de Brasil?
Acabei de fazer um filme que é codirigido por uma portuguesa chamada Joana Pimenta. Ficámos três anos filmando numa cidade chamada Sol Nasceste, aqui na Ceilândia. Lá é a periferia da periferia. Se a gente pensar num Brasil contemporâneo, pensamos nessa cidade. É um filme que conta a história de quatro mulheres que encontram petróleo aí.
Existe um projeto que quero começar a filmar no ano que vem, sobre Folia de Reis. É uma história do meu pai, que era folião. O meu pai pagava uma promessa de trazer os foliões do interior de Minas para rezar lá em casa. Folia de Reis é isso, cachaça, carne e doideira. Tenho muitas imagens da câmara de um tio que gravou muito material. Hoje vivemos num momento tão difícil e único da história que o projeto real é sobreviver nesse país e não ser atropelado pela moralidade, em todos os aspectos políticos. Temos que sobreviver a essa destruição da imagem de todos nós. O projeto é estar vivo, consciente e não fazer concessões. E entendo que, com isso, você vai ser massacrado de vários lugares. O projeto é estar vivo e tentar entender como interferir nesse universo político brasileiro através do cinema.
Penso que perdemos em 2017, quando se fez o filme “Era uma vez Brasília”: perdemos a disputa simbólica, perdemos a performance das ruas, mas continuamos. Eu entendo-me como uma pessoa politicamente que está mais no espectro da esquerda, o que não quer dizer que o meu cinema precisa estar vinculado com o sentido objetivo que essa esquerda pensa. Tenho o entendimento de que, para um avanço político, só um discurso pautado e unificado politicamente pode construir leis e levar-nos como sociedade para além de uma disputa política e burocrática. Entendo perfeitamente isso, mas não vejo isso no cinema.
O cinema circula por outras camadas, inclusive a do confronto com os nossos. Fico pensando que o projeto para o cinema brasileiro primeiro seja entender que perdemos essa disputa simbólica. O segundo: que tenhamos menos arrogância. Entender que quisermos disputar imageticamente e politicamente esse espaço, precisamos entender melhor um tipo de corpo que foi colocado no canto das discussões. A gente adora a imagem do povo e odeia a gente, odeia a possibilidade da dialética com essa gente e odiamos colocarmos-nos em contradição com esse espaço. O meu projeto de país é que tentemos ter um entendimento melhor dessas contradições estabelecidas. Existe um lugar comum formatado que generalizamos, que todo mundo é ruim ou bom. Acho que nunca foi tão fragmentada essa ideia.
No frigir das inquietações documentais das Américas, o simpósio online Na Real_Virtual tem agendadas ainda conversas com Evaldo Mocarzel, Sandra Werneck e Walter Salles. Essas discussões decorrem sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas.

