Foi dia da Turquia na Semana da Crítica de Veneza, com a avassaladora passagem da realizadora Azra Deniz Okyay e o seu “Hayaletler”, traduzido para o mundo como “Ghosts”. Na luta pelo troféu Luigi De Laurentiis, a realizadora de “La Clowne” (2006) volta agora as suas lentes para quatro vidas distintas em Istambul, focando, com especial carinho, a opressão feminina – mal que perpassa pelas suas protagonistas de formas distintas. Na trama, sofremos com uma mãe cujo filho está na prisão; torcemos por uma jovem mulher comprometida com a dança; apoiamos a causa de uma ativista; e testemunhamos a decadência de um homem. As histórias deles entrelaçam-se ao longo de um dia até um incidente, ligado ao tráfico de drogas, mudar tudo. Azra falou ao C7nema para explicar o retrato que construiu a partir da vivência das mazelas sociais de sua pátria.
Quais são os fantasmas políticos que assombram a Turquia? Como é que o título do seu filme, “Ghosts”, remonta aos traumas sociais do seu país?
“Ghosts” fala de pessoas deslocadas, especialmente por causa da gentrificação urbana. A minha primeira inspiração vem de um bairro que estava a passar pela gentrificação. Além disso, queria fazer um filme sobre as pessoas ao meu redor, as pessoas que tenho observado. Ao escrever o guião senti que eles são como fantasmas. Há muitas pessoas no meu país que são invisíveis, e, às vezes, também me sinto invisível, como um fantasma.
Como foi construído o desenho visual do filme em relação ao trabalho com o seu fotógrafo, Baris Özbiçer?
Eu preparei a filmagem da minha longa matematicamente porque tinha muito pouco tempo para as filmagens. Eram apenas 17 dias para quase 30 lugares diferentes. Trabalhei com o editor e o DOP ao mesmo tempo em que me preparava para a filmagem, o que me ajudou a internalizar a coreografia e a estrutura narrativa do projeto. Este dinamismo basicamente deu origem ao estilo deste filme.
Qual é a representação da condição feminina que pretendeu levar às telas?
Estamos sob enorme pressão, como mulheres. Mas eu e todas as mulheres ao meu redor continuamos a criar e a lutar pelos nossos desejos. As mulheres à minha volta sempre encontraram formas criativas de se expressarem.
Qual é a situação atual do cinema turco?
Na Turquia, existe uma abordagem da linguagem cinematográfica que tem se repetido nos últimos anos. Dramas centrados em figuras masculinas continuaram a ser produzidos, embora não venham tendo reconhecimento em festivais mundiais há alguns anos. Mas acredito que o sangue novo está a chegar.

