‘Bocaina’: um filme de autorias, sobre o Tempo, é uma reação criativa ao isolamento

(Fotos: Divulgação)

Na quietude mineira das Gerais, na região chamada Funil, da cidade de Bocaina de Minas, no meio à pandemia, duas atrizes de peso no Brasil – Ana Flávia Cavalcanti, que atraiu os aplausos de Roterdão com “Rainha”, e Malu Galli, reverenciada em Cannes na curta “Areia” – dirigiram um filme unindo forças e inquietações com Fellipe Barbosa. Cineasta laureado na Semana da Crítica da Croisette com “Gabriel e a Montanha” (2017), ele dirigiu com elas, a seis mãos, uma reflexão sobre o Tempo, sobre o isolamento, sobre volta por cima. O trio, envolvido na telenovela “Amor de Mãe” (paralisada quando o surto da Covid-19 começou), estava confinado na região, que empresta o seu nome à longa-metragem. “Bocaina” é o nome da história desenvolvida por essas três vozes mais o ator Alejandro Claveaux, parceiro deles no folhetim da TV brasileiro, que irá ser retomado. Heloísa Passos (de “Deslembro”) é a fotógrafa do projeto, rodado de 22 de junho a 10 de julho. A sua trama segue passos e descompassos de Zulma (Malu Gali), Musk (Ana Flávia) e Josevelt (Alejandro Claveaux). O filme revela duas instâncias temporais: uma no passado, mais bucólica; outra, no presente, atualíssima. Josevelt é um sujeito misterioso que, junto com essas duas mulheres, cheias de conflitos, permeia esses dois espaços. Ele ajuda-as a se libertarem das suas amarras, ao mesmo tempo em que a narrativa cria um paralelo com a sensação de suspensão e incerteza que a pandemia nos propõe.

Em entrevista ao C7nema, Ana Flávia, Malu e Barbosa fazem um balanço do que foi esse processo audiovisual.

Qual é a percepção do Tempo que permeia “Bocaina”?

Ana Flávia Cavalcanti: 
Em Bocaina, o tempo é o tempo da roça. Tudo acontece agora, hoje. O nosso desejo foi o de ultrapassar a percepção do tempo usual: presente, passado e futuro. Particularmente, cheguei nesse processo com a sensação de que nos roubaram o futuro, não temos mais as “certezas” de antes. Não sabemos nem se poderemos voltar a nos ver de perto e nem quando isso acontecerá de maneira segura. Zulma, Musk e Josevelt são personagens muito inspiradas nos moradores de Bocaina e a população dessa terra vive o confinamento como sendo a tónica da vida. Aqui é assim, uma casa a cada 3, 5, 7Km. Você vive o silêncio, a mesmice, os afazeres da casa e da roça. Arrisco dizer que, para o povo daqui, mesmo antes da pandemia, é a cidade grande que confina a gente.

Malu Galli: O tempo em Bocaina é um tempo alargado, um tempo recheado de subjetividades. As personagens habitam não só aquele espaço, mas também aquele tempo outro que é o da vida simples, repleta de pequenos acontecimentos, percepções, convergências e significados. O confinamento em Bocaina é relativo, não há privação de liberdades, nem de convívio. O que há é um mergulho na vida daquele lugar, nos silêncios que contém tantos pequenos sons, e numa solidão acompanhada de natureza.

Fellipe Barbosa: Uma percepção de tempo não linear, circular, em que as duas dimensões encenadas andam em paralelo, num jogo de duplos e espelhos. Não há passado, presente e futuro, somente presentes em eterno retorno. Os mesmos eventos são vistos através de pontos de vistas paralelos e as percepções são distintas em cada dimensão.

Qual foi a dinâmica de atuação em Bocaina e como foi a construção do roteiro, pensando, em especial uma noção de liberdade e de improviso?

Ana Flávia Cavalcanti: O roteiro foi escrito a muitas mãos e sofreu mudanças importantes durante as filmagens. Esse foi um exercício de defesa e desapego das ideias próprias, ao mesmo tempo um exercício de muita fé e confiança no outro, de acomodação da ideia do outro. Para mim, o que fica de todo esse processo é o facto de que fizemos tudo o que queríamos fazer e não fizemos o que não queríamos fazer e, isso, eu acho bastante relevante pensando que as narrativas ainda são muito pautadas nas experiências das pessoas brancas, sobretudo as dos homens brancos e heterossexuais. Como somos duas mulheres na realização, no roteiro e em cena, tivemos total liberdade de criar as histórias que mais nos contemplavam, em tudo. Tínhamos cenas e intenções muito bem definidas. A história que acolhe essas três personagens é recheada de ações físicas, do fazer, e isso abre para o que eu chamo de inusitado e não improvisado. “Bocaina” é um filme sustentado por cenas com um objetivo bem definindo como, por exemplo: varrer a casa.

Malu Galli: A atuação foi quase totalmente improvisada, baseada principalmente na relação presente com os estímulos reais: estar em cena e realizar ações concretas, ouvir o outro e acolher os acontecimentos. O roteiro foi escrito a muitas mãos, a partir de uma ideia central que surgiu das nossas limitações: três atores, uma locação. A partir daí fomos tendo ideias e muitas discussões.

Que arquétipos Musk, Zulma e Josevelt simbolizam ou que arquétipos eles refutam? Que ambições eles têm?

Fellipe Barbosa: Na primeira dimensão, Zulma é quem cuida de Musk, que por sua vez quer ir embora dali, como uma personagem de Tchekhov. Na segunda, Musk é quem cuida de Zulma, que tenta fugir, dali e de si. Josevelt é a personagem que atravessa o tempo, um coringa-exu.

O que aqueles três personagens constroem em termos de interação, de convivência? Que angústias unem essas três pessoas?

Ana Flávia Cavalcanti: Josevelt chega até Bocaina e, ao mesmo tempo, sempre esteve aqui: ele confunde pra elucidar. Ele aparece na vida de Zulma e Musk e faz perguntas. Ele muda as coisas de lugar e isso transforma as decisões de cada uma delas ao longo dos dias.Nos inspiramos muito no arquétipo de Exu, orixá cultuado no candomblé, para construir essa personagem. Exu entre outras coisas é considerado o mensageiro entre mundos. Eles se unem pela necessidade de continuar caminhando. Existindo. “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje”. Ditado iorubá.

Malu Galli: A convivência das três personagens perpassa os conceitos de intimidade/ estranhamento; eu/ outro. A presença do outro/ estranho pode ser transformadora. E também a noção de acolher, cuidar, como ação revolucionária nestes tempos. A angústia que une os três? Não sei… talvez a angústia de não poder ser um.

Que planos você tem para o filme e de que maneira ele é emblemático dos comportamentos que aparecem na pandemia, sobretudo os conflitos relativos à solidão do isolamento?

Fellipe Barbosa: Planos de vender e de exibir quando possível. Difícil dizer o que o torna emblemático, mas aguardo ansioso seu veredito. Acho que o mais forte foi o modelo de produção, em que o conceito de autoria foi diluído, onde todos nos sentimos autores desse objeto. Colocamos em prática nosso desejo de um país mais igualitário no nosso processo. Os cretinos não poderão nos acusar de mamar nas tetas do governo, e os fascistas não poderão nos acusar de hipocrisia entre discurso e ação.

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