Maratona audiovisual do Real, ancorado no coração do Reino Unido, o Sheffield Doc/Fest dedica uma das suas mostras à obra do realizador Simplice Ganou, pilar do registo das contradições sociais no Bukina Faso. Produções como “Bakoroman” (2011) e “The Koro of Bakoro: The Survivors of Faso” (2017) vão estar disponíveis a partir do site https://sheffdocfest.com/. Na entrevista a seguir, o realizador fala ao C7nema da dimensão ética das narrativas documentais em terras africanas.
Qual é a dimensão política do seu cinema na investigação do quotidiano das pessoas que têm nas ruas um lar?
Durante muito tempo, a maioria de África foi sempre filmada por diretores ocidentais da Europa e das Américas. Faço parte de uma nova safra de cineastas documentaristas que se apropriaram das ferramentas do audiovisual para retratar, com a nossa sensibilidade, facetas da sociedade onde vivemos. Como atuei anteriormente no terreno do trabalho social, tive acesso às realidades dos jovens que vivem nas ruas de Ouagadougou. O meu dever como documentarista é fazer desta realidade um objecto de reflexão, atento a fatores políticos.
A que tradição cinematográfica (documental ou de ficção) se refere o seu cinema?
Sou cineasta, faço documentários. Venho da Sociologia. O documentário me permite testemunhar a nossa época a partir do meu próprio olhar artístico.
Qual é a dimensão ética do trabalho (como tema, como objeto de estudo) no seu cinema?
Fazer um documentário é retratar pessoas, sem cair em julgamentos ou no miserabilismo. Não escolho as minhas temáticas. Os meus primeiros filmes são sobre a margem, sobre as ruas, porque trabalhei como educador com jovens da rua. Escolho os meus temas com base nos encontros e na cumplicidade com as personagens. Evito uma dimensão de reportagem; por isso filmo ao ritmo das minhas personagens.
Como é o universo ao qual o seu cinema dá voz ao se debruçar sobre o continente africano?
Os meus filmes alinham-se com o desejo de expressão de uma nova geração de jovens africanos, empenhada em testemunhar a realidade para chegar a uma compreensão do mundo capaz de nos levar a uma mudança inclusiva.
Como define o cinema feito no Burkina Faso e no Senegal hoje? Existe uma noção de “cinema africano”?
O audiovisual de Burkina, como o do Senegal, são cinemas emergentes. Os jovens africanos mostram as suas realidades, os seus sonhos e as suas aspirações pelos seus filmes. A relação com a imagem está em plena mutação graças às tecnologias digitais. Tenho, portanto, a oportunidade, como cineasta, de contar histórias africanas na África e de propor essas narrativas ao mundo. Eu diria mais que existe um cinema feito por africanos e não um cinema africano. Só existe um cinema, que é o ato de contar histórias com imagem e som.

