Super-herói da resistência política aos contratempos de Bolsonaro, Gregório Duvivier driblou a quarentena ao filmar, a partir de casa, o seu programa de TV.
O “Greg News”, na HBO, virou um templo sagrado da inteligência no Brasil de 2020, sempre com análises mordazes do que se passa nas ruas… e no Planalto. Igualmente doméstico é o modo que o multiartista (em terras brasileiras, chamamo-lo de Zé Pereira, em relação a uma folclórica figura carnavalesca de barulhos mil) trabalha na fábrica de gargalhadas chamada Porta dos Fundos. Os seus roteiros são, hoje, filmados a partir do seu lar. Aos 34 anos, o escritor, ator e pensador das hecatombes morais da América do Sul vive (e cria) a mil… sem perder os seus laços com a interpretação.
Há um ano arrebatou a crítica numa participação na seara do melodrama em “A Vida Invisível“, saga de amor fraterno que deu o prémio Un Certain Regard ao cineasta cearense Karim Aïnouz em Cannes. Neste domingo, a longa-metragem estreia na televisão por cabo do seu país de berço, no Canal Brasil, às 23h10 (horário brasileiro).
A exibição dá adeus à mostra que a emissora dedicou a pérolas da Croisette. Esta produção da RT Features, pilotada por Karim, a partir do livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha, fala de sororidade. Na trama, a pianista Eurídice (Carol Duarte) passa décadas à procura da irmã, Guida (Julia Stockler), que foi expulsa da sua casa pelo pai, num gesto de machismo. Eurídice casa-se com Antenor (papel de Gregório), que parece reproduzir o modelo sexista à sua volta. É um dos melhores desempenhos do astro nas telas. Na entrevista a seguir, Gregório conta ao C7nema as suas artimanhas para inventar, fazer rir, encantar… e resistir.
O que mais te surpreendeu no processo de trabalho com Karim? O que existe de mais desafiante no método de direção de atores dele?
O que mais me surpreendeu de trabalhar com o Karim foi o clima do set. Era uma catedral aquele set. Nele, não podia haver celular [telemóvel], nem papo furado. Eram todos muito concentrados no seu próprio ofício. Os atores normalmente são uma zona, adoram uma conversa… um celular. Lá, não podia haver nada disso. Estavam todos concentrados, às vezes, com um fone de ouvido ouvindo música para ajudar na concentração. O método dele é muito focado na música. Cada ator tinha uma música que ele passava para a personagem. Tinha umas músicas aterrorizantes que ele usava no set para dar um clima. Eram músicas que buscavam enlouquecer a gente… e conseguiam. A música tinha um poder enorme no set. O mais desafiante para todos os que lá estavam, não apenas para mim, é o fator do… completamente novo. O Karim não trabalha na zona de conforto dos atores. Ele se distancia daquilo que você já sabe fazer. É um desapego dos seus vícios.
Diante da tragédia que o Brasil se tornou, o que um melodrama como “A Vida Invisível” simboliza, a que território ele nos leva?
Acho que o Brasil hoje, parece estar muito cindido. Mais que antes da pandemia. A pandemia uniu alguns países, mas o Brasil dividiu-se mais. Por causa da desigualdade, por causa da política, a gente tem um Brasil mais dividido do que nunca. Tem uma população trancada em casa e outra na rua, como se nada fosse. Tem uma população que consegue fazer a quarentena e outra que também não consegue, por questões de não terem estrutura para se isolar. O país é muito divido e dá a impressão de que nada nos consegue unir, mas acho que que as narrativas melodramáticas conseguem unir. A novela é prova disso. O Brasil inteiro assistiu a “Roque Santeiro”, “A Favorita” ou “Avenida Brasil”… e acho que a novela tem esse poder de reunir as pessoas em volta de uma mesma narrativa, em geral, melodramática. O melodrama tem essa função catártica. Fazer um melodrama hoje, um filme que comove como esse, é um apelo às emoções e a um lugar que a razão não atinge. Quem sabe um homem que assistiu a esse filme e que, talvez, tenha uma aversão as ideias feministas, dificilmente vai conseguir ter uma rejeição emocional. Isso acontece porque o coração e os sentidos a gente não comanda. Acho que o melodrama tem essa capacidade atingir lugares que o argumento racional não atinge.
Você é hoje um criador de múltiplas virtudes artísticas, capaz de se destacar em diferentes frentes. O que o cinema representa entre os seus territórios de ação e de investigação?
O cinema, para mim, é o lugar onde eu consigo mergulhar e experimentar coisas. O filme demora, em geral, uns três meses de rodagem, que são muito intensos. É um período no qual você consegue mergulhar naquele universo. Para o diretor é muito mais, só que, para o ator, são dois ou três meses. O cinema é um lugar de imersão, o lugar em que eu consigo pesquisar. Estou acostumado a fazer teatro e esquetes. No teatro, a tarefa é a repetição e a reinvenção, a cada dia, de um mote autoral. Gosto do teatro que escrevo ou que trabalho junto com o autor. O teatro, para mim, é um lugar de experimentação, de criação e de cada dia estrear uma peça quase que diferente. No cinema, temos um lugar mais de imersão e de dedicação a um universo de outra pessoa. Esse filme foi muito isso. Mergulhar no universo do Karim, aceitar se deixar escrever por ele e pelo roteiro, e anular o autor que existe dentro de mim. Foi um processo de se doar para uma história que não é minha.
Não sabemos ainda se haverá mundo, mas, em solo brasileiro, existe o Canal Brasil, existe a HBO. O que a televisão ainda representa como um espaço de troca ideias para um país como o Brasil hoje?
Existe uma televisão que está se mostrando mais permeável ao cinema e ao teatro. Uma televisão que dialoga mais com as outras artes e experimenta. Gosto muito de estar na HBO por causa disso, pois é um lugar que eu nunca me senti podado. Eles são super autorais, direcionam a gente e sabem o que querem, mas, ao mesmo tempo, existe uma confiança muito grande no criativo. Acho que é daí que vem o sucesso da série de TV. Tenho assistido a muita TV nessa quarentena e a HBO realmente tem se destacado. Vimos agora o “The Plot Against America” e é surreal de bem feito e a história bem contada. Acho que a televisão pode ser também esse lugar de experimentação. A Globo mesmo… tenho a impressão de estar com a cabeça mais aberta. Acho que isso está a acontecer cada vez mais na TV mundial. O humor teve uma revolução nos últimos anos e acho que na narrativa também.

A Vida Invisível
Como também escrevo para Portugal, pergunto: como ficou sua relação com o cinema português depois de “Refrigerantes e Canções de Amor”?
Estou morrendo de saudades de Portugal. Sei que não vou lá tão cedo. Este ano, imagino que, certamente, não. Tenho muita vontade de voltar lá e de fazer outros filmes. Só fiz esse “Refrigerantes…” mesmo… e só uma pontinha. Mas, adorei. Os sets de lá são uma delícia: tem vinho, bacalhau, queijo da serra e pastéis de nata. Parece brincadeira falando, mas… não. Acho que não era só porque eu estava lá não. Tive umas duas ou três diárias e todas tinham um banquete. Nunca vou esquecer daquele catering e da equipa também. Tem uma coisa muito familiar no cinema em todos os lugares. A impressão que dá é que o cinema é uma família. Em todos os lugares do mundo tem uma característica muito parecida nas equipes, todas possuem uma certa irmandade. Gosto muito de set e dessa família instantânea que o cinema cria. Todo o filme cria uma família e eu morro de saudades das famílias de que participei.
Enfim… Quais são os seus projetos para este nosso mundo Walking Dead?
Para esse mundo “The Walking Dead” devo continuar no “Greg News”. Enquanto houver pandemia, faremos na minha casa, ou seja, imagino que ficaremos um bom tempo gravando em casa. O “Porta dos Fundos” a gente está fazendo sketches em casa e estou adorando essa restrição, pois ela acaba dando ideias novas. Cada autor está pensando em esquetes que consegue gravar na própria casa e isso acaba sendo um mundo de possibilidades. São reuniões por Zoom. Eu escrevi um agora de uma sessão de análise por Zoom e a mulher do analista começa a opinar na análise dele. São novas ideias que só surgem por causa das novas restrições. Estou a gostar dessa restrição, mas assim que isso passar quero voltar ao teatro até para falar disso tudo. O que eu mais sinto falta mesmo é do cinema, do teatro. É prazeroso gravar em casa, mas nada se compara à experiência coletiva do cinema e do teatro.

