Vencedor do Globo de Cristal do Festival de Transilvânia em 2019 e mais uma leva de troféus, Bashtata (The Father/ O Pai) ainda não estreou em Portugal, mas chegou ao Brasil via streaming na quinta-feira, no site Belas Artes À La Carte.
Em sintonia com o recente boom internacional do cinema da Bulgária, O Pai centra numa tentativa de reconciliação entre pai e filho, este road movie pilotado pela dupla de cineastas Kristina Grozeva e Petar Valchanov se articula com uma leva de filmes laureados em grandes festivais europeus (com destaque para Locarno) chamado de Outono Búlgaro que faz do abandono seu tema por excelência. Entre os seus destaques estão Cat in the Wall, de Mina Mileva e Vesela Kazakova; Miles, de Kalina Detcheva; o Leopardo de Ouro de 2016, Godless (Bezbog), de Ralitza Petrova, e um par de longas-metragens de Kristina e de Valchanov: A Lição (premiado em San Sebastián, em 2014) e Glory (Prémio Especial do Júri no Festival da Transilvânia em 2017).
Essa novíssima filmografia dos búlgaros se impõe no Velho Mundo (e além dele) a partir de um processo de produção enxutíssima e de um achaque à decadência estatal similares aos que as nações como a Roménia e a Hungria demonstraram nos últimos anos. Os romenos, a partir do culto A Morte do Senhor Lazarescu (2005) e de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (Palma de Ouro de 2007), criaram uma linhagem de longas-metragens de economia narrativa e de potência irónica inquebráveis. Já entre os húngaros, Ildikó Enyedi (Corpo e Alma, Urso de Ouro de 2017), László Nemes (vencedor do Oscar com O Filho de Saul) e Kornél Mundruczó (Lua de Júpiter) confecionaram uma nova plástica de representação do mundo, com uma voltagem de sinestesia e inquietação existencial que a terra de István Szabó (Mephisto) e Miklós Jancsó (Salmo Vermelho) não via igual há décadas.
Kristina e Valchanov tornaram-se uma a partir de uma trilogia ainda não concluída (a terceira parte está em gestação) de tramas calcadas em notícias de jornal. O delito é algo que marca o protagonismo de ambos, com figuras aparentemente dóceis que são levadas a uma trajetória de desmesuras éticas e imposturas. E é isso que se passa em Bashtata, com o pintor viúvo Vasil (Ivan Savov), respingando o seu filho, o publicitário Pavel, interpretado com vigor contagiante por Ivan Barnev. Espécie de Toni Erdmann com misticismo e melancolia (relativa à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) em lugar de humor, a longa-metragem é prima búlgara do Nebraska (2013) de Alexander Payne, com um toque de Paris, Texas (1984) na sua medula sentimental, compartilhando com esses dois a errância e a presença de um pai desmiolado.
Kristina Grozeva e Petar Valchanov
Aqui, existe uma culpa que estrangula Vasil. O facto de se ter negado a parar e ouvir a sua mulher, quando ela precisava dele, atomiza o seu peito. A atomização é por razões óbvias: ela morreu sem que ele desse à sua companheira o carinho devido. Percebe-se que faz o mesmo com o seu menino, hoje um quarentão grisalho: Pavel (Ivan Barnev). No enterro da mãe, esse profissional da Publicidade, sempre carregado de lentes e equipamentos do estúdio onde trabalha, – ali em Sofia, a capital da sua pátria-, tenta oferecer o seu abraço a Vasil, como um abrigo. Mas o seu velho teimoso não vê no carinho do rapaz uma satisfação para as suas angústias, que aumentam depois de uma notícia aparentemente sobrenatural. Qual? Seguinte: durante o sepultamento, uma vizinha alega ter recebido um telefonema da finada mulher de Vasil. Ele acreditará, mais adiante, ter recebido uma chamada telefónica dela, depois da morte. A saída é cair na estrada atrás do vidente com quem a sua mulher consultava e tentar uma reconexão com a Mãe Terra ao visitar um solo marcado pela queda de corpos celestes.
Na entrevista a seguir, Valchanov contextualiza a atual realidade do cinema búlgaro para o C7nema.
Qual é o lugar do realismo e da fantasia no universo da solidão e da velhice que Bashtata (O Pai) retrata? De que forma esses dois homens de diferentes gerações se aproximam em solidão e dor?
Vasil é um pintor de uma geração para a qual ser um artista, um intelectual, torna-se obrigatório envolver-se no esotérico. A crença de que você tem acesso a algum conhecimento secreto no qual “pessoas comuns” sequer fazem cócegas alimenta o ego. Só que o ego de um artista é, muitas vezes, o seu maior inimigo. É o caso do nosso querido Vasil. Para a geração do seu filho, os chamados “filhos da transição”, todas essas crenças são um completo disparate. A sua escola de vida, os anos de transição para a democracia artificial que temos até hoje, só trouxeram desilusão e cinismo. Portanto, Pavel é o tipo que aceitou que tudo é apenas um jogo de interesses, o jogo é manipulado e não faz muito sentido acreditar em nada. Na nossa história, essas duas gerações preferem não se aproximar. Essa é a escolha que fizeram para não se estrangularem. No entanto, a família torna esta abordagem inevitável.
O guião é uma aula de drama com suspense e reviravoltas. Há um aroma do Paris, Texas, de Wim Wenders, na narrativa que me agradou muito. Como foi o processo de construção do argumento?
Estamos realmente lisonjeados pela comparação com Paris, Texas. O guião baseou-se em alguns incidentes que nos aconteceram e, depois, estruturou-se como um filme de estrada. No seu primeiro tratamento, ele ficou um pouco plano, até que, graças a alguns conselhos valiosos, decidimos fazer o nosso protagonista começar a mentir. Foi um momento em que abrimos os olhos. Talvez tenhamos exagerado um pouco, porque assim que Pavel começou a mentir, a mentira tornou-se patológica para ele. Por outro lado, apreciámos o absurdo disto. A forma como trabalhamos é sempre certificarmos-nos de ter uma estrutura realmente sólida para que possamos dar a nós mesmos e aos nossos atores liberdade para lidar com o texto e com a mise-en-scène durante a filmagem.
É possível falar-se de uma indústria búlgara de cinema hoje?
Há aqui uma indústria, mas a quota de filmes búlgaros não é muito grande. Muitas produções dos EUA são filmadas na Bulgária, principalmente algumas que vão diretamente para DVD, mas ocasionalmente recebemos algumas produções A-list também. Estamos fazendo muitas coproduções europeias também, mas a situação com os filmes búlgaros não é das mais luminosas. Embora se comece a formar uma tendência inversa, o sistema búlgaro tende ainda a apoiar mais projetos com orçamentos mais elevados.
Isso é ruim considerando que, para desenvolver e promover o cinema búlgaro, deveria permitir a realização de mais filmes com orçamentos mais reduzidos, para que novas vozes tenham a chance de mostrar seu mérito, avançar e levar o cinema e a cultura búlgara para o resto do mundo. Muitos filmes que são feitos aqui, alguns deles nada baratos, nunca chegam ao público e isso é muito lamentável, para não mencionar injusto.
A que tradição O Pai (Bashtata) pertence?
Em relação às tradições cinematográficas búlgaras, temos uma escola forte em tragicomédia e sátira que os nossos filmes de alguma forma evocam. Entre os exemplos estão os filmes icónicos do realizador Eduard Sachariev, como Counting of the Wild Rabbits (Prebroyavane na divite zaytzi, 1973) e Summer House Area (Wilna Zona, 1975).
Qual é a influência do cinema da URSS no vosso olhar?
O cinema soviético também tem tradições muito fortes em comédias de humor ácido e sátira. Um dos nossos realizadores favoritos dessa época é Georgiy Daneliya, nascida na Geórgia, o grande autor de Mimino, O Mundo Novo de Serginho e o eterno Kin-Dza-Dza.

