Alexandre Desplat: “Cada partitura feita para Wes Anderson é uma descoberta”

(Fotos: Divulgação)

Previsto para estrear em outubro, The French Dispatch traz na sua fórmula autoral incopiável um dos maiores trunfos de Wes Anderson: a música de Alexandre Michel Gérard Desplat.

Parceiro do cineasta desde O Fantástico Sr. Raposo (2009), o maestro parisiense de 58 anos é encarado como o maior compositor das últimas duas décadas tendo no seu currículo um par de Oscars. Ganhou a estatueta por A Forma da Água (2017) e por O Grande Hotel Budapeste (2014), do próprio Wes. E promete uma linha melódica originalíssima para a saga de um grupo de jornalistas na França do século XX. Foi essa a promessa que fez numa entrevista ao C7nema, mediada pela Unifrance.

Num esforço para estreitar laços estéticos entre espectadores e o cinema francês, a instituição tem mobilizado alguns dos seus maiores talentos – atores, realizadores, compositores – a fim de extrair palavras de motivação para estes tempos de quarentena. Foi o que levou Desplat à conversa a seguir, perfumada de saudades do Brasil e do seu rol de instrumentistas e de vozes mundialmente respeitadas.

Qual é a importância da MPB (Música Popular Brasileira) para a sua formação e que artistas brasileiros mais e melhor criaram um som singular?

A MPB tem estado muito presente na minha educação musical desde os 13 anos. Eu cantava no coro do meu bairro. Nossos regentes, mexicanos, faziam-nos cantar os compositores clássicos do canto coral, como Jehan Tabourot ou Guillaume de Machaut, mas também cantávamos La Bamba e Desafinado. Foi nessa altura que comprei o meu primeiro vinil de bossa nova: um disco intitulado Braziliana, que incluía gravações de João Gilberto, Tom Jobim e Luiz Bonfá. A paixão por essa música – sofisticada harmónica e ritmicamente e com um balanço diferente – contagiou-me e, aos 17 anos, integrei um grupo de “bossanovistas” no qual tocávamos todas as maravilhosas músicas que descobríamos. Descobri então Edu Lobo, Chico Buarque e a sua “Construção” e Elis Regina. Havia também uma caixa de discos intitulada “Bossa Nova: sua história, sua gente”. Ali havia uma seleção de todos os cantores e compositores do filão: Sylvia Telles (em uma versão de “Você e eu” com solo de flauta), Marcos Valle, Maria Bethânia e Caetano Veloso, Leny Andrade… Tinha ainda o Mauricio Einhorn, que trouxe para Paris em 2000, para gravar comigo a música de um filme do Philippe de Broca, o realizador de O Homem do Rio.

Comprava todos os vinis que podia comprar, desde Sivuca e Rosinha de Valença até Evandro do Bandolim. Ao lado de Jobim, Edu Lobo rapidamente tornou-se o meu compositor favorito. A melancolia delicada, a complexidade melódica e harmónica, a originalidade das orquestrações e sua voz sem vibrato. E Elis ainda hoje me põe lágrimas nos olhos quando a ouço. Gostaria muito de ter estado no Rio entre 1960 e 1970.

Qual é a linha melódica que podemos esperar da banda sonora do novo filme de Wes Anderson: The French Dispatch?

Cada partitura escrita para Wes é uma expedição ao novo, uma descoberta. Primeiro, procuramos como deve “soar” a música de cada filme. E a montagem de instrumentos é tão importante como a melodia. Para The French Dispatch, não seguimos uma regra. Com isso, você vai descobrir, de novo, escolhas de instrumentos completamente inesperadas. Assim como é inesperada a nossa forma de espalhar as músicas pelo filme.

Tem algum disco novo a caminho?

Eu adoraria gravar um disco a solo,  sem relação com a música para os filmes.

O senhor foi presidente do júri em Veneza, já trabalhou como ator… Realizar um filme está nos seus planos? Que novos caminhos espera para o cinema?

Realizar um filme é uma outra aventura… é algo que eu já teria feito há muito tempo se achasse que podia. Mas o trabalho de um compositor é… compor. É a música que me faz vibrar. É ela que me leva a trabalhar 18 horas por dia. O cinema evolui com a sociedade e a música de filmes deve também evoluir. Mas evolução não pode nunca significar empobrecimento.

Que músico/cantor você sugere para o público nesta quarentena? 

Há! Eu moro em Paris, no área do Marais, e espero sempre encontrar o Chico Buarque por ali, ao virar da esquina, porque sei que tem ele lá um apartamento. Mas ainda não tive essa sorte.

Qual seria sua sugestão de filme para esta quarentena? 

Amarcord, de Fellini, e a música poética de Nino Rota.

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