Welcome To A Bright White Limbo: a coreografia da imagem como manifesto

(Fotos: Divulgação)

Há uma unanimidade em relação às (boas) descobertas de Tribeca, em 2020, quando a quarentena fez da web o lar provisório da maratona cinéfila nova-iorquina: Welcome To A Bright White Limbo, produção irlandesa com um pé na videodança, é “o” documentário do festival.

Até domingo, dia 26, é possível acompanhar o evento online: https://tribecafilm.com/festival. É lá onde podemos encontrar o exercício de performance e poesia documental da realizadora Cara Holmes, prolífica montadora, que demonstra uma sensibilidade singular para cores ao captar os passos, gestos e ideias da coreógrafa Oona Doherty, de Belfast. Trata-se de um ensaio poético sobre o corpo como espaço de manifesto, social, existencial, estético e político. Na entrevista a seguir, Cara fala ao C7nema sobre como traduzir o verbo dançar no audiovisual.

Há um momento no filme em que ouvimos “A Coisa Certa a Fazer não é Bonita, não Perfeita“. Quanto esta reflexão de Oona pode se aplicar ao processo de se fazer um documentário, especialmente um com uma narrativa sensorialmente experimental como esta?

Sinto que esta linha de reflexão está a incentivar todos nós enquanto artistas/ cineastas/ dançarinos/ seres humanos para sermos fiéis a nós mesmos. Não tentem ser nada diferente do que são. Fiquem perto daquilo que faz o vosso coração bater. O filme trata de conexão, de como a dançarina pode se conectar com o seu público, como podemos nos conectar como seres humanos com todos os nossos defeitos e vícios. O documentário envolveu muitas horas de entrevistas no processo de conhecer Oona como pessoa e como artista. Nós conversamos muito. Eu queria entender o processo e a personalidade de Oona antes de tudo, mas é a performance dela como dançarina/coreógrafa que realmente te cativa.

Oona fala em “experiências afetam o movimento“, referindo-se à dança. Traria esta questão para você, como realizadora: o quanto a experiência sensível do Real… da realidade social de Belfast… afeta o movimento da câmara que segue Oona?

Nós ficamos perto da performance de dança e o que faz Oona agir como artista. Ela fala abertamente sobre as suas experiências, o seu senso de casa e pertença e o que isso significa para ela. Oona fala muito sobre “memória muscular”, fala sobre aquilo que os seus pais e os seus avôs experimentaram nas suas vidas podem ser levados para outras gerações, em como as pessoas se movem e em como elas reagem às coisas. Oona é uma observadora por natureza e, no seu show, “Hope Hunt“, ela encarna jovens e como eles se movem, reagem e se veem no mundo. Um mundo que nem sempre é fácil. Nós queríamos ficar perto da cidade natal de Oona e levar a dança para fora do teatro e para as ruas de Belfast, onde ela e esses jovens habitam. Luca Truffarelli, o diretor de fotografia tem um longo relacionamento de trabalho com Oona e o filme realmente beneficiou por essa forte ligação. Isso ajudou a quebrar outra camada que poderia existir entre o artista e o seu público.

Você tem uma vasta experiência como editor de filmes. Quanto esta experiência influencia a construção de uma narrativa sensorial como este documentário sobre Oona Doverty?

Eu queria ser ousada na minha abordagem, tanto visual quanto estruturalmente. Eu queria afastar-me de um arco narrativo tradicional. Felizmente, fomos capazes de ter essa liberdade e permanecer fiéis à minha visão original. Nunca se sabe qual seria a reação dela. Estou muito orgulhosa deste filme e sinto-me muito privilegiada por ter tido a oportunidade de trabalhar com talentos tão incríveis como Oona Doherty, Zlata Filipovic (produtor) Luca Truffarelli (Diretor de Fotografia) Mick Mahon (Editor) e Die Hexen (Compositor).

Outro êxito do festival é Asia, belíssima reflexão da realizadora Ruthy Pribar, de Israel, sobre sororidade no âmbito do amor materno, na observação do dia a dia de uma imigrante russa às voltas com as descobertas sexuais e afetiva da sua filha paraplégica.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/17hc

Últimas