Correndo a todo vapor online, como efeito da quarentena contra o COVID-19, o Festival de Tribeca (que segue na web até 26 de abril), já encontrou um candidato a culto entre os concorrentes da competição americana de 2020.
Com um delicioso aroma de Irmãos Coen em sua argamassa recheada de viradas, esta comédia de erros, 12 Hour Shift, da realizadora Brea Grant (Lucky), é produzida pelo ator David Arquette (Scream: Gritos), que também integra o elenco. Mas quem pilota a narrativa é a atriz Angela Bettis, num desempenho digno de aplausos (e de prémios) como a enfermeira Mandy, uma profissional da Saúde viciada em morfina. No meio de um mercado clandestino de roubo e tráfico de órgãos, ela vai ajudar uma prima apaixonada, Regina (Chloe Farnworth), a conseguir um rim para vender e escapar do jugo de um contrabandista especializado em traficar vísceras humanas.
O argumento é uma sucessão de surpresas, centrado no empenho de Mandy em resolver a “trapalhice” trazida por Regina. Tem algo de Desesperadamente Procurando Susana (Desperately Seeking Susan, 1985), de Susan Seidelman, no enredo também. Na entrevista a seguir, Brea conta ao C7nema como foi a conceção deste Fargo pop.
Há um perfume similar ao da fragrância autoral dos Irmãos Coen ao longo da narrativa de 12 Hour Shift, mas há também um toque de Desperately Seeking Susan. Quais foram as principais referências do projeto?
Eu nunca teria pensado em Desesperadamente Procurando Susana, mas eu gosto. Deve ser a Chloe Farnworth [que interpreta Regina] que dá essas vibrações. As minhas influências eram mais ásperas, incluindo os filmes de ação bem-humorados – caso das obras de Tarantino, Edgar Wright, esse tipo de coisa. Considero “12 Hour...” um filme de assalto e acho que os Irmãos Coen são muito pontuais nisso. Eu também estava a assistir a uma série da Netflix, Umbrella Academy, durante a preparação e eu acho que, visualmente e musicalmente, o meu filme acabou tomando algumas coisas emprestadas de lá. Quando estávamos a descobrir qual seria o visual, sabíamos que a história precisava de movimento constante. Queria que a câmara sentisse que não podia ficar parada. A história é agitada e queríamos que a narrativa visual refletisse isso.
Como foi o trabalho com Matt Glass na construção da fotografia e música?
Ele não é apenas o responsável pela música e pela fotografia. Matt também é o meu produtor e o meu designer de efeitos visuais. Ele faz parte da HCT Media, que produziu o filme e sempre imprime uma marca nos seus projetos. Ele também tem experiência de realização, o que eu amo porque significa que ele respeita e conhece o processo de um realizador. Temos também gosto semelhante, o que sempre ajuda. Pode ter sido cansativo para ele, particularmente no momento em que ele estava fazendo quase tudo além da edição e da finalização de som. O que é bom sobre Matt é que ele é muito aberto à colaboração. Eu adoro a banda sonora e gostaria muito que ela fosse lançada em vinil.
Como definiria a ética dos enfermeiros que vivem uma rotina de conflito constante naquele hospital?
Queria que a vida das enfermeiras fosse moralmente ambígua, mas que, ainda assim, conseguissem ser pessoas por quem pudéssemos torcer. Nós conversamos muito sobre o fato de eles estarem vendendo órgãos no mercado clandestino. Mas eu senti que Mandy (Angela Bettis) e Karen (Nikea Gamby-Turner) tinham as suas razões para precisar de dinheiro extra. Mandy é movida pelo seu vício em drogas e Karen é movida pelas suas relações familiares. Eu não acho que as nossas protagonistas precisassem ser pessoas moralmente éticas. Seguimo-las porque são convincentes, realistas, e não por tomarem decisões épicas. Na verdade, eles tomam um monte de decisões ruins e é o que torna o filme algo divertido de assistir.
Como foi o trabalho com Angela Bettis para construir um desempenho tão poderoso na figura de Mandy?
Angela é uma profissional muito experiente. Eu entreguei-lhe o guião por vias de um amigo em comum e, depois de ler, Angela praticamente implorou para estar no filme. Uma vez que ela concordou, falamos muito sobre a personagem, as suas motivações, o seu vício em drogas e o seu passado complicado com o abuso. Depois disso, Angela pegou o papel e correu com ele. Ela construiu o seu próprio desenho. Quem me dera ficar com os louros da sua atuação, mas ela veio com todas as ideias e criou uma personagem mais completa do que alguma vez imaginei. Não estou exagerando quando digo que observá-la foi uma das maiores alegrias da minha vida. Ela é tão simples, mas tão poderosa. Ela faz com que o ato de construir uma protagonista muito difícil pareça muito simples.
Inspirado em “Romeu e Julieta”, mas adaptado para uma realidade urbana de violência, The Violent Heart tornou-se um dos filmes mais esperados da seleção de 2020 do Festival de Tribeca (online até domingo), trazendo de volta, como produtor, um nome em quem Hollywood já depositou fortes expectativas: Tobias Vincent Maguire. No enredo, dirigido por Kerem Sanga, um rapaz vive assolado pela morte da irmã: ela foi assassinada ao fugir com um rapaz, por quem se apaixonou. Adulto, ele se encanta com uma jovem, mas vai descobrir que ela pode ter conexões com o crime que o assombra.
Outro destaque de Tribeca é a delicada produção catalã Vera, de Laura Rubirola, com a diva chilena Paulina García no papel de uma doméstica fã de música clássica que vive um momento de deslumbramento com Vivaldi. A língua portuguesa anda a bater o ponto no site do evento com Pacificado, produção brasileira, ambientada nas favelas cariocas, dirigida pelo americano radicado no Rio de Janeiro Paxton Winters. Recordamos que o filme ganhou a Concha de Ouro de San Sebastián, na Espanha, com a saga de um ex-traficante, Jaca (Bukassa Kabenguele) que sai da cadeia, após 14 anos, e tenta recomeçar sua vida, assumindo uma filha que não conhece. Produzida pelo cineasta Darren Aronofsky, a obra recebeu ainda os prémios de melhor ator (para Bukassa) e melhor fotografia (Laura Merians) em solo espanhol.

