Aos 85 anos, o maior documentarista em atividade no Brasil faz um balanço das manipulações dos media na era Bolsonaro, às vésperas de lançar um filme sobre o militante do PCB
Mesmo respeitando a quarentena do coronavírus, quieto nos seus estudos, depurando a sabedoria dos seus 85 anos, o paraibano Vladimir Carvalho, respeitado graças aos cultos como O País de São Saruê (1971), tem um filme no gatilho à espera da reabertura das salas de exibição, projetos futuros e uma aguda reflexão sobre o que há de podre no reino de Jair Bolsonaro.
Laureado três vezes com a Margarida de Prata, prémio humanista, por Conterrâneos Velhos de Guerra (1991), O Evangelho Segundo Teotônio (1984) e A Pedra da Riqueza (1975), ele exibiu em importantes festivais, no fim de 2019, a longa-metragem Giocondo Dias: O Ilustre Clandestino. Nele, o veterano cineasta fala sobre o militante de esquerda que foi secretário geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e se posicionou contra a luta armada.
O aclamado realizador diz que Giocondo chegou-se a reunir por dez horas seguidas com Carlos Marighella, o poeta e guerrilheiro baiano retratado por Wagner Moura num filme em que o ator (e agora também cineasta), levou à Berlinale há um ano. A reunião com Marighella era uma forma de Giocondo demover o amigo de continuar no combate com armas na mão. “Ao final do papo, Dias saiu da sala dizendo ‘desisto!’. Dois meses depois, Marighella foi assassinado numa emboscada“, conta Vladimir, que compartilhou com o C7nema a sua indignação com o atual estado de coisas das práticas do governo do seu país.
O que o filme sobre Giocondo Dias representa na sua leva de filmes biográficos? O que ele representou para a política brasileira?
Giocondo Dias foi, na verdade, o Cabo Vermelho que tomou o quartel em Natal, durante a Intentona Comunista, em 1935, sendo abatido a balas e quase perdendo a vida. O movimento explodiu desarticulado em outras praças e resultou num tremendo fracasso e frustração ideológica. Mas ele nunca esqueceu essa lição de vida: uma revolução não se faz à revelia do povo. Com essa convicção, ingressou no PCB e, por mais de meio século, até os seus últimos dias de vida – a maior parte na clandestinidade – foi um militante incansável contra a luta armada. Acabou influindo em toda a linha e nas mais variadas etapas da história do velho Partido, até encabeçar a guinada que derrotou a tendência prestista [referência ao político Luís Carlos Prestes]. Construiu o retorno do Partido à legalidade, no final dos anos 80. Senhor do diálogo, durante essa campanha, ele fez valer a sua mansa característica e saiu em busca indiscriminada das lideranças dos mais diversos matizes e até com os chefes da Igreja esteve e foi aceito, de modo vitorioso.
Eu sempre soube dele a partir do Nordeste, ouvindo as conversas do meu pai, também militante, desde 1945, quando da redemocratização do país, com o fim da guerra na Europa. Eu, todo o tempo, percebi ele de forma intensa, como uma figura impregnada de simbolismo, uma lenda viva e atuante, esgrimindo uma dialética em que sempre respeitava o outro. Não poderia ser de outro líder que eu iria me lembrar quando assistia das galerias da Câmara Federal, há coisa de três anos, as manobras e os conchavos da bancada da bala e das nefastas intervenções do então deputado Jair Bolsonaro, hoje presidente. Por razões óbvias, fui correndo em busca de levantar o perfil de Giocondo como um antípoda exemplar a todo esse pandemónio político e ideológico que temos de enfrentar. Realizei o filme que já andou em festivais e luto nesse momento para que chegue ao público em geral.
Qual é o papel do documentário nestes tempos de fake news? O que era os fake news nos tempos em que você começou a interessar-se pelo audiovisual?
Sou do tempo em que os fake news atendiam pelo nome de boato e chegava com o vento, sem origem certa nem autor e carregado, muitas vezes, de maledicência. Voava pelas ruas no alarido das vozes ou cochichado pelos cantos repleto de calúnia.
No âmbito da política, poderia chegar a proporções preocupantes e só a custo esvaziado. No Brasil, tivemos exemplos terríveis, como foi o caso do Plano Cohen, inventado no governo de Getúlio, em 1937, numa sórdida ação contra os judeus e comunistas, acusados de prepararem a derrubada de Vargas. Pura mentira! Outro “feikão” foi preparado por Hugo Borgh, milionário paulista que inventou contra o Brigadeiro, candidato a presidente em 1945, que este chamara os eleitores pobres de “marmiteiros”, recusando-os como seus possíveis apoiantes – marmita é o termo para recipientes onde se levam refeições para o trabalho. Perdeu para o general Dutra, para desespero de Carlos Lacerda, que apoiava o outro. Juscelino mesmo foi “morto” uma semana antes do acidente de automóvel que o levou em 1973. Boataria macabra que ninguém sabe de onde partiu.
Como estamos falando de documentário não será demais lembrar do episódio ocorrido durante as filmagens do Cabra Marcado Para Morrer, do Eduardo Coutinho. Filmávamos no interior de Pernambuco quando ocorreu o golpe militar de 1964. Espalhou-se por toda parte que nós éramos perigosos guerrilheiros que preparávamos uma insurreição cubana no Nordeste, e não era uma coisa da ponta da rua, era o nosso equipamento, tripé, câmaras e refletores, que eram exibidos nos jornais e nas televisões como se fossem armamentos de guerra. Quando demos fé, éramos caçados em todo o estado. O Coutinho ainda chegou a ser preso e dona Elisabeth, a viúva de João Pedro Teixeira, ainda purgou uma cadeia. Eu mesmo esgueirei-me como pude e só saí do meu esconderijo no cariri paraibano seis meses depois e, assim mesmo, munido de uma identidade falsa. Como dizia o herói popular Cancão de Fogo, “Pai e mãe é coisa boa, mas o mato é melhor“.
Como avalia o atual circo político que vivemos no Brasil?
Isso que está acontecendo ao Brasil hoje nada tem de farsa: é tragédia no duro, e a tragédia não se improvisa, ela sempre foi um produto muito nosso, fruto de muitos erros acumulados. Classe dirigente e povo estão no mesmo saco. Lutamos para restabelecer o regime democrático no país na boa fé de que a simples proclamação da Constituição de 88 seria o suficiente para reconstruirmos a nação. Deu no que deu. Não aperfeiçoamos nada, sucateamos o nosso ensino em toda linha e a educação é a fragilidade que se vê. A pesquisa científica não existe, não criamos nem inventamos a ponto de alcançarmos o desenvolvimento mundial, e estamos pendurados na jogada final do agronegócio como último “ouro” que temos para exportar. Mas a obra estava longe de ser completa. Faltava-nos o advento da última besta do Apocalipse, com este governo enrolado na “barraca” do coronavirus. Que Deus nos acuda!
Como o cinema pode reagir?
Quanto ao cinema, se estamos falando do nosso, ele tem feito a sua parte com exemplares que tem a cara do Brasil, com as suas virtudes e os seus defeitos, e a prova disso vem correndo o mundo dando o nosso testemunho, tanto na ficção como no documentário. Esses, então, se não podem modificar a realidade, em alguns casos bem que trazem em seu âmago um sinal dos tempos, por verdadeiros que são.
Quais são seus atuais projetos?
Continuo com a pretensão de, mais à frente, dar sequência às filmagens de um projeto sobre a transposição das águas do rio São Francisco, cujas obras causaram tanta polémica. A transposição pôs uns contra os outros, chegando às raias da pantomima política, com palanques armados em pretensas inaugurações e rodízio de esdrúxulas marionetas da política, incluindo presidente e ex-presidente da república.
E o que se vê hoje? Uma monumental ruína escancarada sob a inclemência do sol que o sertanejo contempla como se estivesse diante da Esfinge. Uma fabulosa soma de recursos foi gasta, fazendo a festa de insaciáveis empreiteiras, mas os problemas da seca no Polígono praticamente não foram atacados. Como nordestino, sinto uma espécie de sentimento da terra injustiçada, mas isto não basta. Tenho lido e entrevistado sem discriminação representantes de ambos os lados: uns que sempre foram contra a obra, outros que sentem o drama na carne e esperam uma solução. Estes últimos são os que vivem, digamos, na banda podre, os que vivem na parte mais sofrida, nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, o país de Gonzagão (o cantor e sanfoneiro Luiz Gonzaga), que, na sua música, expressou genialmente a situação. Quem sabe, um dia faço uma nova tentativa de filmar.

