No meio das “brasilidades” que vão invadir a 70ª Berlinale, logo após a projeção da atração de abertura (“My Salinger Year“, com a atriz Sigourney Weaver), existem 19 filmes e duas séries.
Nesse pacote, George Moura, hoje um dos argumentistas mais disputados no seu país, chega com uma autópsia em corpo vivo da dependência química e do desemparo. “Onde está meu coração“, selecionado para os Market Screenings da Berlinale Series, é uma das principais apostas da televisão brasileira para 2020.
Expetativas altíssimas também cercam “Desalma“, um drama sobrenatural escrito pela romancista Ana Paula Maia (“Carvão animal”) e realizador por Carlos Manga Jr. (do sucesso “Se eu fechar os olhos agora”), igualmente selecionado para a maratona cinéfila germânica. Na Europa, os livros de Ana Paula são já alvo de leitura, estudo e admiração. No mesmo Velho Mundo, o nome de George Moura é um sinónimo de inquietação autoral, com a participação dele em filmes lançados em Cannes e San Sebastián, como “Linha de Passe” (2008) e “O Grande Circo Místico” (2018). Há um projeto de humor romântico a ser filmado agora no Rio de Janeiro, “Um Casal Inseparável“, com Nathalia Dill e Marcos Veras, que tem GM nos créditos do roteiro. A realização é de Sergio Goldenberg (do delicioso “Bendito Fruto“), parceiro de Moura em vários projetos na TV, como a novela “O Rebu” (2014). Ao desenvolver a trama de sua nova longa, Goldenberg trouxe Moura para contar os encontros e desencontros de dois miocárdios que batem na mesma toada: a da paixão.
Ele e Goldenberg estão juntos também em “Onde está meu coração”, que será exibido, na grade da Berlinale, no Zoo Palast Club B, no dia 24 de fevereiro, às 13h15, e estreia ainda este ano no Globoplay, canal de streaming brasileiro. A sua trama revela a jornada da jovem médica Amanda (Letícia Colin), que, no exercício da sua profissão, frustra-se e busca na droga um alívio para as pressões do dia a dia. É quando toda sua família, de classe alta, precisa enfrentar a questão da dependência química e passar em revista as delicadas relações de afeto. Com supervisão artística de José Villamarim e direção de Luísa Lima, que repetem a parceria de sucesso já vista em “Justiça” e “Onde Nascem os Fortes”, a série faz um mergulho vertical na vida de Amanda e tenta entender como e porque ela olhou para o abismo e se deixou ser olhada tão funda por ele.
Na entrevista a seguir, Moura faz um balanço estético de sua obra na teledramaturgia e nos cinemas.
Qual é o Brasil que “Onde está meu coração” investiga e quais são os afetos que permeiam a realidade de drogas, de busca por amparo?
O Brasil que “Onde está meu coração” investiga é o Brasil urbano, dos dias atuais, onde a dependência química é uma questão para além da classe pobre e à margem da sociedade de consumo. A jovem e brilhante médica Amanda – vivida pela atriz Letícia Colin, protagonista da série – é de uma família abastada, filha de um médico e de uma executiva, casada com um arquiteto que trabalha para a elite de São Paulo, a cidade mais rica do país. Mesmo admirada, amada e desejada, Amanda tem um vazio existencial de origem difusa, que a lança num abismo. Ela se extravia do amor familiar e do afeto do marido. A série é um drama adulto, que investiga as relações de afeto da família de um dependente químico, mas sem julgar, criminalizar ou crer que o uso compulsivo da droga – seja ela legal ou ilegal – é um problema de fraqueza de caráter. Em “Onde Está Meu Coração” dependência química não é um problema de polícia, mas uma questão de saúde pública e mental.
Como roteirista, existe uma dimensão autoral na sua obra, ancorada a uma tradição televisiva de autores que encouraçaram a brasilidade, como Bráulio Pedroso, Eloy Araujo e Dias Gomes. O quanto essa couraça… a das mazelas sociais, dos conflitos de classe e dos microcosmos assolados por endemias como o vício ou o fundamentalismo… dá uma natureza política à sua obra? Que gesto político (político como ética… como se vê no cinema dos Taviani a Costa-Gavras, passando por Leon Hirszman) existe em “O Rebu”, “Onde nascem os fortes” e, agora, em “Onde está meu coração”?
Fico feliz de ver você observar nas obras citadas esse carácter da política como ética e sobretudo em notar o diálogo com mestres como os irmãos Taviani, Costa-Gravas e Dias Gomes. Há uma frase do pintor e escritor italiano Carlo Levi (1902-1975) em que ele diz: “O futuro tem um coração antigo“. A frase poderia servir como uma espécie de epígrafe da série. Ou seja, não existe amanhã sem ontem. Junto com meu parceiro de escrita Sergio Goldenberg, temos perseguido uma dramaturgia que busque refletir sobre as questões do nosso tempo. Mesmo quando fazemos TV aberta, há uma preocupação de entreter e fazer pensar, emocionando. Eu acredito que as grandes questões humanas são as mesmas desde a tragédia grega, mas que ganham diferentes roupagens a cada época. Hoje, de forma mais aguda, e sobretudo no Brasil, todas as escolhas se tornam políticas como ética. Falar da questão da dependência química e como ela toca as relações de afeto de uma família, num momento em que as políticas públicas defendem a internação compulsória como caminho único de uma suposta cura, é uma escolha política. Estamos felizes de realizar “Onde Está Meu Coração” em 2020, porque é tratar de um assunto que as pessoas tendem a jogar para uma zona de sombra. E ter a possibilidade de viver, pela dramaturgia, determinados temas é um maneira de tentarmos entender as nossas faltas e os nossos vazios.
Como foi essa visita ao universo narrativo das comédias românticas em “Um Casal Inseparável”, com seu parceiro habitual, Sergio Goldenberg? Que novas incursões pelo cinema você tem pela frente?
“Um Casal Inseparável” é minha primeira experiência em comédia. Aceitei o convite do Sergio pela confiança, inteligência e admiração que tenho com este parceiro de longa data. Ele veio com a ideia quase pronta. Estava com um desejo de voltar a direção no cinema. Fui fisgado, não resisti a história e me deu um enorme prazer ajuda-lo nesta aventura que mistura sorriso e passagens emocionadas. O que já vi das filmagens, adorei. No cinema, estou trabalhando em uma adaptação do romance “A Crônica da Casa Assassinada”, do autor mineiro Lúcio Cardoso. É um dos roteiros mais difíceis que escrevi em toda a minha vida, não só pela alta qualidade literária da obra original, mas também pela complexidade e ambiguidade das relações entre os personagens. Um desafio daqueles que dão um frio na barriga, um mergulho numa floresta desconhecida, que trata de família, amores, ódios, rancores e desejos proibidos.

© Globo/Fabio Rocha
Você assinou, recentemente, o guião de “O Grande Circo Místico“, que deu a Cacá Diegues a vitrine em Cannes. O que medalhões como o Cacá ainda conseguem nos revelar sobre o Brasil?
A receção ao filme “O Grande Circo Místico” em Cannes, assim como a acolhida e saudação de Thierry Frémaux ao Cacá Diegues, foi uma experiência de pertencimento ao cinema do mundo. Curiosamente, ela deu-se exatamente dez anos depois de ter estado lá com o filme de Walter Salles e Daniela Thomas, “Linha de Passe“. Eu também fiz o roteiro dele, que acabou por ser premiado com a Palma de Melhor Atriz para Sandra Corveloni. É muito bom e saudável para uma cinematografia de um país quando diferentes gerações – inclusive os medalhões aos quais você se refere – permanecem a fazetfilmes. Só a diversidade e a tolerância às estéticas mais singulares dão força e o vigor ao cinema de um país. Sonho que os novos e os veteranos sigam produzindo com a grandeza inventiva proporcional a territorialidade do Brasil continental.
Qual é a sua expectativa para a Berlinale? O quanto o festival pode ajudar a redesenhar a importância da teledramaturgia brasileira pelo mundo?
Ter uma série selecionada para um dos festivais mais importantes de cinema e séries do mundo é estar numa vitrine incrível. Embora o Market Screenings não seja a mostra competitiva, é lá onde se reúnem as apostas das séries mais relevantes para o ano de 2020 e onde se reúnem “players “de todo o mundo. Acredito que, embora com a barreira da língua, que acaba de ser derrubada de alguma maneira com a quádrupla premiação de “Parasitas” no Oscar, o mundo está mais recetivo a dramaturgias fora do eixo EUA e Europa. A dramaturgia brasileira está pronta para dialogar com as dramaturgias das mais diferentes latitudes, seja na abordagem dos temas contemporâneos ou na forma como eles vem sendo tratados. Para a série “Onde Está Meu Coração”, original do (canal de streaming) Globoplay, estar em Berlim, mesmo antes da sua estreia, é a prova que o audiovisual no Brasil vive um momento pleno, apesar de todas as adversidades.

