Realizador de culto brasileiro fala ao C7nema sobre o seu novo projeto e faz um balanço da “Jihad moralista” que assola o seu país
Redescoberto pela Europa, cinco décadas depois da exibição de Jardins de Guerra (1968) na Quinzena dos Realizadores de Cannes, após a exibição de um documentário sobre seus feitos em Roterdão, o mineiro Neville Duarte de Almeida, cineasta definido no Brasil como “a rebeldia em forma de artista“, tem um filme novo para rodar na semana que vem, depois de cinco anos de hiato, passados após o lançamento de A frente fria que a chuva traz (2015).
Numa conversa exclusiva com o C7nema, o realizador mais censurado do audiovisual brasileiro, mundialmente respeitado pela sua incursão nas artes plásticas em parceria com Hélio Oiticica (1937-1980), na instalação Cosmococas, fala do projeto de uma série, cujo episódio piloto chama-se Ciúme. Algumas imagens foram feitas recentemente para a experiência, que pode até tornar-se uma longa-metragem, dada toda a natureza anfíbia da estética do realizador de A Dama do Lotação (1978), um dos maiores êxitos das bilheteiras do seu país nos ecrãs, com cerca de 7 milhões de pagantes. Julianne Chaves e Igor Cotrim protagonizam esse exercício, por enquanto indefinível (como o esfíngico Neville sempre é, em tudo), acerca de um casal atomizado pela possessividade.
“Uma vez estava num lugar com um amigo meu, que já tem 45 anos de casado, e ele me falou o seguinte: ‘Neville, nós temos que dar uma solução para o maior problema da humanidade.’, e eu perguntei qual era esse mal. Ele me respondeu: ‘É o ciúme. Eu estou aqui, neste lugar de casado, há 45 anos, tendo há quase cinco décadas a mesma mulher, mas continuo sendo torturado pelo ciúme, sou um prisioneiro dele, e sinto-me totalmente frustrado‘. Ouvindo essa pessoa classificar esse sentimento como o maior problema da humanidade, senti um desejo de investigar essa angústia“, diz Neville, hoje com 79 anos. “Acredito que estamos na era da psicanálise, estamos na era de uma solução para as angústias. O importante é ser feliz. Mas, infelizmente, no jogo das relações, hoje, ainda, o que parece contar mais é ser dono e se sentir dono, é poder vigiar, é poder amarrar. O que conta é a previsibilidade da relação, mas eu quero ser feliz, você quer ser feliz, ela quer ser feliz, nós queremos poder conjugar o verbo da felicidade, em todas as vozes, durante a nossa existência nas coisas que fazemos“.
Entusiasmo sempre foi um adjetivo essencial à alma de Neville, até nos momentos em que a Censura fez dele um proscrito, em que parte da crítica considerou os seus filmes off da Broadway do politicamente correto e em que “os fariseus da caretice deram aos editais do cinema uma homilia que desabona os criadores“. As aspas são dele e precedem o esporro: numa euforia diante de uma dupla volta aos ecrãs, pelas vias do documentário Cronista da beleza e do caos, de Mario Abbade, e da comédia Os espetaculares, de André Pellenz, na qual ataca de ator, ele elenca a plenos pulmões ao C7nema os seus novos projetos. “Não largo mão de filmar ‘A dama da internet’, pois esse país está precisando reconhecer a força das mulheres“, diz o polémico diretor, dono de uma fervorosa legião de fãs.
Há quatro anos, ele contou a sua vida ao crítico de cinema Mario Abbade, diante de uma câmara ligada. Para ela, falou de filmes, dos ácidos que tomou e das preces que faz desde menino, educado sob o credo protestante, frequentando cultos da Igreja Metodista até hoje, sabendo versículos da Bíblia de cor e salteado. Abbade reuniu os causos do provocativo cineasta no documentário Neville d’Almeida: Cronista da beleza e do caos, lançado em janeiro de 2018, em solo estrangeiro, em Roterdão, na Holanda, sob uma erupção de elogios dos europeus. O documentário já está em DVD. Neste belo registo, ele fala de longas-metragens aclamadas como Os sete gatinhos (1980), que totalizou 1,9 milhões de bilhetes vendidos, arrancando de Thelma Reston uma das maiores atuações do cinema brasileiro. “Em Roterdão, nós tivemos cinco sessões em salas cheias, com gente a querer ouvir um brasileiro falar sobre a liberdade. Tenho como referências dois diretores malditos: Jean Genet e Kenneth Anger. Jean fez peças explosivas e dirigiu uma curta, Canção de amor, que traz a cada plano uma evocação da poesia. O outro, Kenneth, só dirigiu curtas, mas fez de Scorpio rising uma ode ao desejo. É a essa linhagem a que quero me associar. A minha busca é pela transgressão livre. Já a busca generalizada do cinema brasileiro é por puxar o saco de quem está no poder“.
Em 2018, o realizador de sucessos populares André Pellenz (de Detetives do Prédio Azul) convidou Neville para participar em Os espetaculares, ainda inédito. Nesse projeto, o veterano realizador contracena com Rafael Portugal, um dínamo do riso. Este encarna o humorista Ítalo, um dos vértices do trio de protagonistas de Pellenz: os outros dois são Ed (Paulo Mathias) e Sara (Luísa Périssé, filha de Heloísa Périssé e Lug de Paula). O enredo foi escrito com a marca de delicadeza de Sylvio Gonçalves (argumentista de blockbusters como SOS – Mulheres ao ma“). Na narrativa, Ed, um egocêntrico profissional, empenha-se em montar um trio de comédia para poder voltar aos palcos. Daí ele se aproximar de Sara e Ítalo, cujo talento desperta a atenção de um cineasta cheio de arrogância vivido por Neville.
Na entrevista a seguir, Neville expõe as suas vísceras.
O que é o projeto Ciúme?
Vai ser filmado num lugar chamado Estúdio da Gigóia. É um espaço com jardim, casas, urbano, com espaços de interior e exterior, na Ilha da Gigoia, na Barra da Tijuca. Hoje, o ciúme está em todos os países, todas culturas, em todas as religiões. O ciúme vai além do homem e mulher, vai de homem com homem, vai de mulher com mulher. O ciúme está dentro das profissões, dentro de todas as formas profissionais e materiais de relações. O que eu estou fazendo é uma nova experiência de série ou de minissérie experimental. Ela é experimental na maneira que rompe com vários conceitos da minissérie tradicional, sobretudo o conceito de tempo e espaço. Quero desafiar, na narrativa, o conceito de princípio, meio e fim. O conceito de ter um tempo determinado. A indeterminação de tempo leva à criatividade. É uma coisa para essa minissérie que eu chamei de Cinema Instantâneo. O nome da minissérie é Ciúme. O conceito é Cinema Instantâneo. A minissérie virou o filho rejeitado do desespero criativo que fica entre os realizadores. Um realizador vai buscando novos caminhos. O Cinema Instantâneo tem algumas digressões. Ele é criado na hora, mas se contrapõe a uma ideia, tem sempre um roteiro que pode ser escrito, de modo mental, espiritual ou experimental, no ato da busca, da construção. Não existe o “vale tudo”, existe a invenção. E, neste caso, uma frase: “Você parece um cachorro lambão“.
O que significa para você a experiência de voltar a dirigir, neste momento tenso para o Brasil?
Eu estou fascinado com a ideia de fazer como quando eu comecei. Nos anos anos 1960, não tinha lei de incentivo, não tinha Lei Rouanet (dispositivo legal de uso de recursos de empresas para a criação de obras artísticas), não tinha nada. Tinha ditadura militar e censuras diversas. Não tinha câmara digital, não tinha vídeo. Quando eu fiz meu primeiro trabalho, só havia 16mm. Era fascinante aquela experimentação narrativa. E, logo que comecei, passando a filmar em 35mm, tive vários filmes proibidos, jamais exibidos. Perdi tudo. Aí fui morar num quartinho minúsculo. Mesmo assim, o meu primeiro filme, Jardim de Guerra, foi parar na Quinzena dos Realizadores. E eu nem conhecia ninguém lá, que pudesse me ajudar na seleção. Eu fiquei surpreso de me chamarem para a inauguração desse evento paralelo à disputa de Cannes. Algumas pessoas de lá vieram ao Brasil, viram o meu filme e amaram. De repente, apesar do prestígio na França, o filme foi censurado, interditado, jamais exibido, e mudou tudo pra mim. Lutei muito para me reerguer, conseguindo sucesso com A Dama do Lotação, mas nunca desisti do desejo de seguir filmando.
Você conheceu Hélio Oiticica nessa época da censura?
Conheci em uma projeção secreta de Jardim de Guerra. Eu fiz essa projeção para o Waly Salomão, em uma cabine que cabia seis pessoas. O Wali levou um amigo, o Hélio Oiticica. Eu não sabia quem ele era e nunca tinha visto nenhum trabalho dele. Sentamos e vimos o filme. Quando acabou o Hélio, um dos maiores artistas plásticos da América Latina, falou que o filme era genial e nunca tinha visto projeção de slide no cinema. O slide era incrível naquela época: nele, a fotografia saía do papel. Ela virou uma ocupação de espaço. A primeira vez que vi slides foi na minha igreja metodista: fizemos um piquenique e projetamos no salão da igreja. O Hélio falou-me da projeção de slide como linguagem. Passei também a encarar a filmagem de pósteres de pinturas e fotos como uma expressão poética. No final dos anos 60 os pôsteres eram uma obra de arte. Naquela mesma noite, decidimos fazer uma obra que unisse o cinema e as artes plásticas. Eu era o cinema e ele era o artista plástico. Ele queria ser cineasta e eu queria fazer experiências como artista visual. Aí chegamos a um conceito naquela noite: tirar a arte da parede. Foi o conceito da ocupação espacial. Vamos ocupar esse espaço todo, vamos pegar 500 rolos de papel higiênico, amarrar e criar um labirinto. É a ocupação espacial. Aí a gente começou a conversar como seria essa obra e chegamos a um conceito que eu propus a ele: a Cosmococa. Era uma forma de “quase cinema”, ou “quase-cinema”: uma linguagem com movimento de imagem fixa. Aquela era uma proposição para o cinema do futuro, onde você pode ver em qualquer posição que estiver. O espectador vira participação dentro do espetáculo, ele entra dentro da obra de arte. É quase cinema por que tem trilha sonora, um roteiro e com um ambiente. Criamos o conceito revolucionário na história da arte que era ver a obra de dentro d’agua. Era fazer dentro de uma piscina uma projeção.
Qual foi a maior sensação de realização que você teve no cinema?
Para mim é muito difícil escolher um momento, porque vivo intensamente. Nas filmagens, eu entrego-me totalmente e aquilo dá-me uma alegria muito grande. Quando vejo os meus filmes, tenho vontade de cair de joelhos e agradecer a Deus.
Você é alguém que vem de uma criação protestante, acreditando no Cristianismo. A gente está a viver um momento em que o grande medo da cultura ocidental é a explosão de um fundamentalismo religioso cristão cerceador. Como você encara essa nova onda fundamentalista?
O fundamentalismo religioso não tem nada a ver com Jesus Cristo. Já fui muito doidão, mas sempre tive uma visão cristã, busco a Deus todos os dias. Busco a Deus quando faço cenas que desejam ser incríveis, como uma festa erótica que rodei em Rio Babilônia, nos anos 1980. É preciso buscar Deus. Eu falo assim: ‘Quem vai me ajudar? São os homens, medíocres, idiotas, burros, limitados ou será Jesus Cristo que não tem limite na sabedoria, que não tem limite na criação?‘. Essa pergunta é fundamental. Antes da vinda de Jesus Cristo, existia a lei do olho por olho e dente por dente. A lei do mais forte, da brutalidade. Aí vem Jesus Cristo que propõe mudar essa lei e todos ficam contra. Ele propõe a lei do amor e do perdão. Só uma minoria aderiu. Eu vejo o mundo ainda no Primeiro Testamento, na Lei de Talião. Onde já se viu igreja que apoia candidato, que semeia a violência e prega o ódio, cujo maior objetivo é distribuir armas e dar prémio para quem mata? Uma igreja tem que ter o mínimo de dignidade de ficar fora dessa, tratando das coisas espirituais e não dos bens materiais, dos podres poderes de arrumar cargo no governo. As igrejas viraram verdadeiras quadrilhas. O Brasil é líder mundial no marketing religioso. Só o cinema salva. Só a arte. A arte é a nossa ascese.

