Rémi Bezançon passou por Lisboa durante a Festa do Cinema Francês
Adaptação de um livro de David Foenkinos, A Biblioteca dos Livros Rejeitados funciona como um whodunit no mundo literário. Uma jovem editora encontra, numa estranha biblioteca perdida na Bretanha, um manuscrito incrível assinado por um desconhecido Henri Pick.
Fascinada, ela rapidamente publica o livro, que se torna torna um best-seller. O autor é um tal de Henri Pick, o dono de uma pequena pizzaria cuja mulher acredita que nunca terá escrito mais do que listas de compras. Ele morreu há dois anos e por isso mesmo não pode responder à questão. É aí que entra em cena um conhecido crítico literário (Fabrice Luchini), que acha que tudo é um embuste e uma impostura.
Uma comédia com um toque de suspense e mistério a la Agatha Christie sem nenhum assassinato à mistura. O C7nema teve a oportunidade de falar com Rémi Bezançon, um cineasta que apesar de ter a sua carreira marcada por comédias e dramas de ficção em imagem real (O Primeiro Dia do Resto da Tua Vida; Um Feliz Evento), até já experimentou a animação em Zarafa (2012).
A Biblioteca dos Livros Rejeitados é uma adaptação homónima do livro de David Foenkinos. Porque escolheu adaptar essa obra ao cinema?
Foram duas as principais razões para adaptar o trabalho de Foenkinos. A primeira está ligada ao conceito de uma biblioteca que reúne todas as obras não publicadas, que foram recusadas pelos editores. É uma ideia bastante interessante, poética. Adorei o conceito de poder recolher e reunir este tipo de manuscritos numa espécie de refúgio. A outra coisa que me atraiu é a investigação literária, uma investigação onde não procuramos um assassino, mas sim quem escreveu um livro. Isso fascinou-me…
Sim, o filme é um verdadeiro “Whodunit” literário…
Exatamente…
E como foi trabalhar com o Fabrice Luchini. Falei com o Nicolas Pariser e ele contou-me que o seu método assenta totalmente no texto e que ele lhe telefonava todos dias para falar de cenas do guião…
Sim, nem mais. Comigo foi igual. Ele telefona todos dias antes das filmagens. O Fabrice é alguém que trabalha muito. Foi a primeira vez que trabalhamos juntos. Ele é apaixonado pelas palavras e procuramos sempre as certas. É como se fosse um músico das palavras, sempre à procura da nota certa…
E com a Camille Cottin, como foi trabalhar?
O Fabrice é alguém que requer muita atenção, até porque te telefona todos dias. É um perfeccionista e meticuloso. Respeita muito o texto, mas às vezes tenta mudar as palavras que não entende bem naquela situação ou que pensa que deveriam ser outras. A Camille é muito mais simples. Os dois juntos são muito interessantes. Mas felizmente não tive um outro ator como ele. Se tivesse dois Luchini no elenco, aí sim seria complicado de lidar com eles. (risos)
Nos EUA temos algo semelhante a essa biblioteca, mas para os guiões. A “Blacklist” dos guiões não produzidos. Tem algum guião que poderíamos guardar aí?
Eu escrevo imensos guiões que não se transformaram em filmes. Esses guiões estão lá por casa. Se pudéssemos abrir uma biblioteca com guiões recusados, estaria certamente bem preenchida. Não só com os meus, mas com todos os argumentistas e realizadores que não conseguiram avançar com um projeto.
Na verdade, hoje em dia é mais fácil encontrar um editor para um livro que antigamente. Os livros são menos caros. O digital transformou o livro numa peça menos dispendiosa. E podemos encontrar pequenos editores, ou até publicar nós mesmo um livro. Cem exemplares, por exemplo. Antigamente era mais difícil, pois tinhas de encontrar quem o quisesse publicar e imprimir. O digital mudou isso.
E no cinema aconteceu o mesmo…
Sim, é verdade, mas fazer um filme – mesmo em digital – ainda é caro [comparado com um livro]. Um guião que não conseguimos transformar em filme, pomos de lado. Nos filmes é diferente.
No filme há uma frase bastante interessante, que hoje em dia vivemos obcecados com a forma das obras e como estas foram construídas…
Sim e podemos dizer o mesmo do cinema. Na literatura, a construção do livro é mais importante que o próprio livro em si. Por exemplo, aquilo que fascina as pessoas no meu filme é que o livro que foi lançado foi escrito por um vendedor de pizzas bretão que nunca tinha escrito nada na vida. Nem lido. E não esquecer que esse livro que ele alegadamente escreveu foi encontrado numa biblioteca de livros rejeitados. Ou seja, as pessoas compram e adoram o livro por causa da história à volta dele e não a que é contada na publicação em si.
E quanto à forma, tu hoje quando escreves algo pensas logo de início se isto é para cinema ou TV?
Hoje em dia estou mais ligado ainda a filmes, embora tenha escrito uma série que não vou realizar. Na verdade, eu continuo a fazer filmes para o Cinema. Sou um apaixonado pela 7ª Arte e os meus filmes são feitos para serem vistos numa sala de cinema, não para a TV ou Netflix…
E muito menos para smartphones… (risos)
(risos) Naturalmente, mas vejo imensas vezes pessoas no metro a verem filmes e séries. Essa não é a minha visão de Cinema. Para mim o Cinema é numa sala onde as pessoas se juntam para ver um filme. É como uma espécie de religião. Quando vês um filme sozinho a experiência não é igual à quando vês numa sala. O ver algo em conjunto com alguém… para mim isso é o espetáculo.
Mas respeito quem pense o contrário.
E tem um projeto novo?
Sim, escrevi um filme que se desenrola no mundo da arte contemporânea e acompanha a amizade entre o dono de uma galeria e um pintor. Terá novamente o Fabrice Luchini e um outro ator francês, que não posso dizer o nome pois ele ainda não aceitou o convite.
Então está preparado para receber vários telefonemas do Luchini antes das filmagens? (risos)
Sim, sem dúvida (risos)
E vai filmar quando, no próximo ano?
Sim, na primavera.

