Laureado pelo drama Mémorable com o Troféu Cristal de melhor filme no Festival de Annecy, o maior do mundo quando o assunto é cinema de animação, o diretor e artista plástico francês Bruno Collet vem ao Recife, a terra dos filmes de culto Bacurau e Aquarius, para compartilhar as suas técnicas de como desafiar as leis da física em nome do lirismo com o público do estado de Pernambuco, no Nordeste do Brasil.
A capital pernambucana acolhe o cineasta na 10ª edição do Animage, um das mais prestigiadas maratonas de desenhos, stop-motion, rotoscopia e técnicas afins das Américas. Além de seu premiado filme sobre Alzheimer, Collet exibe produções como Le Petit Dragon (2009) e Jour de Gloire (2007) no evento, onde conversa com a plateia sobre suas concepções plásticas de imagem e tempo.
Inaugurado no dia 11, o Animage vai até ao dia 20 tendo entre as suas atrações a longa-metragem Les Hirondelles de Kaboul, de Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec. Coprodução entre França, Suíça e Luxemburgo, o drama que esteve na seção Un Certain Regard cannoise, propõe uma radiografia da ocupação de Cabul pelos Talibãs, numa adaptação do romance homónimo de Yasmina Khadra. A exibição acontece no Cine São Luiz, um dos espaços exibidores, ao lado da CAIXA Cultural Recife (programação gratuita) e do Cinema da Fundação – Derby (preços populares). É nesse circuito que entra O meu Amigo Totoro (1988), veia aberta da pangeia de múltiplas vozes chamada japanimation: no recorte feito pelo curador Julio Cavani, o desenho será exibido em comemoração aos 30 anos de sua criação pelo Studio Ghibli. Nesta quarta, o festival recifense exibe Tio Tomás, A Contabilidade dos Dias, de Regina Pessoa, produção portuguesa também vencedora de láureas em Annecy.

Mémorable é um filme sobre algo que desaparece, algo chamado memória, que parece ser um dos temas mais importantes do cinema desde o início deste século XXI, de Michel Gondry (e o seu Eternal Sunshine of The Spotless Mind) a Wong Kar-wai (2046). Qual é a dimensão “cinematográfica” da memória? Qual é o significado cinematográfico da doença de Alzheimer?
Para mim, olhar para o passado é tão importante como olhar para o futuro. Este tema é recorrente nos meus filmes. Claro que é evidente quando realizo uma curta como O Dia da Glória , cujo tema central é um monumento aos mortos da Primeira Guerra Mundial, mas também está presente no meu O Pequeno Dragão, filme-homenagem a Bruce Lee, que nos interroga sobre a que nos interroga sobre o poder e a imortalidade de certas imagens icónicas. A minha última curta, Memorável, sobre a doença de Alzheimer, não escapa a essa regra.
Quantos artistas trabalharam com você em “Memórable”? Qual era o seu orçamento?
Graças a uma equipa de cerca de vinte pessoas e a um saber fazer reconhecido internacionalmente, conseguimos dar vida às nossas personagens e tornar crível a história de um ancião atingido por esta terrível doença. Depois de um ano de trabalho e um orçamento de cerca de €300 mil, Mémorable excedeu todas as minhas expetativas.
Como funciona a indústria de animação na França?
Há cerca de vinte anos, a indústria da animação francesa desenvolveu-se consideravelmente. Se esta evolução é, antes de mais, fruto de vontade política e de esforço económico, ela beneficiou-se também da chegada do digital, que alterou profundamente a maneira de trabalhar. Graças à internet, os estúdios de animação puderam deixar a capital, vivendo em outras cidades, mas permanecendo competitivos. Eu mesmo trabalho e vivo na província. Se o desenho animado está a ir bem, o volume de animação (stop-motion que eu pratico) é minoritário. Cara de produzir, esta técnica continua, no entanto, a estar presente na produção francesa. Utilizada para séries destinadas a um público jovem, ela encontra também a serviço de projectos mais adultos, à semelhança da selecção das minhas curtas-metragens pelo festival Animage.

