Domingo: O ovo da serpente de um novo velho Brasil

(Fotos: Divulgação)

Obrigado a se reinventar no meio dos escombros do seu processo democrático, tendo Jair Bolsonaro à frente do Palácio do Planalto, o Brasil passa em revista, nos ecrãs, um trilho cheio de solavancos morais que o levou da esquerda ao conservadorismo com a estreia da esperada dramédia Domingo

Exibido na sessão Venice Days, no Lido, em 2018, e aclamado na sua passagem por festivais em Lima, Havana, Brasília e Rio, onde rendeu o troféu Redentor de melhor atriz à veterana Ítala Nandi, a produção volta ao passado para os momentos iniciais da chegada de Luiz Inácio Lula da Silva ao comando da sua nação, no início dos anos 2000. Clara Linhart e Fellipe Gamarano Barbosa (parceiros em Gabriel e a montanha) assinam a realização desta bem-humorada crónica sobre as mudanças éticas que a sociedade brasileira viria a sofrer com a eleição de um operário do Nordeste para presidente. 

Sinuoso, no seu passeio pelas vaidades de diferentes integrantes de um clã gaúcho abastado, a sua narrativa passa-se no 1º de janeiro de 2003, um sábado. Enquanto o Brasil celebra a histórica posse de Lula, um churrasco regado a champanhe reúne duas famílias do interior gaúcho cujas máscaras estão prestes a cair. Da sogra que retorna à sua antiga mansão, dilapidada, à filha da empregada de origem não discutida, todas e todos por lá têm os seus pecados. No elenco, além de Ítala, como a matriarca cheia de desmandos e de mandos, brilham em cena Camila Morgado, Martha Nowil, Ismael Caneppele, Michael Wahrmann e (um inspiradíssimo) Augusto Madeira.

O que o rótulo “político” aporta a um filme como Domingo e o que ele vasculha da nossa identidade de classes sociais?

Clara Linhart: Política é a arte de conquistar, manter e exercer o poder. É exatamente essa a ação de várias personagens de Domingo: exercer poder sobre alguém. O filme narra o encontro de duas famílias da cidade de Pelotas para um churrasco no dia 1 de janeiro de 2003, dia da primeira posse do Presidente Lula. Dentro da mansão decadente onde se passa a ação, vemos as relações de poder entre as personagens – pais exercendo poder sobre seus filhos, maridos tentando controlar suas mulheres, patrões oprimindo seus empregados. Mas nem todos estão dispostos a se manter no seu lugar designado: quem é oprimido tenta se libertar ou oprime quem parece indefeso. Laura, a matriarca da família interpretada por Ítala Nandi, é a personagem que mais representa e verbaliza esse desejo de exercer o poder sobre os demais. Quando suas vontades não são atendidas, ela ataca.

Fellipe Barbosa: Ao escolher situar a ação no dia da chegada do Partido dos Trabalhadores ao Poder, o argumentista Lucas Paraizo aguça o caráter político de “Domingo”, pois só quem se interessa pela iminente mudança dos rumos do país são os empregados da casa, que estão atentos à posse. Do lado dos burgueses, não há interesse algum na posse de Lula ou na mudança da sociedade. Porém a política vai atravessá-los inevitavelmente.

Temos um filme de verve cómica à lá Ettore Scola. Que humor é esse que vocês perseguiram?

Clara Linhart: Lucas Paraizo escreveu o roteiro de “Domingo” em 2005 e convidou Fellipe Barbosa para dirigi-lo em 2007. Dez anos depois, em 2017, juntei-me ao Fellipe na realização e rodamos o filme num contexto político completamente mudado. Após 13 anos no Poder, o PT havia sido desmoralizado, escanteado, a presidente Dilma Rousseff tinha sofrido um golpe parlamentar e parte da população demonizava a esquerda. Parece-me que a grande mudança operada pelo PT foi uma mudança de mentalidades: a tomada de consciência de boa parte do proletariado sobre as estruturas de opressão, e a possibilidade de transformá-las. O recuo histórico torna risível o medo da burguesia de 2003 que temia uma revolução dos pobres e a perda de seus privilégios. Sabemos hoje, em 2019, que não foi o caso.

Fellipe Barbosa: No entanto, esse mesmo medo nos levou à situação boçal em que nos encontramos hoje. Ou seja, talvez não possamos mais rir desse medo.

Clara Linhart: Uma de nossas referências, o italiano Ettore Scola, situou algumas de suas histórias em contextos políticos muito específicos como em Nós que nos amávamos tantobr (Tão Amigos que Nós Éramospt), filme de 1974 em que vemos três amigos apaixonados pela mesma mulher ao longo de 30 anos, num contexto histórico que vai da ascensão ao declínio do fascismo. Em Uma jornada particularbr (Um Dia Inesquecívelpt), ele situa um encontro amoroso entre dois vizinhos no dia da visita de Hitler à Itália em 1938. Scola também ironizava o pavor da burguesia de uma revolução proletária como em Casanova e a revoluçãobr (A Noite de Varennespt). Optamos por um tom cómico em Domingo e escolhemos um elenco que colaborasse para isso: Itala Nandi, Camila Morgado, Augusto Madeira, Martha Nowill e Michael Wahrmann, que é um amigo diretor que revelou-se um ator muito engraçado. Usar o humor para fazer um retrato sarcástico dessa família burguesa foi uma forma de criar empatia e aproximar os espectadores das nossas personagens.

Qual é a noção de “aristocracia” e de “plebe” que o filme traça na ótica de sua matriarca e de seus demais personagens?

Fellipe Barbosa: Laura, papel de Ítala, faz parte de uma burguesia decadente que se vê como aristocracia. Ela vê seus empregados como subalternos, cidadãos de segunda classe – assim como o novo presidente. Mas existe uma transformação sutil na personagem, particularmente numa cena em que ela está sozinha e pode enfim deixar sua máscara cair. A personagem que melhor transita entre esses mundos é Bete, papel de Camila Morgado, que exerce a função de dona da casa de Laura, sua sogra e eterna antagonista. Bete tem afeto pelos empregados, mas suas tentativas de aproximação são recebidas com constrangimento. Já os empregados veem os patrões como algozes ou salvadores, dependendo do ponto de vista. Tentamos representar o velho proletariado, que repete as opiniões e o voto do patrão, e também o novo proletariado, que compreende a opressão e deseja se libertar.

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