Sébastien Marnier assina A Hora de Saída, um dos filmes mais inquietantes do ano
Adaptação de um livro escrito por Christophe Dufossé e lançado em França em 2002, A Hora de Saída chega esta semana às salas nacionais com a história de um professor que tem de lidar com uma turma de alunos prodigiosos que tem de ultrapassar o trauma do seu anterior docente ter-se suicidado em plena aula.
Mas será que estes jovens são meros espectadores inocentes marcados pela morte do professor e vítimas de bullying por parte dos restantes alunos? É isso que descobrimos neste trabalho com claros códigos do cinema de John Carpenter, imperando mesmo uma forte mensagem política e, sobretudo, ecológica.
O c7nema teve oportunidade de falar com Sébastien Marnier, o realizador deste projeto:
Como começou a trabalhar neste filme?
O filme nasceu a partir do livro de Christophe Dufossé que li e que foi lançado em França em 2002. Foi um grande sucesso literário e imediatamente quis levá-lo ao cinema. Na época tinha apenas 25 anos e não consegui financiamento e assim avançar com ele. Há 3 anos falei com a produtora com quem trabalho atualmente e decidimos por fim avançar. Na verdade, já tinham passado quinze anos desde o lançamento e mantive o desejo de o adaptar. Comecei a escrever o guião. É um filme de jovens contra o sistema. Eles são inquietantes, algures entre Michel Houellebecq e Stephen King.
Sempre quis fazer um filme sobre a adolescência e achei este ótimo. Olhamos para o filme e vemos a mesma história do livro quinze anos depois, acompanhando os jovens e os seus problemas nos dias de hoje.

Muita coisa mudou desde 2002. Como trabalhou o argumento para adaptar o livro a estes tempos?
Essencialmente este é um livro sobre o terror que a adolescência pode ser e os medos que os jovens têm de superar. (…) O que fiz foi atualizar. Quando o livro saiu, o mundo estava na ressaca do 11 de setembro e não era de todo o mesmo mundo de agora. O poder da imagem, o acesso à Internet permanente e as questões ecológicas, tudo questões que ganharam uma maior proporção junto dos jovens de hoje em dia. O que quis mostrar neste filme é a maneira de aproveitar melhor o mundo….
E como foi trabalhar com o Laurent Lafitte e as crianças? Houve um casting?
Eu escrevi o filme e o papel do professor para o Laurent Lafitte. Trabalhamos durante três meses antes das filmagens, mas nos primeiros dias da rodagem não falei muito com ele, pois queria que ele tivesse o impacto da primeira cena filmada, que é a do início do filme.
Quanto aos jovens, fizemos um casting durante um mês. Vimos cerca de 150 candidatos e eu procurava jovens singulares. Encontrei com facilidade pois eram jovens talentosos com alguma experiência, fosse em curtas metragens ou telefilmes. O que gostei mais deles foi a forma sedutora como atuam, transferindo estranheza em modo bruto, dessexualizados (…) como se fossem os miúdos de A Cidade dos Malditos de John Carpenter ou de O Laço Branco de Michael Haneke. Têm uma grande frieza, mas simultaneamente são adoráveis…
Existe um sentimento fatalista inerente ao filme. Crê que é o fim e não há nada a fazer?
Era o sentimento do livro, mesmo que ele não aborde questões ecológicas. Há qualquer coisa da obra de Michel Houellebecq nele, algo que mistura misantropia e lucidez. (…) Trabalhei as coisas de forma a marginalizar um pouco os jovens, separando-os dos outros. Isso cria o ambiente de thriller, mas não tenho qualquer intenção em dizer que a juventude é toda ela assim …
E como geriu a tensão? Há realmente aqui um tom à John Carpenter…
Sim, é o meu realizador preferido. Ele atravessa o thriller, a ficção científica e o film noir. É um cineasta que fala muitas vezes da vida e do seu país. Os seus filmes transportam uma mensagem política muito eficaz.
No meu filme, mesmo que estejamos numa França que ainda não é assim ainda completamente, mostramos problemas muito atuais. Tento fazer uma radiografia contemporânea aos jovens. Aquilo que chamamos de hoje em dia de “sinais de alarme”. Os problemas climáticos criam aqui uma tensão extra (…) acrescentei muitos detalhes para criar esse suspense.
E acha que a juventude de hoje em dia pode fazer mais que a nossa geração conseguir.
Sim, tenho confiança neles e nos outros também. É verdade que hoje em dia o mundo é particularmente duro (…) e que eles abandonaram de certa forma o combate político. Este agora passa por questões como o clima, por exemplo. E uma geração diferente. Combatem muitas vezes de forma ingénua, mas sem sombra de dúvida sobre temas muito importantes. (…) Tento mostrar muito no meu filme como os adultos não ouvem como deviam os jovens.
Tem um novo projeto?
Sim, estou a trabalhar na minha terceira longa metragem, um filme de horror sobre a família. E preparo também uma série de horror.

