Numa sociedade sob vigilância permanente, o Voyeurismo ganhou uma nova dimensão, especialmente quando associado a violência como forma de entretenimento.
Anne Bergeldt e Karin Michelsen em Lisboa | Foto MOTELx
Gladiadores em Roma, lutas de escravos nos Estados Unidos, roleta russa no Vietname. E se existisse uma entidade que nestes tempos de vigilância global filme e transmita ao vivo uma série de espetáculos mórbidos. Não era o velhinho Rollerball um pouco isto? O dinamarquês Soren Jull Peterson – veterano produtor – apresenta isso no seu Finale, filme que marca a sua estreia na realização e que acompanha duas mulheres que trabalham numa bomba de gasolina, numa zona fronteiriça entre a Dinamarca e Alemanha, e que são colocadas no centro de um jogo perverso por uma entidade ligada ao entretenimento macabro.
Logo no início somos avisados pelo nosso anfitrião que a nossa imagem da terra do ‘hygge’, o segredo dinamarquês para a felicidade, vai ser abalroada com consequências nefastas. Não, nem tudo são rosas. Ou como sabiamos desde Hamlet: “há algo de podre no reino da Dinamarca”.
“Há cinco ou seis anos que pensava em realizar, mas estive à espera do projeto certo“, disse Soren Juul ao C7nema na sua passagem pelo MOTELx, acrescentando que a sua primeira opção foi trabalhar numa adaptação, neste caso de uma obra literária de Steen Langstrup. “A coisa boa dos filmes de horror é que não precisas muitos atores ou locações”, descreveu o cineasta, que joga com essa característica dos filmes de horror a seu favor nesta estreia, para o qual Duel (Um Assassino Pelas Costas) de Spielberg o inspirou, até porque acompanha uma luta pela sobrevivência, a relutância inicial em aceitar que se passa algo de errado e a escolha de se enfrentar o ‘monstro’. “Claustrofobia” derivada das limitações do espaço cerrado são a chave, diz Soren Jull, que preferiu – tal como no livro – apresentar a narrativa a dois tempos: “Pensamos fazer uma narrativa sequencial, mas era demasiado linear, demasiado chato. Por isso escolhemos a fragmentação como no livro“.
Para além do trabalho dos atores – em particular de Anne Bergeldt (como Agnes Berger) e Karin Michelsen (como Belinda) – outro dos elementos que se destaca neste Finale é a escolha musical, que ajuda – notavelmente com as imagens e as cores sombrias – a criar o ambiente perfeito para um filme de horror: “A música foi trabalhada por uma compositor em estreia, o Peter K. Nørgaard, e acho que fez um trabalho notável. Ele teve menos de um mês para fazer toda a banda-sonora (…) o que é fascinante num bom compositor é que ele sente numa cena o ambiente, as mudanças de tom e passa isso para a música. (…) e ele veio do mundo do trabalho de som e isso também o ajudou na tarefa“.
Scream Queens em Lisboa
Atrizes de teatro, Anne Bergeldt e Karin Michelsen chegam ao cinema num papel que exige bastante delas fisicamente, mas também “emocionalmente“. No Cinema São Jorge, a dupla explicou-nos que não se inspirou particularmente em nenhuma atriz ou personagem de filme de terror para os seus papéis, mas Anne disse que como filmaram a obra de forma desordenada, houve um filme e especialmente um momento dele que serviu de algum apoio para esse início dos trabalhos: “Começamos por filmar a cena final e para entrar nessa cena, [Soren] propôs-me ver o final do filme Capitão Phillips”. Já Karin responde a influências para o seu papel: “Eu tenho personagens na minha vida real como inspiração“, dispara enquanto solta uma gargalhada. “A Belinda lembra-me uma amiga da cidade onde venho“, acrescenta, ressalvando ainda – tal como Anna – que as personagens e os seus diálogos foram alterados durante as filmagens após conversas com o realizador.
A violência
Bastante gráfico, especialmente na violência utilizada contra estas duas mulheres, Finale é um daqueles projetos que nos EUA poderia originar polémica. O cineasta afirma que tal não aconteceu, quando foi o filme foi exibido num festival nova-iorquino, mas que antes da sessão foi avisado pela própria organização que alguma pessoa do público poderia levantar alguma questão sobre misoginia. “Felizmente ninguém perguntou, muito porque toda a gente viu que a Agnes e a Belinda são personagens fortes e quando trabalham juntas, respondem à violência que as ameaça. Elas são muito fortes (…) Mas sim, existe sempre aquela questão de: isto é exploitation? Eu defendo o filme e digo que elas não são apenas vítimas, são heroínas e respondem às agressões“.
Já sobre uma eventual sequela ou a transformação do filme numa franquia, Soren Jull é cauteloso, mas não afasta essa cenário: “Sim, eu consigo ver isso, até porque o final – sem dizer muitos spoilers – fica aberto a mais filmes. Mas neste momento estou a trabalhar noutros projetos”. Já a dupla de atrizes está a dar os primeiros passos no cinema, por isso dizem entre risos: “se precisarem de alguma atriz dinamarquesa, avisem-nos“.

