Inaugurado na quarta-feira com a projeção do drama italiano Magari, da realizadora Ginevra Elkann, o 72º Festival de Locarno, na Suíça, sob a curadoria da parisiense Lili Hinstin, escalou uma esquadra de caravelas cinematográficas portuguesas para a sua seleção oficial, com dose tripla da terra de Camões na briga pelo Leopardo de Ouro de 2019.
Prazer, Camaradas
Lá estamos representados por Pedro Costa (um popstar autoral, na disputa com Vitalina Varela), Basil da Cunha (em concurso com O Fim do Mundo) e João Nicolau (à cata de prémios com Technoboss). Porém, o primeiro grito de “tela à vista!” a ser berrado de uma boca portuguesa no evento vem da mostra Hors-concours a ser disparado por José Filipe Costa. É ele, o realizador do premiado Linha Vermelha (2012), quem pilota Prazer, Camaradas, misto de .doc, ficção, poesia e lamento pelas feridas que a Revolução dos Cravos nos fez ver, em 1974. O realizador exibe em Locarno neste sábado uma radiografia, em forma de jogral, que do 25 de Abril, dando voz aos estrangeiros que chegaram à Península Ibérica após a agitação revolucionária, a fim de participarem da convulsão política daquela pátria. Mas o machismo, a submissão e múltiplas modalidades de moralismo atrapalharam este grupo de outras terras.
Há uma cena em ‘Prazer, Camaradas’ na qual se declama um poema: um velho português fala dos encantos femininos e transborda lirismo em um exercício de entroncamento de tempos e vivências. De que maneira o presente das suas personagens reflete o passado de “revoluções” da Europa?
José Filipe Costa: As personagens de Prazer, Camaradas dramatizam histórias da Revolução dos Cravos no filme como se ela estivesse a acontecer hoje. E é neste jogo entre o passado e o presente que celebram as conquistas das revoluções, mas também relembram o que ficou por alcançar, na esfera da intimidade, do papel da mulher, etc.
Há uma frase no filme na qual um motorista que fala inglês com acento londrino diz que ‘revoluções não pareciam algo europeu e sim uma condição da América Latina’. De que maneira essa fala contagia o seu olhar sobre o Velho Mundo. Que Europa é esta em cena no teu filme? E que Europa é essa a de Locarno, que o recebe?
JFC: É uma Europa que em 1974 não esperava ver acontecer uma revolução em Portugal. Muitos estrangeiros vieram então ver a revolução acontecer ao vivo e a cores, com a esperança de ver no país uma abertura e a emancipação dos “amanhãs que cantam”. Prazer, Camaradas dramatiza esses encontros e tensões entre os europeus que vinham do norte e os europeus das aldeias, onde se situavam as cooperativas, muitos deles analfabetos, depois de 48 anos de ditadura. As diversas “Europas” encontravam-se em choque e descobriam-se mutuamente.
Prazer, Camaradas
O que essa sua narrativa em forma daquilo que o escritor Julio Cortázar chamava de “Jogo da Amarelinha”… ou seja, um jogo de armar… entre fatos, fabulações e memórias… revela a você sobre o trânsito entre documentário e ficção?
JFC: Prazer, Camaradas! está nas fronteiras entre documentário e ficção, entre passado e presente. Ao pedir a atores não profissionais nos sessenta e setenta anos para fazerem de conta que eram jovens, descobrimos que o passado não está longe, está no presente e que as nossas ficções sobre o passado são muito atuais, são produtivas e efetivas.
Até ao dia 17, Locarno segue com a sua competição oficial, aberta nesta quinta com a projeção de um drama de tintas fantásticas vindo do Brasil: A Febre, de Maya Da-Rin, que incendiou na plateia suíça curiosidades sobre as populações indígenas em tempos de Jair Bolsonaro. A realizadora fez barulho no exterior, em 2010, com Terras. Agora, de volta à direção, ela retrata a realidade de Manaus, ao seguir a rotina de Justino, um indígena viúvo que ganha a vida como vigia de um porto de cargas. No enredo de Maya, Justino entra em um estado febril no momento em que o bairro onde mora é assolado pela presença de um animal selvagem.
A Febre
Concorrem com Maya e com a trinca lusa formada por Basil, Nicolau e Pedro Costa, as longas-metragens: Bergmál, de Rúnar Rúnarsson (Islândia); Cat in the wall, de Mina Mileva e Vesela Kazakova de Joe Talbot (EUA); Douze mille, de Nadège Trebal (França); A voluntary year, de Ulrich Köhler e Henner Winckler (Alemanha); During revolution, de Maya Khoury (Síria); The science of fictions, de Yosep Anggi Noen; Les enfants d’Isadora, de Damien Manivel (França); Longa noite, de Eloy Enciso (Espanha); Maternal, de Maura Delpero (Argentina/ Itália); Height of the weight, de Park Jung-bum (Coreia do Sul); e Terminal Sud, de Rabah Ameur-Zaïmeche (França).
Para julgar estas produções, Locarno montou uma equipa formada pela cineasta alemã Valeska Grisebach, a produtora holandesa Ilse Hughan, o ator argentino Nahuel Pérez Biscayart e o crítico italiano Emiliano Morreale e pela realizadora francesa Catherine Breillat (Romance), que preside essa esquadra de artistas.

