Abordar temas sérios com muito humor negro. Esse é jeito de trabalhar e pensar do realizador Bogdan Muresanu, que há uns anos atrás – através da curta Tuns ras si frezat (2013) – colocava um torturador a visitar um barbeiro que tinha torturado no passado. De lâmina na mão, os papéis de poder invertiam-se, com o torturado agora na posição de eventual torturador.
Seis anos depois, Muresanu volta a pegar num tema delicado, desta vez na forma de uma família em risco na era comunista após uma pequena criança escrever ao pai natal a pedir que o sonho do pai se cumpra: que o ditador Nicolae Ceausescu morra. Mal soube do pedido do filho, registado numa carta depositada num marco do correio, o pai da criança sabe que está em perigo. Basta apenas que alguém ligado ao regime – como era comum naqueles tempos – lê-se o manuscrito. Começa então uma verdadeira jornada de paranóia de uma família às mãos de um gesto inocente de uma criança que não tem qualquer noção do perigo em que colocou todos.

Já com vários prémios na bagagem desde que estreou, Cadoul de Craciun (Presente de Natal) afigura-se como um forte candidato em Vila do Conde, onde está na competição internacional. É o típico filme que principalmente o público adora. “Estou muito grato e feliz. Há muita competição neste mundo de curtas-metragens e festivais. Só o facto de ser selecionado já é bom”, explicou o realizador da curta ao c7nema numa entrevista no festival, acrescentando que “por alguma razão a vida é uma comédia” e que por isso mesmo ela está sempre presente nos seus retratos cinematográfico.
Sobre a génese do projeto, Muresanu explica que este sempre foi um tema que o interessou, a relação do poder com as pessoas, a ditadura, sobre o qual “tem algo a dizer”, especialmente com o rumo atual das coisas que nos está novamente a encaminhar para figuras autocráticas, como as do regime italiano atual. “Eu vivi essas coisas. Era muito jovem mas tenho as memórias. Para mim é absurdo e incompreensível. O medo dos adultos. A Roménia era um país de sussurros e eu na época não percebia o porquê”.
Embora reconheça que este tema não é de todo original, o cineasta vinca que é algo que lhe é muito pessoal. E mesmo sendo uma comédia negra, Muresanu lembra que ela é para nós: “as personagens mostradas no filme não fazem ideia que fazem parte de uma comédia negra (…) É um misto das coisas. Há coisas para chorar mas mostro em forma de comédia. Especialmente nestes regimes absurdos, onde o drama é facilmente absorvido pelas audiências atuais. É mais fácil abordar estes temas com um pequeno toque de humor.”
Mas será que esse tipo de abordagem cómica de um tema sério não aliena, afasta as pessoas do verdadeiro sentido de drama que se vivia na época? Muresanu crê que não e a resposta a isso tem sido a reacção do público nos festivais por onde tem passado, conquistando mesmo prémios oferecidos pela audiência. “A audiência não se sente alienada da questão, pois a abordagem cómica não é óbvia. É uma comédia negra”.
O constante sentimento de paranoia
Um dos grandes triunfos deste “Presente de Natal” é o sentimento generalizado de paranoia que invade a personagem do pai após descobrir que o seu filho escreveu numa carta ao pai natal que ele queria que líder do país morresse. Muresanu foi buscar essa paranoia à sua própria infância, na figura do seu pai: “Sim, o meu pai era paranoico sobre as coisas. Ele via a polícia secreta ou informadores em todo o lado. E para dizer a verdade, neste momento estou no meio de um trabalho de pesquisa e investigação para um documentário e chego à conclusão que estas pessoas tinham razão para serem paranoicas. No final do comunismo existiam 2, 3 milhões de membros do partido, que eram obrigados a informar, de alguma forma. Nem todos eram informadores, claro, mas existem ainda centenas de milhares de polícias secretos. Por isso, podemos dizer que um quarto do país trabalhava diretamente para regime. E isso fez parte do “sucesso” do regime no poder. “
Influências para esta comédia negra
Apesar de reconhecer vários nomes do cinema romeno, antigos e novos, Muresanu diz que “o DNA deste filme está em cineastas escandinavos”, na comédia negra, na dureza e forma das filmagens, citando Thomas Vinterberg (A Festa). Para além dele, o realizador fala também em Pablo Larraín e o seu “Não”. “Pretendiamos de certa maneira quebrar as regras do cinema, usando – por exemplo – muitos “Zooms”. Isso foi aplicado com uma razão: queríamos estabelecer uma gramática televisiva neste filme.”
Trabalhar com o jovem ator (Luca Toma)
“Houve um casting, vi 20 ou 30 miúdos, mas este tinha algo, uma espécie de amargura, pranto, remorso nele, que me fazia lembrar a tristeza e amargura do regime comunista. (…) Ele nunca tinha atuado antes deste filme. Creio que tinha trabalhado apenas num anúncio, mas nem tinha falas, nem nada, por isso foi tudo novo para ele. (…) Tornamo-nos amigos, eu explicava as coisas para ele e ele era muito esperto a aprender. (…) Nas filmagens não sabíamos bem como ele ia reagir, mas correu tudo bem e quando terminou ele não queria sair dos sets das filmagens. Mas ele também se assustou, naquela cena violenta com o pai. Ele ficou com medo do pai, que para dizer a verdade, e em jeito de piada, é interpretado por um ator de comédias (Adrian Vancica) de quem ele era fã antes das filmagens. É curioso, nem nunca falei isso com ele, mas foi estranho ter um jovem que é fã de um ator famoso com quem vai trabalhar, mas que depois enquanto trabalhava parecia ter medo dele.”

