Signo de resistência histórica, na luta contra o avanço do capitalismo num canteiro da Ásia assolado historicamente pelo imperialismo ocidental, Ho Chi Minh (1890-1969) vai ter uma parte da sua biografia – parte essa que pode ou não ser pura fabulação – contada num filme brasileiro que, pautado pela inteligência, mescla factos e fantasia, documentário, mockumentary e ficção.
O projeto chama-se O Rio de Janeiro de Ho Chi Minh. Já está filmado e foi inscrito numa série de festivais do Brasil e do exterior. A realização é da estreante em longas-metragens Cláudia Mattos, cujos predicados como contadora de histórias vão muito além dos ecrãs. Ela é argumentista do delicioso 180 (prémio do júri popular no festival do Gramado em 2010), mas antes de pôr a mão no universo dos guiões, foi uma referência de excelência no seu país no jornalismo, com destaque para a cobertura da indústria cultural da sua pátria. Em 2011, ela comandou o “Caderno B”, a seção de artes do hoje extinto “Jornal do Brasil” e deixou sua marca de refinamento impressa ali. O seu filme é um jogo da amarelinha (jogo da macaca em Portugal) cortazariano entre relato e imersão sensorial. A sua narrativa evoca o legado do líder vietnamita a partir de uma premissa na raia da invenção que o liga ao Rio de Janeiro do início do século XX. Na trama, o neto de um marinheiro sobrevivente da Revolta da Chibata tenta documentar a história que ouviu do avô quando criança: na década de 1910, o velho, chamado Faca Cega, foi amigo de Ho Chi Minh (1890-1969), trouxe o futuro líder vietnamita para o Rio e apresentou o futuro estadista ao socialismo. Esta amizade mudou a Era dos Extremos. Por isso, Cláudia avisa: “tudo neste filme é ficção, menos as verdades“.
“A experiência como jornalista é tão fundamental para criar uma fake news crível, quanto para criar um fake doc. Neles, o formato é essencial. A sociedade está tão idiotizada, que basta dar a forma de realidade a uma mentira para que ela passe tranquilamente por verdade“, diz Cláudia. “É claro que isso não vem de agora. Pirandello provocou alvoroço no teatro com “Seis Personagens à procura de um autor” no início do século 20, Orson Welles causou pânico no rádio com “A Guerra dos Mundos” nos anos 30. Mas chegamos num ponto tragicómico. Neste sentido, O Rio de Janeiro de Ho Chi Minh pode ser visto como ‘um documentário em tempos de fake news ou uma ficção baseada em pós-verdades’. No fundo, a grande ambição do filme é fazer jus a esta frase do Jean Rouch: ‘Se você é um bom contador de histórias, a mentira é mais verdadeira que a realidade; e se não for bom, a verdade não valerá meia mentira‘”.
Um mimo à parte da realizadora: o ator e cineasta Luiz Antônio Pilar, realizador do .doc Candeia (2018), é o protagonista, o neto de Faca Cega, numa ponte entre a afrobrasilidade e a memória vietnamita.
Quais foram as andanças para a realização de “O Rio de Janeiro de Ho Chi Minh”?
Filmamos no Rio, em Friburgo, Niterói, Paquetá (uma pequena ilha no meio da Baía de Guanabara que parece ter parado no tempo, com ares do Rio da década de 1910) e no Vietname. Lá, foram quase três semanas de filmagem entre Ho Chi Minh City (antiga Saigão), Hanói, e a Baía de Ha Long, um lugar paradisíaco com 2 mil ilhas. Só lá, passamos cinco dias dentro de um barco filmando. A viagem ao Vietname foi o grande investimento do filme, que é um B.O. (projeto de baixo orçamento), mas tinha que ser feita para dar vida à longa e até para a gente mesmo entender a relevância histórica do trabalho que estávamos fazendo. Além do gasto com a viagem em si, é preciso autorização governamental para filmar naquele país. Você pode imaginar que aprovar um filme sobre o Ho Chi Minh, uma figura quase sagrada para os vietnamitas, não foi exatamente um passeio no parque. Mas, no fim, os vietnamitas foram de uma gentileza sem limites conosco e ainda nos deram um produtor local maravilhoso, Luong Giap, sem o qual não teríamos conseguido fazer nem metade do que fizemos. No fundo, eles estavam orgulhosos de ter uma equipa brasileira filmando uma parte da vida de seu grande herói nacional que eles mesmos desconheciam.
Você escolheu como seu protagonista um ator que é também cineasta, Luiz Antônio Pilar. O que ele trouxe de mais precioso para esse processo que gravita entre realidade e ficção
Tenho uma imensa dívida de gratidão com o Pilar. Ele deu-me o meu primeiro trabalho remunerado no audiovisual, como argumentista da série “Heróis de Todo Mundo”, do Canal Futura, e sempre me deixou frequentar os sets dele, para aprender a realizar. Somos amigos de longa data. Ele conhecia o projeto desde que tudo era apenas uma ideia para um roteiro. Quando o filme finalmente obteve financiamento, liguei para e disse que tinha pensado num ator perfeito para fazer o neto do Faca Cega. “É um cara que hoje só dirige e produz, mas começou como ator“, disse. “Quem?“, ele perguntou, curioso. “Você, cara!“. Apesar do susto, ele topou na hora. Além de diretor e produtor talentoso, Pilar é ótimo ator. Escolhi não ensaiar para que as cenas de making of não perdessem a espontaneidade. Apenas fizemos um estudo minucioso do guião, cena por cena, e trabalhamos em cima das memórias que o menino Pilar teria das histórias de Faca Cega. E ele é estudioso. Entendeu qual era a brincadeira do filme e me fez incorporar várias memórias dele próprio. Sem contar que o Pilar tinha sempre as falas na ponta da língua e ficava bravo comigo, que nunca sabia o texto (logo a argumentista!) e fazia o improviso rolar solto. Como diretor, Pilar foi um cavalheiro. Apesar de ser muito mais experiente do que eu, ele nunca procurou dirigir as cenas ou questionar as minhas escolhas como realizadora. Já como produtor, igualmente experiente, ele foi um parceiro com o qual troquei muitas ideias sobre como viabilizar o filme – sem contar os equipamentos que ele me emprestou.
O quanto a experiência de “180º”, premiado drama de 2010 que você escreveu, ajudou na execução desse projeto?
Como a minha formação acadêémica não foi no audiovisual, o “180º” foi a minha faculdade de cinema. Foi com ele que aprendi a tirar uma ideia do papel e levar às telas. Além de roteirista, fui uma das produtoras do filme e acompanhei cada passo da produção, até à estreia. Estive no set em quase todos os dias de filmagens e aprendi a realizar com o Duda Vaisman, observando como ele fazia. Não por acaso, refizemos a nossa parceria no Rio de Janeiro de Ho Chi Minh. Desta vez, ele foi o supervisor de direção e, mais uma vez, foi um “parceiraço”, a quem recorria sempre que tinha alguma dúvida ou incerteza. Em termos narrativos, algumas opções estéticas do “180º” estão de volta em “O Rio de Janeiro de Ho Chi Minh”, só que, creio, de modo mais abusado.
Como?
Tanto no “180º” quanto no “HCM”, a forma relaciona-se diretamente com o enredo, com o conteúdo. O “180º”, que discute quem é o autor de uma obra, propõe um quebra-cabeças com algumas peças perdidas, que só pode ser montado com a imaginação do espectador, tornando-se ele coautor da narrativa. Já o “HCM”, que é sobre uma amizade que muda os rumos da História do século 20 e lida com uma importante figura histórica em seus anos de formação, disfarça-se de documentário para criar uma ficção. Tem também a questão da mentira. No “180º”, as personagens mentem uns para os outros sobre uma caderneta, e a narrativa gira o tempo todo em torno das mentiras contadas. No “Rio de Janeiro de HCM”, a dúvida sobre a autenticidade dos factos é o ponto central de uma narrativa em que algumas verdades sustentam a fabricação de uma ficção. A intenção do filme é fundir e confundir as categorias verdades e mentiras, fato e invenção, documentário e ficção a ponto de deixá-las indiferenciáveis.

