‘Deslembro’: Flávia Castro desafia o músculo da imaginação sob resquícios da ditadura

(Fotos: Divulgação)

Iman de elogios na sua passagem pelos Horizontes do Festival de Veneza 2018, distinguido pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) no Festival do Rio, a aula de delicadeza chamada Deslembro, um drama conectado com o processo de abertura política do Brasil nos anos 1980, pós duas décadas de ditadura, estreia esta quinta-feira no seu pais, no meio de uma invejável carreira por mostras europeias e asiáticas.

A direção é da estreante em longas-metragens de ficção Flavia Castro, consagrada mundialmente por documentários como Diário de uma busca, premiado no DocLisboa 2011, com a sua reflexão sobre o destino do pai da realizadora, que se opôs ao regime militar nos anos de chumbo. Na sua passagem para o território ficcional, Flavia põe o real como coadjuvante e revisita memórias dos momentos finais do regime ditatorial brasileiro, numa trama sobre uma família de exilados que volta ao Rio de Janeiro. O regresso é doloroso para a jovem Joana (Jeanne Boudier), adolescente que deixa Paris para recomeçar a sua vida em solo carioca. Sara Antunes, a mãe, tem uma atuação preciosa, assim como Eliane Giardini, que encarna a avó de Joana. O papel deu a Eliane o troféu Redentor de “melhor coadjuvante” no já citado Festival do Rio, onde a cineasta recebeu ainda o prémio de júri popular.

Qual é o Brasil que transborda das suas memórias em Deslembro e qual é o Brasil que recebe esse transbordamento?

Os transbordamentos da minha memória, nesse filme, é tudo o que se refere a sensações da Joana, em relação à natureza do Rio, que, no caso dela a remete à infância, ao passado… algo que aponta para o presente. Essas sensações brotam do som, da relação com a natureza. São sensações em relação a uma cidade para a qual ela é puxada, de volta. No meu caso, eu, Flavia, foi uma ida, porque eu não conhecia o Rio de Janeiro naquela época. Um filme se escreve e se inscreve no presente na sua realização, no momento qual ele se inscreve na História. Sinto que o Brasil de hoje transborda para o filme de maneira perturbadora. Ele vem no momento de uma fissura, de negação da nossa História, dos fatos que ocorreram no país na ditadura militar. Ele vem, sem querer querendo, lembrar a gente do que houve. Estamos em um momento em que é importante lembrar.

De que maneira a palavra saudade se imprime num filme como esse, no ato de deslembrar e de recordar?

É curioso você trazer outra palavra da língua portuguesa para relacionar com o termo “deslembro”, sobretudo porque eu não pensei em saudade. Eu não tenho nenhuma nostalgia.

Como foi a concepção visual do filme no trabalho com a Heloísa Passos?

O trabalho com a Heloísa e com a Ana Paula Cardoso, a diretora de arte, foi de uma colaboração muito rica. Não queria uma reconstrução de época: um Rio de Janeiro não muito marcado, nem no figurino, nem na imagem. O trabalho com a Helô tinha uma coisa que estava no roteiro de um Rio de Janeiro frio e de uma Paris quente. Um Rio invernal e o país de onde ela sai, a França, de cores mais quentes. Toda concepção visual é pensada como reflexo do interior da Joana, da alma, do coração, do pensamento. A palete de cores vai evoluindo à medida que a Joana vai se reencontrando como o Brasil, com a cidade do Rio. Com a Helô, a gente fez tudo em planos-sequência: decisão na qual ela embarcou com muita coragem. Era uma ideia de não querer intervir na atuação das crianças e dos jovens e deixar eles darem um ritmo para o filme. Confiei muito nisso e não me arrependo, mesmo tendo feito cortes drásticos na montagem.

O que a trilha documental do seu Diário de uma busca trouxe para o ritual de exorcismo do tempo que Deslembro é?

Ele nasce do “Diário de uma busca”, querendo ir mais longe, mais livremente, no trabalho de memória, pensando que representações seriam possíveis para questões como as recordações de uma adolescência.

Qual vai ser o seu circuito de lançamento do filme no exterior, em especial, em França e Itália – onde ele fez a sua estreia?

Fora do Brasil, Deslembro está fazendo uma boa carreira de festivais. Desde Veneza, ele não pára de viajar. Logo depois do lançamento brasileiro, viajou para Bruxelas e para Munique. Estivemos em Xangai, estivemos na Índia. É um circuito bem bonito, com reconhecimento do público, com prémio de júri popular. É bom que, neste momento que a gente vive aqui no Brasil, ele possa chegar às pessoas… tocar as pessoas.

Últimas