Depois de passar com grande sucesso no Festival de Berlim e na Festa do Cinema Italiano, o filme Piranhas – Os Meninos da Camorra chega esta quinta-feira aos cinemas portugueses.
De passagem por Portugal, o realizador Claudio Giovannesi explicou ao C7nema o processo de adaptação da obra literária de Roberto Saviano, autor de obras como Gomorra, que fez sucesso no Cinema e na TV. A juventude, o crime, a Máfia e a entrada num mundo onde apenas há três saídas – o sucesso, a prisão ou a morte – foram temas de uma conversa na qual Giovannesi disse que está fora de questão participar numa sequela ou num projeto televisivo a partir desta história.
Nos seus dois filmes, quer o Piranhas, quer o Fiore, a juventude, o realismo e o crime estão sempre presentes. É esse o grande foco da sua carreira?
No futuro não sei, pois ainda só fiz 3 filmes, mas aquilo que sempre me apaixonou é o sentimento de inocência nas ações criminais, de infância e criminalidade, pois na infância o crime é como um jogo muito inocente. Também queria mostrar um período em que o bem e mal ainda não estão definidos, saindo assim daquele tipo de cinema em que as personagens já estão definidas num dos lado.
Para o Fiori estudou o sistema penal para os menores em Itália durante quatro anos. Para este filme também fez algum estudo sobre este tema para além do livro do Saviano no qual o filme se inspira?
Mudei-me de Roma para Nápoles durante ano e meio e instalei-me no bairro onde a acção se desenrola, conhecendo assim a realidade que o filme aborda.
E como foram escolhidos os atores?
Nesse ano e meio vi 4 mil adolescentes do bairros de Nápoles e destes selecionei oito. Era importante que os protagonistas do filme tivessem conhecimento e experiência da realidade que iriam interpretar.

Como foi a colaboração com o Saviano e quais foram as diferenças no seu trabalho com ele em relação a outras colaborações, como na série Gomorra?
A relação com o Saviano foi mais na fase de preparação, antes de mudar-me para Nápoles, mais propriamente em Nova Iorque. Foi ele que convidou-me a realizar o filme, mas quando me mudei para Nápoles colaborei com outro argumentista, o Maurizio Braucci, que é o mesmo guionista do Gomorra, o filme do Matteo Garrone. Neste momento, o Saviano é mais famoso que o Papa em Itália e seria impossível trabalhar com ele ao lado num bairro em Nápoles.
Um dos elementos interessantes no filme é a relação entre o miúdo com a mãe, ou seja, não existe aquela coisa do “olha, cuidado com a tua vida [no crime]”. A mãe tem consciência da vida do seu filho e deixa-o andar. Nunca fala sobre o assunto. Como é que se criou essa relação entre mãe e filho?
Isto é algo que vem diretamente da realidade. O relacionamento com a mãe é comum naquele ambiente. O percurso criminal é quase um percurso de trabalho, uma carreira. As mães sabem disso e sabem que aquela é a única forma dos filhos encontrarem sustentamento. Claro que o elemento que age com mais força é o medo. O medo da mãe em perder o filho. Naquele ambiente, ou se morre, ou se tem sucesso. Todos estão cientes disso.
Isso fica também explícito no sentimento deste mundo que quando se entra nunca mais se sai. Ou se tem sucesso, ou vai-se preso ou morre-se. Como acha que se pode mudar esse pensamento, essa situação?
Penso que não há alternativa, é isto e não existe uma saída. Quem escolhe este percurso – e espero que isso tenha ficado explícito no filme – vive em permanente sofrimento.
E uma das razões porque entram está ligado à cultura da aparência. Isso vê-se na cena em que os miúdos compram os ténis. Crê que o materialismo e o consumismo, neste caso na sociedade italiana, está ligado à entrada nessa vida?
Sim, esse elemento de consumismo e a atração pelo supérfluo é um dos pontos que ligam esta comunidade, as gentes deste bairro. Todos os adolescentes do ocidente são filhos da sociedade de consumo. Eles têm os mesmos desejos, as mesmas vontades, e não tendo a possibilidade de terem alguém – um pai rico – que lhes possam pagar o que desejam encontram nesta via, na criminalidade, a solução.
E o filme também aborda a relação dessa juventude com os mais velhos, como aquela cena em que os jovens levam uma consola a um mafioso em prisão domiciliária. Como trabalhou nesta relação entre diferentes gerações?
Há dois elementos a considerar aqui. Um deles tem a ver com as armas, que acho interessante porque parece-se quase com a cultura norte-americana. O desejo e a sobrevalorização de ter uma arma. Quando os miúdos descobrem aquele cofre cheio de armas, quase parece Natal. Aquilo é espontâneo, fundamentalmente – naquela comunidade – as armas têm o mesmo valor que o ouro. É muito interessante quando as armas misturam-se com brinquedos. Na infância é ainda muito confuso para os miúdos.
Depois, o encontro com o Don Vittório era também uma forma de dar circularidade, de passagem do testemunho, de apresentar um homem no fim da sua vida e outro no início dela. O trabalho também feito no filme tentava desenvolver as personagens de forma emotiva e real, de criar uma relação – entre aspas – entre um avô e um neto.
Também trabalhou em vários documentários na sua carreira. De que maneira o cinema documental ajudou-o a transportar esta obra para o cinema?
Os documentários são um elemento fundamental da minha carreira, no que escrevo para cinema. Nos documentários tu centras a atenção numa personagem, colocas-a no meio do tema do que queres explorar. É exatamente o que faço também nos meus filmes de ficção.
Outro elemento que gostei bastante no filme foi a cinematografia do Daniele Cipri. Como foi essa colaboração?
O Daniele, além de ser um ótimo diretor de fotografia, sempre foi um dos meus realizadores favoritos, especialmente quando fez parte com Franco Maresco. O último filme censurado em Itália é deles, o Totò que Viveu Duas Vezes (1998), que revisitava o Evangelho. Eles lutaram contra a censura e ganharam, e desse combate surgiu o facto de não ser mais possível censurar filmes no país. Por isso, o meu trabalho com o Cipri foi quase como o trabalho com um ídolo de infância. Ele é um grande diretor de fotografia e é muito interessante filmar com ele pois nunca sentes obstáculos pelo posicionamento da luz. Podes filmar num raio de 360º.

Há mais futuro para este Piranhas? Uma continuação, uma passagem para a TV?
Não. Absolutamente não. E se houver eu não trabalharei nela. O produtor é muito inteligente e espero sinceramente que não faça nenhuma continuação. O filme acaba naquele momento, diz uma coisa muito clara: que deste mundo não se sai. Não faz nenhum sentido continuar a contar esta história, como aconteceu no Gomorra com a série.
E como tem sido a receção ao filme, no Festival de Berlim e nos outros sítios onde tem passado?
Foi um grande sucesso em Berlim, especialmente pela presença dos oitos protagonistas do filme, que pela primeira vez viajaram para fora de Nápoles. Emotivamente, foi uma estreia muito empolgante. mas não era tão óbvio que iria ser assim, pois é um trabalho politicamente incorrecto.
E em Itália, como foi?
O filme correu bastante bem. Fez um milhão e 200 mil euros de receitas. Nos outros país contam-se os espectadores, mas em Itália só se conta o dinheiro que se faz. De qualquer maneira, esses números apontam para cerca de 300 mil espectadores.
E tem algum novo projeto?
Não. Acabei o filme em fevereiro e para já não tenho planos. Mas sei que dado o sucesso do filme os produtores vão-me propor adaptar outros romances.
Fazendo um pouco de futurologia, imagino o Piranhas a ser a escolha italiana para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2020. Crê que o filme tem hipóteses de chegar aos cinco nomeados finais?
Não tenho muito ideia, nem quero pensar muito nisso porque tive uma experiência indireta, com um amigo meu, o Gianfranco Rosi com o Fuocoammare, que foi selecionado por Itália e fez parte dos cinco finalistas. O trabalho feito desde a escolha de Itália até chegar aí foi tão longo, complexo e tão político que não quero pensar nisso para já.

