Teatro, Ópera, Cinema e Literatura. O italiano Roberto Andò navega por todas estas artes, construindo uma carreira invejável e multifacetada. “Tenho três mesas. Numa tenho música e ópera, noutra teatro e noutra literatura e cinema. Basta organizar-me“, disse-nos entre risos numa conversa em Lisboa, por ocasião da sua presença na Festa do Cinema Italiano, onde apresentou Una storia senza nome.
No filme seguimos Valeria (Micaela Ramazzotti), a qual é a verdadeira escritora por trás do bem sucedido argumentista Alessandro Pes (Alessandro Gassmann). No seu novo trabalho, esta escritora fantasma é informada de detalhes de um famoso caso de roubo de uma pintura de Caravaggio feita pela Máfia em 1969. À medida que vai escrevendo as linhas do argumento, a Máfia vai percebendo que alguém sabe mais do que devia sobre o caso, partindo no encalço de Pes, o nome escrito na folha de rosto deste guião.

Roberto Andò falou-nos um pouco das razões que o levaram a este projeto, do processo criativo e da ligação do Cinema com a realidade. Pelo caminho, explicou-nos como o Cinema “morreu“, que a Netflix é uma consequência e não a causa dessa morte, e visitou ainda as memórias para nos falar do falecido Bruno Ganz, ator com quem trabalhou na sua primeira longa metragem.
Aqui ficam as suas palavras:
Gosta de falar de escritores que têm de lidar com dilemas inerentes ao processo de escrita?
Bem, fiz alguns filmes em torno disso, este e o meu primeiro filme (para cinema), praticamente todo rodado com os franceses.
E o processo de criação atrai-o?
Este é um filme sobre cinema e a sua relação com a realidade. Diz-se que o cinema hoje está em crise e já não tem mais força para investir na realidade. Este filme mostra, de maneira paradoxal, como o cinema pode ser um instrumento ativo, como uma investigação policial. Nos meus outros filmes, a escrita surgia mais ligada à vida das personagens e o escritor era como alguém que vive e se mostra a viver.
O meu primeiro filme foi sobre o Tomasi di Lampedusa, um grande escritor, responsável pelo Leopardo, e escrevia sobre a minha cidade, Palermo (…) Tinha a forma de um thriller (…) Este aqui parte de um roubo que aconteceu em Palermo a mando da Máfia, mas de certa maneira é uma forma de contar sobre uma dimensão do cinema onde existiam autores que escreviam um filme mas não eram pagos nem reconhecidos. Hoje em dia, isto ainda acontece, mas de outra forma…
Sim, temos os escritores fantasmas…
Sim, é verdade, mas naquele tempo era diferente e comum encontrarmos um grande argumentista que tinha sempre três ou quatro jovens a escreverem para ele. Hoje já é diferente. Diverti-me a contar a história de uma argumentista cujo o que escreve provoca problemas no mundo real e na realidade dos nossos tempos. Costuma-se dizer que o cinema não modifica a realidade, modifica-nos a nós. Neste caso, o cinema cria qualquer coisa que provoca efeitos na realidade

E a escolha de uma mulher para esse papel? No filme, temos uma mulher que escreve, mas é um homem que fica com os louros. Essa opção não tem a ver com os tempos correntes?
Sim, também, mas primeiramente penso que ela é prisioneira de si própria. Não é tanto uma mensagem política ou sobre relações de poder, mas sobre as pessoas e as máscaras na sociedade italiana.
Ainda hoje acho que há poucas realizadoras em Itália, é indubitável, mas acima de tudo acompanhamos uma mulher prisioneira da sua situação psicológica, do seu estado de preferir ser um homem [na escrita] (…) de estar no anonimato através de um homem. Até a mãe dela (Laura Morante) está na sombra, mas a diferença é que é uma mulher muito forte. Na verdade é um pouco: “os Homens têm o poder mas não são capazes. Já as mulheres não se mostram, mas são capazes de contar uma história“.
A escolha do caso do Caravaggio para o enredo de onde veio?
Este quadro, quando eu era criança, foi roubado quando Palermo estava completamente nas mãos da Máfia. Ao longo dos tempos, foram surgindo muitos arrependidos, pessoas detidas que se tornaram informadoras das autoridades e que contaram as suas versões deste furto.
Como faz um argumentista? Um argumentista quase sempre escreve a partir de factos reais e transforma o texto com fantasia. Esses informadores revelaram a verdade, mas cobriram as suas histórias com mentiras. Foram mais de quinze informadores em vários períodos que foram contando esta história.
A mim também me pareceu interessante contar no Cinema o processo de transformação de uma história. E este conto mostra também a forma como a sociedade italiana é. Nós, de certa maneira, sempre vimos a máfia como uma ideia da sociedade italiana. Viamos sempre a Máfia nas noticias sobre mortos, os julgamentos e ações policiais. Coisas sobre o [Giovanni] Falcone, o [Paolo] Borsellino, etc.
Mas há outro aspecto interessante. Naqueles anos, a Máfia roubou a beleza. A história do roubo do quadro do Caravaggio é a maior e mais famosa neste “roubo da beleza”. É um quadro que nunca mais vamos reaver. Em certo sentido é uma ferida aberta. A Máfia sempre contou e recontou esta história numa versão sempre falsa. O Cinema é a única maneira de imaginarmos uma verdade [sobre isto], a qual nunca teremos. Assim nasceu o filme.
Pegando nessa frase do Cinema ser a melhor maneira de imaginar a verdade, o Roberto escreve livros, óperas, e guiões. Como é passar por todas essas artes e que o extrai delas para o Cinema?
Preciso ser esquizofrénico nisso. Tenho três mesas. Numa tenho música e ópera, noutra teatro e noutra literatura e cinema. Basta organizar-me (risos).
Eu sempre digo que a vida de alguém que cria, a certo ponto ganha um foco. Un torna-se artista, outro cineasta e outro escritor. Às vezes, uma personalidade consegue abranger tudo isto. Em Itália isso acabou. O Luchino Visconti não era só uma coisa, também escrevia ópera e teatro. O [Pier Paolo] Pasolini, igualmente. Hoje, isso é muito raro. Só eu e o Mario Martone somos cineastas e escrevemos teatro e óperas. Antigamente, isso era uma tradição em Itália. (…) Por exemplo, neste momento estou a trabalhar num filme novo, numa ópera para o La Scala em Milão, e uma outra ópera com um grande pianista chamado Ludovico Einaudi sobre os migrantes.
O seu primeiro filme, executado em Palermo, tinha no protagonismo o falecido Bruno Ganz. Que memórias tem do Bruno e dos tempos dessas filmagens?
Encontrei-o há uns anos em Paris. Estava lá para ver um espetáculo que ele fazia no Odeon em Paris. Estava com o Toni Servillo e fomos ao camarim ter com ele. Foi um encontro muito belo. Comove-me muito falar disso agora, pois na altura falamos em fazer novamente um filme juntos. Não houve tempo…
Era um ator muito incomum. Um ator enorme. Havia um grande escritor, de quem fiz uma peça de teatro, que se chamava Thomas Bernhard. O Thomas escreveu um romance que a certo ponto diz que na Áustria e na Suiça só havia um grande ator, Bruno Ganz, de quem todos os outros tinham inveja. Eu li o livro, que se chamava O Sobrinho de Wittgenstein, e disse ao Bruno: ‘tens noção que é uma homenagem incrível?‘ Ele respondeu-me que não sabia disso, ou então fingiu não saber [que estava no livro]. (risos)
Era uma pessoa muito curiosa, muito apaixonada por literatura, grandíssimo ator de teatro. Uma vez pedi-lhe para gravar uma voz off para um espetáculo. Eu mandei-lhe os textos, pensamentos de Kafka, e estávamos prontos a gravar num estúdio. E eu meti-lhe as folhas com o texto que devia gravar. Ele disse-me que os tinha memorizado, porque era impossível ler e gravar a voz simultaneamente. Decorou tudo. Isto serve para mostrar o tipo de homem que era.
E depois era também uma pessoa muito profunda, muito especial. Um daqueles atores que nasce uma vez por século.
Já que disse que está a fazer um novo filme, pode falar um pouco mais sobre ele?
É um romance que será transformado em filme, todo ambientado em Nápoles. O protagonista é uma criança.
Há pouco referiu que só você e o Martonne trabalham em várias áreas. Como vê o cinema italiano atualmente? Acha que a ausência dessa multidisciplinaridade é responsável pelo estado do cinema em Itália?
Não acho. Tudo somado, o cinema italiano está de boa saúde. A indústria não está bem, mas temos uma série de realizadores interessantes, capazes de trabalhar para além de Itália. Por exemplo, neste festival, está o Piranhas – Os Meninos da Camorra, o qual é um filme muito bom, que até esteve em Berlim.
Aquilo que não funciona bem, na minha opinião, nos últimos 20, 25 anos, desde o Berlusconi, é que apesar da grande herança do cinema italiano o público virou-se para a televisão. Deixou de existir a história de amor entre o público e os filmes.
Quando o Bernardo Bertolucci fazia um filme, existia o seu público. Quando Fellini fazia, havia o seu público. Hoje o público é um tesouro, não se sabe onde encontrar.
É um estado de transição. Por um lado, é algo em geral. Há menos gente a ir ao cinema. Em Itália isso aconteceu porque o público ficou agarrado à televisão. E agora é muito difícil recuperar esse público. Muito difícil.
E tendo em conta isso, como vê a chegada de plataformas como a Netflix e outras? É a morte do cinema?
O Cinema morreu. O cinema está morto. Está morto na forma que o conheci, em que via três sessões diariamente. Ou viajava para ver filmes em Paris. Está morto porque o público hoje vê os filmes de outra forma. Os jovens assistem nas plataformas. Houve uma mudança completa da sua natureza. Mas
Eu era muito amigo do Bernardo Bertolucci. O último filme que ele fez chamava-se Eu e Tu (2012). É um filme que esteve bem, mas não muito bem. E a certo momento ele disse-me que os filmes deviam ser um evento. A Netflix faz isso agora. O filme do Cuáron, o Roma, foi um evento. Foi construído como um evento. E é um grande filme.
Há muitos autores que atravessam por caminhos complicados. O Cuáron, se não fosse a Netflix, provavelmente nunca teria feito o filme. Na indústria norte-americana era muito difícil fazer aquele filme. Eles criaram um evento mundial. E gastaram 50 milhões de dólares só para a sua divulgação. Ele custou 15 milhões a fazer e gastaram 50 a promovê-lo. Em qualquer situação, foi uma data histórica. E claro que houve a guerra do filme ter conquistado Veneza e dos filmes não terem estado em Cannes, mas é uma guerra que a Netflix já ganhou. O cinema já mudou de forma.
Em Itália estamos a começar a falar disso. Também houve problemas com o Sulla Mia Pelle, que também está aqui neste festival. Mas também foi um evento. É um filme sobre um caso que se falou muito em Itália de um rapaz detido que acabou por morrer à guarda da polícia.
Voltando ao Bertolucci, ele dizia que o cinema vivia em torno de ser um evento. É preciso novamente isso.
E planeia trabalhar para essas plataformas de streaming?
Estou a trabalhar numa série que quero filmar. Os cineastas hoje em dia têm essa realidade. Antigamente, o grande mercado era 70% filmes, 30% séries. Agora é 80% séries, 20% filmes. É um facto.
Não quer dizer que goste disso, mas é o que temos. Eu nasci com o cinema em sala e existe realmente uma perda. Dei aulas de cinema em Roma e perguntava aos alunos que queriam ser realizadores: ‘Quais são os filmes que te levaram a pensar em ser realizador?‘ Nenhum deles vê os filmes até ao fim. Veem partes. Não existe a experiência completa que nós passamos de ver um filme inteiro do Di Sica, Antonioni, Bergman. Não, agora só veem partes.


