Deus está no vento, nas árvores, em toda em natureza. Para falar com ele, não precisamos de ir à Igreja, bastando falar com esses elementos. Estas ideias que marcam o pensamento Protestante, estavam muito assentes em Domenico Scandella, também conhecido por Menocchio, um moleiro analfabeto que em Itália foi perseguido e julgado pela Santa Inquisição da Igreja Católica.
Após uma série de documentários, entre eles TIR, premiado no Festival de Roma, o cineasta italiano Alberto Fasulo levou ao cinema a história de Menocchio, num drama passado no século XVI que questiona o papel da religião, a moral e a forma como esta afeta o pensamento e a liberdade dos indivíduos.
De passagem pela Festa do Cinema Italiano, Fasulo falou com o c7nema, explicando-nos alguns detalhes sobre o seu filme que levou quatro anos a conseguir executar.
Levou quatro anos para conseguir fazer este filme. Porque demorou tanto tempo?
Hoje em dia, o mercado é muito claro nestas coisas. Se tens um assunto que é moda, será mais fácil iniciar um projeto. Se fazes um filme sobre uma pequena localidade, no século XVI, com atores não profissionais, não despertas muito o interesse do mercado. A minha sorte foi que a certo momento, a televisão italiana, a Rai 1, decidiu entrar.
E o que o levou a contar esta história?
Sinto uma urgência nos tempos atuais em falar da sinceridade. Hoje em dia, vendemos-nos facilmente para conseguir um consenso, para conseguir uma proteção. Pegue-se nos nacionalismos, existe um grande medo disso. As ideologias caducaram, a religião mostra limitações e há muito medo. Há também pouca vontade em resistir e esse medo faz-nos perceber a necessidade de estar com outros.
Em Itália também saiu recentemente na TV uma nova versão de o Nome da Rosa, que igualmente aborda o papel da Inquisição. O Rupert Everett chegou a dizer que a Igreja Católica nesses tempos era muito pior que a ISIS (Daesh) hoje. Concorda com isso?
Sim, concordo, mas eram tempos diferentes e as nações também. Certamente, a ISIS, em termos de número, é muito inferior ao poder da Igreja Católica nesse tempo. E vivendo-se noutros tempos, existiam outras regras, leis. Era o período medieval e eram eles que faziam essas regras.
E tem medo destes novos fascismos, autoritários, inquisidores dos dias de hoje?
Não tenho medo dos novos fascismos. Tenho medo das novas gentes que não têm a força de lutar por aquilo que sentem, por aquilo que pensam. Não têm confiança que a luta valha a pena. Acreditamos que tudo vai correr bem. (…) A ISIS é uma pequeníssima forma de poder, embora tenham tido grande impacto e tenham conseguido mudar as nossas vidas. As fontes de poder têm mudado a nossa relação com tudo. Até naquilo que comemos, a forma de comunicarmos e nos relacionarmos. E nós não fazemos nada. Aceitamos tudo passivamente.
Começou no cinema documental. O que o fez transitar para a ficção, ou foi sempre o seu plano?
Quando faço um documentário sobre um tema abordo-o através de uma pessoa, da história dela que tu vês, o que é uma forma de juízo que a pessoa avaliada não concebe. De certa maneira, é um forma de poder, de fascismo. De controlo.
A ficção, assim chamada, para mim não é ficção, mas um acordo claro com uma pessoa. E quando se diz: quero contar isto, porque penso nisto (…) há um acordo claro.
Quanto a opções técnicas, porquê a escolha da luz natural e de muitos close-ups?
A opção da luz natural vem de uma cultura visual do século XVI. Também podíamos fazer com luz artificial, mas usando atores não profissionais, quis colocá-los numa atmosfera específica.
O uso do primeiro plano é uma escolha para estarmos próximos ao Menocchio, um homem perante a Inquisição que de um dia para o outro percebe que tudo o que diz e tudo o que pensa é um delito. Tudo isso coloca-te numa grande inquietude, pressão. Os únicos planos gerais são os dele no interior da prisão, ou então no palácio quando é interrogado.
Eu queria que o espectador sentisse a pressão, essa claustrofobia que o Menocchio vive. Uma claustrofobia física, psicológica, intelectual. O primeiro plano, como linguagem, permitiu-me destituir-lhe [essa liberdade].
E agora? Vamos esperar mais quatro anos pelo seu próximo filme? Como correu o Festival de Locarno?
O festival correu muito bem, fiquei bastante contente. Tive uma grande resposta do público e até da crítica. Mas o que me agradou mais, além dessa presença no festival, é todo este percurso que estou a fazer. Em França, por exemplo, sempre que apresento o filme existe um debate sobre o tema de uma hora ou mais. Em Itália, também tem sido bom, pois abordamos uma questão importante: a religião e o nosso relacionamento com ela. Apesar do Papa ter mudado a imagem da igreja, em Itália existe uma cisão na visão do que é a Igreja.
Não sei quando vou fazer um novo filme. Mas a coisa boa é que quero fazer outro filme.
E já tem uma ideia para um novo projeto?
Vou fazer um filme de ficção científica.


