O medo é uma arma em “Tito e os Pássaros”

(Fotos: Divulgação)

Presente na Monstra, Gabriel Bitar é um dos três nomes (juntamente com Gustavo Steinberg e André Catoto) por trás de Tito e os Pássaros, filme de animação que conquistou o Prémio do Público em Lisboa e que na próxima quinta-feira estreia nos cinemas em Portugal.

Aproveitando a sua estadia na capital, o C7nema teve o privilégio de falar com o jovem realizador, o qual nos falou um pouco da construção do seu filme, o qual acompanha um Mundo que tem de lidar com uma epidemia de medo. A situação da cultura no Brasil e o futuro deste “artista tímido” foram também temas de conversa.

Bem-Vindo a Portugal, é a primeira vez que veio cá?

Obrigado. Não. No ano passado nós fomos para Messina com o filme e, mal terminou o Festival, fiquei uns 10 dias por aqui, passeando.

A ideia de uma epidemia do medo… Este filme é para crianças mas também para adultos. E é explicitamente contra a cultura do medo. Nos últimos anos, o Brasil tem estado no centro desta questão. O filme foi feito a pensar nisso?

Não, porque nós começamos a fazer o filme há quase dez anos. O embrião nasceu faz quase 10 anos, quando surgiu a ideia e o argumento. Demoramos uns cinco anos para escrever o roteiro e começar a levantar os recursos para fazer o filme. Nós até nos inspiramos para o vilão no Donald Trump, mas na época ele não era nem candidato a presidente dos EUA. Foi um azar para o mundo e uma sorte para nós os temas convergirem.

Mas aplica-se completamente à situação brasileira agora. Como tem sido a receção ao filme no Brasil?

O brasileiro não vai muito no cinema. É um fenómeno que também deve acontecer por aqui

Sim, temos o problema dos filmes portugueses, que muito pouca gente vai ver.

Justamente, as pessoas querem é ver a Marvel e parecido.

Mas os filmes de animação, quando são falados em português, levam muita gente às salas. Isso não funciona no Brasil?

Não. Até O Menino e o Mundo, que ganhou prémios e teve enorme repercussão, teve pouquíssima audiência no cinema. Vamos ver como corre nas outras plataformas. As pessoas estão a gostar, a maioria dos prémios que ganhamos são exatamente do júri infantil e prémios do público. As crianças gostam. É aquela coisa de sentirem o medo.

Como é que faz um filme a seis mãos, neste caso? Como é a coordenação de ideias e de trabalho entre três pessoas?

O Gustavo Steinberg, que idealizou o projeto, trabalhava no Festival do Minuto, na época. É um festival em que o limite dos trabalhos é um minuto. Então, eu e o meu amigo André Catoto ganhamos nesse festival uns 4 ou 5 prémios. Isso chamou a atenção do Gustavo, que tinha a ideia de fazer um filme sobre o medo. Ele pensou: “bem, esses moleques conseguem fazer assim estas animações esquisitas, nesse estilo estranho. Isso pode funcionar“.

Começamos naquela época, há 10 anos atrás, a discutir o assunto e a levantar o projeto. Mas só quando tivemos o dinheiro para montar o filme é que as coisas realmente avançaram.

Foi difícil arranjar financiamento?

Muito. Demorou cinco anos. Cinco anos para juntar 50% do dinheiro, que é o que precisas para ter a liberação de mais dinheiro para começar. E quando recebemos o dinheiro, temos de o usar. E estávamos com essa duvida. Se a gente pegar agora esse dinheiro, ainda não temos para o resto do filme, por isso a produção poderia parar. Ou então podíamos esperar e juntar mais dinheiro e fazer mais no futuro. Só que aconteceu o “Golpe da Dilma[Roussef]” e nós ficamos com medo do novo governo confiscar o dinheiro atribuído. Na verdade, foi até antes do golpe da Dilma. [Pensamos], vamos pegar no dinheiro, mesmo que o roteiro não esteja pronto – ele tinha 120 páginas e um roteiro é mais ou menos um minuto por página.

Nunca pensaram em fazer uma curta ou uma média metragem em vez de uma longa?

Não. Nós tínhamos o problema oposto. Tínhamos um filme de duas horas e o nosso alvo era os 70 minutos. As crianças não ficam tanto tempo a ver um filme.

E a coordenação de trabalho, como foi?

Eu e o André, que é o outro realizador, trabalhamos com animação. O Gustavo não, ele é mais de live action (imagem real) e só tinha trabalhado nesse género. Ele chamou-nos porque tínhamos mais experiência.

O Gustavo ficou com a produção e também é o coargumentista. Tratou da história. O André Catoto fez as personagens e eu fiquei mais ligado à direção de arte e também ao departamento de composição. Todo o filme saía das minhas máquinas, da minha equipa. Eu já sabia, na altura dos storyboards, o que teria de ser feito mais à frente.

E este trabalho todo envolveu mais de 120 pessoas, certo?

É, mas esse número… Veja, temos os músicos e aí o número cresce muito. Nem sei ao certo se são 120 ou 160. Sei que o Michel Ocelot viu o filme em Marrocos e disse-me: “não sei como conseguiram fazer esse filme com tão pouco dinheiro“.

Vocês fizeram o filme com pouco dinheiro. A escolha de misturar o trabalho 2D com a pintura realista foi uma opção imediata?

Isso veio na fase de pré-produção. Quando levantamos o edital (concurso) isso ainda não estava definido, a estética. Depende sempre do dinheiro que temos.

Fizemos uma pesquisa na história da arte para ver quem já tinha trabalhado no tema do medo. E foi aí que chegamos aos expressionistas, principalmente o grupo na Europa que começou a trabalhar nisso num período social conturbado, de guerras. Vários faleceram durante o nazismo, nos campos de concentração. Os nazis foram muito agressivos contra essa estética. Tem até pintores, que usei como referência, como o Emil Nolde, que eram nazis. Mas como ele era expressionista, foi igualmente perseguido, pois era uma perseguição à estética.

Aí chegamos ao medo e aos expressionistas. A tinta a óleo era muito usada e tem também a vantagem de ser rápida. O Van Gogh, por exemplo, pintava dois quadros por dia em determinada fase da sua vida. A pintura, os gestos, trazem muita informação, muita vida e isso para a animação é muito bom, porque com pouco esforço conseguimos fazer alguma coisa plasticamente agradável.

E para além da pintura, existiram outras influências? Da literatura, do cinema?

Influência, sim. Tudo o que vi na vida até esse momento (risos).

Mas existe algum autor ou animador, por exemplo, que vos influenciou?

Não. Nós não procuramos influência na animação. Nós encontramos muitas influências nos pintores. Houve dois por quem fomos muito influenciados: o George Grosz e o Chaïm Soutine, que são dois pintores do primeiro grupo do expressionismo. E se você for ver o trabalho deles, vai perceber a sua influência no filme…

Sim, e uma coisa que ia também falar são as cores usadas. Muitas vezes sombrias. Tudo isso é trabalhado ao mais ínfimo detalhe, ao pormenor…?

Sim, o Chaim Soutine tem uma série de pinturas em torno de uma escadaria numa vila em que ele morava. Então, ele pintou a escadaria em vários momentos da sua vida. E vemos a evolução disso. Ele quase chega ao abstracionismo. Existe uma evolução dessa narrativa distorcida e nós usamos isso como modelo para a equipa de desenho: ‘Esse momento do filme é mais flat, mais quadrado. Aqui já é mais uma cena de ação, com loucura e correrias. Podem ir mais para outra coisa mais abstrata, com garranchos de tinta.’

Mas as pinturas, na verdade, foram feitas no Photoshop e as personagens no Toon Boom, que é um programa digital vectorial. E em cima disso colocamos vários efeitos de tinta a óleo, captada mesmo com tinta no vidro.

Uma pergunta agora para alguém que trabalha especialmente com o cinema de animação. Pondera um dia trabalhar em imagem real?

Já fiz isso na faculdade e acho legal. Gosto bastante de fotografia. Aquilo que mais gosto é até a técnica mista. Por isso é possível juntar fotografia e animação.

E como vê neste instante o cinema no Brasil?

Estamos a passar por uma crise institucional. Tem esse governo golpista que entrou agora e que está a acabar com todas as formas de financiamento público de cinema. Até parece uma atitude meio pessoal. A primeira coisa que fizeram foi mexer com o Ministério da Cultura. Querem acabar com a ANCINE. Eles estão a tentar minar a gente.

Existe sempre a hipótese de fazerem coproduções…

É o que estavamos a falar. E agora, o que vai ser do cinema de animação brasileiro? Vamos ter de fazer fora do Brasil?

Com o Tito e os Pássaros, vocês tiveram um relativo sucesso. Ganharam prémios no Anima Mundi, foram pré-selecionados ao Oscar. Agora podem ser chamados para fazer algum projeto fora do Brasil…

Tomara (risos).

Imagina por exemplo trabalhar para uma Pixar ou Disney?

Não sei. Nós até levámos o filme para os EUA e até o mostrámos lá recentemente. E esses grandes estúdios perguntaram-nos como nós tínhamos feito o filme. Acho que é um outro jeito de trabalhar. Isto é uma coisa mais de atelier, lá é uma grande indústria.

Sim, mas por exemplo, a Netflix agora também está a apostar na animação. Acha que há mercado para vocês?

A Netflix é uma ótima solução, pois eles chegam com o dinheiro e se você tiver a ideia, você consegue o apoio financeiro para realizar a produção. Mas o que tínhamos antes eram os editais da Petrobras, que era um dos principais patrocinadores do cinema. E agora acabou. O Anima Mundi, que era favorecido com isso, que era o grande festival de animação do Brasil, não sabe se vai conseguir continuar. Um dos principais cinemas da cidade, que é o Belas Artes, está em perigo de fechar, por falta de patrocínios.

Vai agora haver um período conturbado em que ninguém vai produzir nada?

Na verdade, não sei dizer. São tudo expetativas, mas acho que vai ser difícil. Nós já não tínhamos muitos recursos e agora eles não crescem, mas diminuem.

O factor de ter sido pré-selecionado aos Oscars ajudou na vossa visibilidade lá fora?

Sim. Para entrar nos EUA, eu e o André, que temos esta cara de “terroristas” (referência à barba), embora ele seja judeu, fomos parados no aeroporto e levados para a salinha da emigração. Quando falamos que quase conseguimos ser nomeados ao Oscar, o cara falou: “Oscar??”, e deixou a gente entrar. (risos)

E já têm um agente nos EUA?

O Gustavo faz mais esse jogo, eu sou mais o artista tímido. (risos)

E têm um novo projeto, os três?

Não sabemos ainda, mas tomara. Foi um grupinho legal que se juntou. Muita briga, muita discussão, mas é bom. Se você vai fazer uma coisa com alguém que pensa como você, na verdade não precisas dessa pessoa. É sempre bom ter um embate de ideias para colocar a dúvida. A dúvida é muito útil.

 

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