Niki trabalha em dois empregos, mas o pouco dinheiro que ganha mal chega para se sustentar a si própria e aos dois filhos pequenos. Um dia, deixadas sem supervisão, as crianças provocam acidentalmente um incêndio na cozinha. As autoridades suíças intervêm, retiram-nas de casa e colocam-nas numa família de acolhimento, do outro lado do país. Proibida de as contactar, Niki decide procurá-las.
No ano em que Fjord — sobre duas crianças retiradas aos pais e colocadas numa família de acolhimento — conquistou o Festival de Cannes, eis que da Suíça chega uma nova obra a tocar no mesmo tema, ainda que de forma diferenciado.
Realizado por Jan-Eric Mack, e protagonizado e escrito por Anna Schinz, A Happy Family é o primeiro filme suíço a ser selecionado para a competição pelo Globo de Cristal em Karlovy Vary.
Em Karlovy Vary, Jan-Eric Mack e Anna Schinz falam-nos da questão suíça de não querer falar dos seus problemas, da investigação que fizeram junto dos serviços sociais e da dificuldade de filmar uma mãe em queda sem a julgar de antemão.
Estive na estreia e disseram que demoraram seis anos a concretizar este projeto. Quão difícil foi fazer o filme?
Jan-Eric Mack: Sim, é sempre assim. Fazer um filme é uma loucura. É preciso gostarmos mesmo uns dos outros. Mas é isso que fazemos: somos muito apaixonados por isto.
Qual foi o ponto de partida?
Jan-Eric Mack: Tudo começou com a pandemia de Covid, quando vimos pessoas em filas para receber comida, algo muito invulgar na Suíça. Sabíamos que existia pobreza, mas não era visível, porque está escondida. Queríamos perceber quem eram essas pessoas, por que razão estavam naquela situação, e percebemos que era um número bastante grande.
A questão dos filhos retirados aos pais é um tema tabu na Suíça, também pelo peso do passado. Durante décadas, crianças de famílias pobres ou consideradas incapazes foram afastadas de casa e enviadas para famílias de acolhimento, muitas vezes para trabalhar nos campos, uma prática que ainda atravessou os anos 1960. Há também histórias de crianças retiradas de certas comunidades para uma assimilação melhor noutras comunidades. Hoje fala-se ainda desta questão da retirada dos filhos aos pais biológicos?
Jan-Eric Mack: A Suíça não fala muito sobre problemas, nem sobre dinheiro. Salários e coisas desse género são muito privados. E existe uma história de pobreza. Durante muito tempo, era um país sobretudo de agricultores, de pessoas a viver nas montanhas, sem grandes oportunidades. Depois, a história mudou muito e a Suíça tornou-se um país incrivelmente rico, também com o apoio dos imigrantes que ajudaram a fazer dela aquilo que é hoje.
Provavelmente, as pessoas começaram a esquecer o lado mais sombrio, que continua a existir. E é um número bastante grande: 1,4 milhões em 9 milhões de habitantes. Pensámos que era preciso falar sobre isso.

Como construíram a personagem de Niki e a relação com os filhos? Ela trabalha à noite, vive sozinha… Como chegaram a essa personagem?
Anna Schinz: Durante a investigação, descobrimos que há um número elevado de mães solteiras afetadas por esta situação. Na Suíça, ter filhos é quase tratado como um assunto privado, ou seja, espera-se que cada pessoa trate de si.
Desenvolvemos esta personagem com várias motivações. Ela tenta manter a sua autonomia. Poderia pedir ajuda aos serviços sociais, mais dinheiro, alguma coisa, mas tenta recuperar a vida sozinha. Trabalha e faz tudo sozinha. Na minha opinião, ter filhos é algo em que precisamos de ajuda. Como podemos esperar que uma mãe solteira faça tudo sozinha?
Mas Niki tenta e quer fazê-lo. É uma personagem muito complexa, muito ambivalente. Nada é preto ou branco. Acho que, com ela, estamos sempre perto de cair na armadilha de a julgar depressa.
Contactaram os serviços sociais? Ouviram histórias semelhantes? Como foi a investigação?
Anna Schinz: Fizemos muita investigação também do lado das autoridades e com a Caritas. Encontrámos pessoas que trabalhavam com estes casos e pessoas afetadas por eles. A história é ficcional, claro, mas conhecemos muitas pessoas e ouvimos muitas histórias.
Fizemos uma grande investigação dos dois lados, porque era importante termos uma visão completa: compreender o lado das pessoas afetadas, mas também o lado das autoridades, que têm de tomar decisões muito difíceis. Percebemos que também são seres humanos e que, muitas vezes, tentam fazer o seu melhor. Mas têm de cumprir o que o trabalho exige, mesmo quando isso vai contra aquilo que sentem interiormente.
Queríamos ser precisos, mesmo tratando-se de uma situação extrema, de uma história extrema, que não acontece todos os dias. Queríamos que fosse real do ponto de vista legal e prático. Queríamos saber o que um polícia teria de dizer legalmente numa situação daquelas, como teria de reagir e como as autoridades teriam de agir segundo a lei. Isso exigiu muita investigação.
Uma coisa que achei impressionante foi a música, porque por vezes vai muito contra o filme.
Jan-Eric Mack: A música era muito importante para encontrar uma linguagem própria, capaz de criar outra camada, e não apenas apoiar o drama ou os sentimentos.
Começámos logo na rodagem. O compositor, Thomas Kuratli, esteve connosco no plateau e gravou sons, por exemplo, de um órgão numa igreja antiga lindíssima, dos sinos, das máquinas. Usou esses sons dos lugares para criar a música.
Para mim, era muito importante que ele trouxesse a sua própria voz para o filme, que permanecesse ali e construísse essa camada extra.
Foi um desafio escrever e depois representar? Houve uma luta entre a argumentista e a atriz?
Anna Schinz: Houve uma situação engraçada. Acho que estava com o Matthias e estávamos a filmar na igreja. Eu estava a preparar-me para a cena, e surgiu qualquer coisa por causa de uma fala. Então alguém disse: “Tens de perguntar à argumentista.” Ele veio ter comigo por causa da fala e eu disse: “Não, agora estou a representar. Não sei. Sim, eu escrevi isto, mas agora falamos.” E pensei: “Quem raio escreveu isto?”
Claro que passei muito tempo num pensamento analítico durante a escrita do argumento, mas depois tive de largar tudo isso e voltar às emoções, à interpretação intuitiva. Foi uma experiência muito especial.
Como foi trabalhar com as crianças?
Jan-Eric Mack: Foi muito bonito, na verdade. No início, tinha medo, claro, porque se costuma dizer que o mais difícil é trabalhar com crianças, animais e água, provavelmente. Já tinha alguma experiência a trabalhar com crianças, mas não durante tanto tempo e em cenas tão emocionalmente difíceis.
Uma grande parte do meu trabalho é fazer o casting certo, dedicar tempo a encontrar os atores certos. Por isso, passámos muito tempo e gastámos muita energia à procura deles. Demorou vários meses, candidataram-se cerca de 500 crianças e, felizmente, encontrámo-los. Tentámos criar um espaço seguro para eles e avançar passo a passo.

O tema do filme é sensível. Elas são crianças e compreendem que os pais têm de se portar bem com elas porque algo mau pode acontecer. Houve discussões sobre estas questões, sobre a psicologia das personagens?
Jan-Eric Mack: Sim, tivemos conversas abertas sobre tudo. O rapaz tinha seis anos e a rapariga fez dez, por isso há uma diferença enorme, em termos cognitivos, na forma como compreendem e veem o mundo, e naquilo sobre que conseguem refletir.
Os dois são muito inteligentes, tenho de dizer. Mas o rapaz ainda estava numa idade em que compreendia a situação e sabia o que estava a acontecer e porquê, mas depois esquecia-se. Para mim, isso é mágico, porque ele regressava imediatamente à situação e ao momento. Isso é interpretação. Com crianças, vê-se facilmente se funciona.
Com a rapariga foi diferente. Eu tentava traduzir tudo para uma linguagem de direção para crianças, encontrar palavras simples ou explicar-lhe a situação de forma simplificada. E ela compreendia imediatamente o que eu queria dizer. Corrigia-me e dizia: “Não precisas de me explicar, eu percebo que queres dizer isto e isto, e vou fazer aquilo.” Portanto, foi ótimo. Com ela, trabalhei como trabalho habitualmente com atores profissionais.
O filme estreou aqui em Karlovy Vary. Alguém poderia esperar que estreasse em Locarno ou Zurique. Karlovy Vary era a primeira escolha que tinham em mente?
Anna Schinz: Estamos muito felizes por estar aqui. Estivemos em Les Arcs, numa sessão de work in progress em França, e aí fomos apresentados a Karel Och. Depois pudemos enviar o filme à sua equipa de programação e recebemos a resposta de que gostariam de o ter no festival. Ficámos absolutamente entusiasmados.
Acho que este é um lugar especial para o filme, com um público muito especial e também com este tema. É maravilhoso e interessante ver como esta é uma história suíça, mas vê-la no estrangeiro é muito especial.
Mas é universal ao mesmo tempo. Por exemplo, o filme que venceu em Cannes fala também de crianças retiradas aos pais. Há um novo interesse por estas histórias, não apenas na Suíça, mas em todo o mundo. Acha que estamos hoje a enfrentar mais problemas deste género?
Jan-Eric Mack: Sim, sem dúvida. Está a mudar em todo o lado. E não se trata apenas da divisão entre classes, entre pobres e ricos. O mundo está também a dividir-se numa perspetiva muito conservadora, mas sobretudo egoísta: cuidar apenas dos nossos, como nos Estados Unidos e em muitos outros lugares, e deixar de assumir a nossa responsabilidade enquanto sociedade.
É a lei do mais forte. O poder pertence aos mais fortes, e isso começa a ser cada vez mais aceite. Como se não tivéssemos de cuidar dos mais fracos, dos pobres, das pessoas que precisam de ajuda. Tenho medo de que isto esteja a acontecer outra vez.
Disseram que a Suíça não gosta de falar destes problemas. Quais são os planos para estrear o filme na Suíça? Já há distribuição?
Sim, temos um distribuidor e vamos estrear nos cinemas no início do próximo ano. Claro que esperamos conseguir iniciar discussões sobre este tema, que as pessoas queiram ver o filme e sejam tocadas por ele.
É uma esperança bastante idealista pensar que o cinema ainda pode mudar alguma coisa, mas, para nós, esta é a nossa forma de tentar falar sobre estas questões. O cinema continua a ser um lugar onde nos podemos encontrar e conversar. Esperemos que isso aconteça.
Vão continuar a trabalhar juntos? Já têm um novo projeto?
Jan-Eric Mack: Sim, temos. Foi uma colaboração fantástica, tenho de dizer. Espero que não seja o último filme.
E que não demore mais seis anos.
Jan-Eric Mack: Não sei. Demora o tempo que tiver de demorar.
É este o cinema que querem fazer, ligado a questões sociais e políticas?
Jan-Eric Mack: O próximo projeto em que estamos a trabalhar é uma série. Mas, entretanto, também temos projetos separados. Vamos ver o que acontece. Também temos família, temos outros projetos de que precisamos cuidar, os nossos dois filhos, e por aí fora.

