Facilmente um dos objetos cinematográficos mais estranhos e coloridos do Festival de Cinema de Karlovy Vary, My Friend the Porn Star invadiu a secção Próxima com estrondo, com a cineasta Rosa Friedrich a transformar uma recusa numa oportunidade.
O filme nasceu quando a realizadora decidiu ajudar Timo, um amigo que queria concretizar o sonho de protagonizar um filme erótico com ambições artísticas. Porém, à medida que o projeto se torna cada vez mais íntimo e intenso, maior é a hesitação de Timo, que acaba por se retirar. Em vez de abandonar o filme, Friedrich transforma a crise numa experiência coletiva e híbrida, recorrendo à inteligência artificial generativa para anonimizar o rosto do amigo. Por entre mulheres trans, dominadoras, criadores de food porn, ativistas e sex coaches, nasce um mosaico sobre a diversidade sexual, o consentimento, e a fragilidade e vontade de ser observado.
Ao C7nema, Friedrich falou-nos da sua experiência, da IA, da pornografia alternativa e da ética documental.

Houve um momento em que pensou que talvez já não tivesse filme, quando o Timo decidiu sair do projeto. Como lidou com isso?
Esse é o momento mais assustador para um cineasta: quando o filme talvez deixe de existir. Pensámos nisso, claro, mas não durante muito tempo, porque tínhamos de continuar. Havia uma grande pressão financeira, mas também toda a energia colocada no projeto e aquilo que queríamos contar. Eu sabia que tínhamos material e queria que ele existisse num filme.
Foi um momento muito emocional, mas fico feliz por termos encontrado esta nova ideia. No início, tive de me habituar a ela, mas depois comecei a gostar cada vez mais. Também gostei muito dos protagonistas com quem continuámos. Muitos já os conhecia dos castings com o Timo, mas depois conhecemo-los melhor quando recomeçámos a filmar. Ainda penso muitas vezes neles e em frases que disseram. Acho que são pessoas muito corajosas e interessantes.
Falando do uso da inteligência artificial no filme, como é que ela entrou no filme?
Isso surgiu depois do Timo deixar o projeto. A pergunta era: o que fazemos agora com este material? Primeiro pareceu uma solução de compromisso, mas depois foi fazendo cada vez mais sentido. Agora já me parece algo de que o filme precisava.
Encaixa muito bem, porque coloca o próprio tema dentro do enquadramento: querer ser visto, mas ter medo do julgamento. Temos uma pessoa completamente nua, mas que não podemos reconhecer; ao mesmo tempo, podemos vê-la, podemos ver-lhe o rosto de certa forma. Acho isso muito interessante. E não esperava que a IA fosse tão boa. Talvez tenha sido bom o filme ter demorado mais tempo a fazer.
Por que tornou a presença da IA tão visível?
Adoro o quadrado onde se enquadra o rosto. Acho-o bonito e interessante. Mas, acima de tudo, queríamos tornar a anonimização evidente em todos os planos. Há muitas histórias com deepfakes, pornografia, fotografia e pessoas a lutarem pelos direitos sobre o próprio rosto. Queríamos que se percebesse a alteração.
Não queríamos entrar na lógica do deepfake. Acho importante sermos honestos. Também somos honestos ao dizer que este é um filme híbrido. Acho que a maioria dos documentários é híbrida; simplesmente não o dizem.

Como foi a sua aproximação à pornografia? Li que não era consumidora de pornografia, mas teve de investigar esse universo. Como pensou mostrar os corpos e o sexo no filme?
Foi um mundo bastante novo para mim. No início, até queria preservar esse olhar de alguém que não tem nada a ver com aquele universo e entra nele pela primeira vez, mas isso acabou por não funcionar tão bem. Entretanto, tive de investigar.
A grande pergunta era: quanta nudez, quanto material explícito iria mostrar? Como é um filme sobre pornografia e sexo, parecia claro que, se possível, não iríamos censurar. Mas talvez se espere ver mais material pornográfico quando se lê o título. O foco acabou por ficar mais nas histórias pessoais, talvez porque o meu interesse estava na psicologia das pessoas.
Também não é necessariamente confortável, numa sala de cinema normal, ver muito material explícito. Num festival de cinema pornográfico espera-se isso, claro, mas continua a ser uma experiência estranha. Acho que encontrámos uma boa medida. Não julgo a pornografia e não queria censurá-la, mas também não era essencial mostrar tudo.
Também se coloca no filme. Foi fácil realizar e estar diante da câmara?
Foi até mais fácil realizar estando diante da câmara, porque podia usar a minha personagem como queria. Podia fazer perguntas de outra forma, repetir perguntas, e também filmar o contracampo. Acho que as pessoas se sentiram mais confortáveis, porque não eram só elas a mostrar-se; eu também estava envolvida. Isso cria uma sensação de solidariedade, algo mais coletivo.
Claro que não mostro assim tanto da minha vida pessoal. Vejo-me mais como moderadora. Podemos pensar que conhecemos aquela pessoa, mas não a conhecemos realmente. Sempre me considerei uma personagem: a pessoa diante da câmara e a realizadora eram duas dimensões em que tinha de pensar ao mesmo tempo. Deu mais trabalho, mas gostei.
A sua visão sobre a pornografia mudou durante a investigação e as filmagens?
Sim. Não sabia que era tão fácil contratar uma atriz pornográfica. (risos) Pensei que seria muito difícil, mas um produtor podia simplesmente fazê-lo através de um site. Se os desejos de Timo para o filme não fossem tão complexos, e se não tivéssemos feito este documentário, poderíamos ter filmado a cena pornográfica muito facilmente.
Também me surpreendeu conhecer tantas pessoas que queriam participar num filme pornográfico. Podia ter acontecido não encontrarmos ninguém, mas encontrámos pessoas muito interessantes. Algumas têm mesmo uma filosofia ligada a mostrar-se ao mundo, ou gostam realmente disso.
Não sou especialista em pornografia e entrámos mais numa bolha de pornografia alternativa, onde há pessoas com outros trabalhos e que veem isto quase como um projeto artístico. É muito diferente da grande indústria, onde também há coerção. A amplitude é enorme, e nós só vimos uma parte.

No início do filme, diz que todas as pessoas deram o consentimento. E se, depois de verem a montagem, não autorizassem o uso das imagens? Teve medo pelo projeto inteiro?
Sim, podia ter acontecido. Mas a sessão com os protagonistas foi muito bonita e um grande alívio. Com o Timo, não vimos o filme juntos, mas também foi um alívio perceber que ele pediu apenas pequenas alterações. Os outros protagonistas gostaram.
Acho que isso aconteceu porque, sobretudo no caso de Timo, o tivemos sempre em mente durante a montagem. Pensávamos: “Não podemos mostrar isto, ele não iria gostar”; ou: “Ele não usaria esta palavra.” Tentámos imaginar como ele pensaria, mesmo sabendo que isso nunca é totalmente possível.
Enquanto cineasta, não sente que isso pode funcionar como uma espécie de censura à sua visão artística?
Sim. Muitas vezes pensei: porque não fazemos simplesmente ficção? Na ficção há contratos, as pessoas interpretam personagens, existe um acordo e tudo é mais simples.
Mas, no fim, o que importa é a sensação com que vamos para a cama. Estou feliz com o filme? Sim. Do ponto de vista ético e moral, sinto-me bem. Cada pessoa tem as suas linhas, e, segundo as minhas, está tudo bem.
A anonimização pareceu-me uma boa solução. Poderíamos ter entrado numa luta com Timo, dizendo que ele tinha aceitado estar no filme e conhecia o conceito, mas isso não me interessava. A anonimização foi uma forma ética de atravessar o problema sem causar demasiado dano.
Tem um novo projeto. É ficção?
Sim, claro que agora é ficção (risos). Chama-se Who’s Afraid of God. É um filme juvenil, com adolescentes, para adolescentes e jovens adultos. É uma tragicomédia sobre amizade, uma amizade não aceite, redes sociais e religião.
A história acompanha uma outsider que acorda depois de uma festa com feridas estranhas nas mãos. Não se lembra de onde vieram. A anfitriã da festa, que é influenciadora, diz nas redes sociais que aconteceu um milagre, que aquilo são estigmas e que ela é santa. Tornam-se virais, ela começa a curar pessoas pela internet e, a certa altura, começa a acreditar nisso. Então torna-se perigoso.
Em que fase está o projeto?
Vamos filmar em setembro.
Tem uma ideia clara do cinema que quer fazer?
Tenho um plano. Quero fazer filmes grandes, coloridos, usar todo o meio. Um dia gostava de fazer um grande musical, ou um grande conto de fadas para crianças e adultos.
Em geral, gosto de tragicomédias. Para mim, é a melhor abordagem: humor e leveza, mas próximos da realidade. Gosto quando a mise-en-scène é um pouco maior do que a vida, mas as emoções e a interpretação continuam realistas. Acho que isso vai atravessar o meu trabalho.
Tem influências?
Diria John Cassavetes, pelas emoções e pelas personagens muito emocionais. Talvez Federico Fellini, pelo lado mais excessivo, organizado e próximo do conto de fadas. Também gosto de Lars von Trier, pela forma como liga o mainstream ao cinema de autor. Quero tentar encontrar essa ponte em Who’s Afraid of God.

