Vencedores do Globo de Cristal de Karlovy Vary em 2019 com The Father, os realizadores búlgaros Kristina Grozeva e Petar Valchanov regressaram agora ao festival com Black Money for White Nights, uma nova incursão pela ética, a pequena corrupção e os compromissos quotidianos, que ajudam a criar uma tragicomédia memorável.
Realizadores de filmes como The Lesson, a dupla volta a olhar para a Bulgária contemporânea através de um casal que, ao longo dos anos, juntou dinheiro proveniente de pequenos subornos para concretizar o sonho de viajar até São Petersburgo e ver as noites brancas. Porém,a invasão russa da Ucrânia e o desaparecimento das pessoas ligadas à agência de viagens obrigam-nos a confrontar a própria relação, a nostalgia pró-russa e uma forma de autoengano em que ambos vivem.
À conversa com o C7nema, Grozeva e Valchanov falaram-nos do regresso a Karlovy Vary, da corrupção que entra nos sonhos e do modo como a guerra na Ucrânia tornou o filme mais sério e urgente.

Como é regressar a Karlovy Vary depois de o terem vencido?
É como regressar a casa, de certa forma. Estamos muito felizes por estar aqui. Tudo é tão livre, tão vivo, e o festival é ótimo.
Tenho de confessar que não consigo imaginar melhor início para um filme, porque o público é muito generoso e caloroso. Há tantas reações fortes.
Sim, e as salas estão cheias, o que é ótimo, porque, sem público, o que é o cinema? Apenas luz numa parede. Por isso, é ótimo estar aqui.
Começava pelo título, porque há nele um contraste: dinheiro negro, noites brancas. Como chegaram a essa escolha?
É engraçado, porque parte de um verdadeiro ditado búlgaro, que literalmente significa “guardar dinheiro para dias difíceis”, mas que soa como “guardar dinheiro branco para os dias negros”.
A certa altura, virámo-lo do avesso, e daí veio o título do nosso novo filme. Gostamos muito dele precisamente por causa dessa contradição que contém, entre o preto e o branco. Isso era muito interessante para nós.
Então, desta vez, começaram o argumento pelo título?
Sim, tudo começou pelo título. Podemos dizer isso. De alguma forma, aquele título ficou-nos na cabeça. Claro que, como a Kristina disse, já tínhamos algumas ideias para a trama e ideias muito básicas para as personagens. Mas, quando surgiu o título, tudo se tornou mais rápido.
Alguns dos vossos filmes nasceram depois de lerem notícias nos jornais. Este também se baseou em alguma história desse género, ou em alguém que conhecessem?
Não. Desta vez, tudo veio do título. Depois tentámos preenchê-lo com significado. Fomos encontrando muitos protótipos, mas não uma única história ou uma única pessoa. Foram muitas.
Mais uma vez, a inspiração veio da realidade, mas não de um único acontecimento. Foram vários.
A escolha de um casal idoso para protagonista está ligada à ideia de um sonho soviético por concretizar?
Sim, porque esta geração, a da Marina e do Georgi, viveu metade da vida no passado, no período comunista, e a outra metade no período de transição, na democracia. Por isso, escolhemos naturalmente esta idade.
E há outra coisa: quando se chega à idade deles, torna-se de alguma forma mais difícil e mais desafiante olhar para trás e perceber que talvez a vida que se teve até aí não tenha sido realmente a nossa vida. Essa foi também uma razão para termos decidido que as personagens teriam esta idade.

Vocês gostam de abordar questões de ética e de pequena corrupção. É algo que vos incomoda enquanto cineastas?
Sim. Na maior parte das vezes, tentamos explicar as coisas a nós próprios, e fazemos isso através do processo criativo. É algo que nos interessa muito, e queremos mergulhar nesse tema para perceber o que encontramos ali.
A corrupção é também uma grande parte da nossa sociedade. Posso falar da Bulgária, porque vivemos lá e partimos desse ponto de vista. Especialmente agora. Por exemplo, houve vários acidentes de carro muito trágicos e a sociedade descobriu que talvez a segurança de certas estradas e desvios não fosse boa por causa da corrupção. É um tema muito doloroso na nossa sociedade.
Com este filme, tentámos falar deste processo nas pessoas pequenas, no sentido do que acontece quando a corrupção entra dentro delas.
Quando a corrupção entra nos sonhos, no casamento, na vida privada…
Sim. O que acontece às pessoas, como reagem e como lidam com isso. Porque, para elas, é normal. Para ela, é normal fazer aquilo no lar; para ele, é normal aceitar dinheiro. Mas, ao mesmo tempo, o filme sugere que, por vezes, para concretizar os sonhos, é preciso fazer algo errado.
Hoje, sobretudo no mundo neoliberal, fala-se muito dos nossos sonhos e da ideia de que podemos concretizá-los. Acham que é possível ter um sonho e não ser, em algum ponto, mesmo ligeiramente, corrupto para chegar até lá?
Não sei. Talvez ninguém seja perfeito. Ninguém é perfeito. Todas as pessoas têm alguns pequenos pecados, digamos assim.
Mas a questão aqui, acho eu, é o autoengano. A forma como tentamos fingir que está tudo bem, que isto é normal, que não há problema. Quando fazemos isso com muitas pequenas coisas, acaba por se tornar um grande problema.
Talvez seja sobre os pequenos compromissos que fazemos todos os dias, a todas as horas, talvez até a cada minuto, muitas vezes sem pensar. No fim, eles caem sobre nós e esmagam os nossos sonhos. Corrompem o nosso mundo.
Como introduziram no argumento o segredo que a protagonista guarda durante tantos anos e depois uma certa sensação de “karma”, de que tudo começa a correr mal porque o dinheiro que usaram para a viagem era dinheiro negro?
Para nós, era muito importante, sobretudo na personagem da Marina, que ela fosse uma grande mentirosa, digamos assim. Ela mente com muita facilidade. Mente ao marido, à irmã e a si própria também.
Mas, a certa altura, ela também permite que lhe mintam. Acho que isso acontece muitas vezes com este tipo de pessoas. Mentem, mentem, mas, em determinado momento, ficam presas nesse tipo de comunicação. E, no fim, também lhes mentem, e elas permitem que lhes mintam.
Há um momento em que ela vê uma manifestação na rua, observa e até faz alguns movimentos ligados à religião. Como foi criada essa cena, que parece bastante espontânea?
É muito interessante, porque isso aconteceu na Bulgária nos últimos anos. Existe uma marcha do orgulho, a Pride, e aquela manifestação é o oposto. São pessoas que não gostam da existência da Pride e organizam uma espécie de contra-marcha. O título oficial é “marcha anti-Pride”, mas o nome que usam é “marcha da família cristã”. Organizam esse evento todos os anos durante a Pride. Esperam que seja anunciada a data da Pride e marcam a sua marcha para o mesmo dia.
A nossa personagem passa por esses dois eventos, que acontecem em zonas muito próximas.

A cena é incrível.
Isto entrou no filme uma semana antes da rodagem. Planeávamos começar a filmar a 15 de junho, ou 14, não tenho a certeza, e o nosso responsável pelas localizações disse-nos que, nessa data, iam existir dois eventos e que a autarquia de Sófia tinha proibido todas as outras filmagens e atividades por razões de segurança.
Disseram-nos que teríamos de começar um dia mais tarde. E nós dissemos: não, vamos começar nesse dia. Oficialmente, fomos para lá com a câmara e os atores e colocámo-los na multidão.
Achámos que seria interessante imaginar as nossas personagens, naquela situação dramática em que perdem o voo para o seu sonho, a atravessarem a rua e a passarem por dois acontecimentos totalmente opostos. Foi muito difícil para os atores, porque já não têm 20 anos e caminharam muito sozinhos, com aquelas malas.
A guerra na Ucrânia é a razão pela mudança dos planos de voo do casal. Era importante colocar a Ucrânia nesta discussão, até porque isso entra um pouco em confronto com a nostalgia dos tempos soviéticos?
Na verdade, escrevemos a história antes da guerra na Ucrânia. Claro que a guerra não estava lá. Mas, depois de a guerra começar e de a Rússia invadir a Ucrânia, começámos a pensar no que fazer exatamente, porque era uma situação muito delicada.
Não podíamos fingir que estava tudo bem e filmar a história tal como estava escrita, sem relação com a situação contemporânea. Pensámos em várias possibilidades. Por exemplo, mudar o destino das personagens: em vez de irem para a Rússia, poderiam ir para a Finlândia. Mas decidimos que isso não seria justo.
De alguma forma, não seria justo, porque as personagens eram as mesmas pessoas. Eram pessoas que admiravam a Rússia e tudo o que vinha de lá, que romantizam a imagem que tinham da Rússia. Quando introduzimos a realidade da guerra no argumento, fizemos apenas um pequeno ajuste. Não foi uma grande mudança.
E percebemos que as personagens se tornaram mais fortes, mais nítidas, mais afiadas. Talvez antes da guerra tudo fosse mais cómico, e depois se tenha tornado mais sério. As personagens são as mesmas, mas a guerra despiu-as e expô-las mais, tornou os seus erros mais visíveis, mais cruciais.
Antes, podia parecer: tudo bem, são pessoas estranhas, mas o que podemos dizer? Agora não é igual. Agora é mais sério. Quando colocámos estas personagens nessa situação dramática e vimos a sua reação, percebemos que isso refletia algo que aconteceu a todos nós. Para nós, enquanto autores, era justo acrescentar isso à história.
Vocês têm uma forma muito distinta de trabalhar esteticamente os vossos filmes. Houve algo específico que quiseram manter ou algo novo que quisessem experimentar? Como associaram a estética do filme à ideia das noites brancas?
Talvez essa ideia das noites brancas, da luz, tenha sido algo que nos guiou quando falámos da iluminação, do ambiente e das imagens do filme.
De alguma forma, foi um desafio para nós e para o diretor de fotografia, Alexander Stanishev, perceber como trazer esse ambiente, essa luz que não é dia nem noite, como que enevoada. Esse ambiente estava também ligado ao tema, à dramaturgia, às personagens e à história. Foi um grande desafio.

E a direção artística também tem um papel muito importante.
Sim, a Ivelina Mineva é ótima. Trabalhámos com ela no nosso filme anterior e agora novamente. Tem uma sensibilidade muito boa para criar lugares naturais, mas com pequenos elementos bonitos que os tornam especiais, sem serem demasiado artificiais. Ela é excelente.
Quando escreveram o argumento, já tinham os atores em mente, ou houve casting depois?
Quando escrevemos a versão final do argumento, sim, já tínhamos decidido trabalhar com a Tanya Shahova e o Ivan Savov. Isso facilitou-nos muito.
Além disso, os dois estudaram na mesma turma de atores. Conhecem-se desde o passado e, de certa forma, são como família. Até interpretaram Romeu e Julieta juntos. E este filme é uma espécie de Romeu e Julieta contemporâneo.

