Facilmente uma das cineastas mais consequentes e singulares da atualidade, não apenas pela urgência política e humana dos seus filmes, mas pela forma como se posiciona na fronteira entre o documentário e a ficção, a tunisina Kaouther Ben Hania tem construído uma filmografia que circunscreve as relações de poder, a violência e os mecanismos de representação, sempre a partir de histórias concretas e pouco convencionais.
Depois de O Homem que Vendeu a Sua Pele (2020), onde aborda a lógica de dominadores e dominados, e de Quatro Filhas (2023), centrado na história de uma mãe cujas duas filhas se juntaram às fileiras do Daesh, Ben Hania regressa às salas com A Voz de Hind Rajab, nomeado ao Óscar de Melhor Filme Internacional e vencedor do Leão de Prata no Festival de Veneza.
Partindo de uma gravação real — a chamada desesperada de uma criança presa sob fogo em Gaza — a realizadora recusa o espetáculo da violência e opta por um registo de testemunho, centrado numa voz, num tempo suspenso e na responsabilidade de quem a escuta.
Na entrevista abaixo, concedida ao C7nema em Paris, Ben Hania explica como este filme se impôs no seu percurso, as dificuldades de o levar ao grande ecrã e a forma como se posiciona, hoje, na 7ª arte.

Kaouther Ben Hania (Créditos Aleksander Kalka La Biennale di Venezia – Foto ASAC
Tendo em conta a história dolorosa com que trabalhou neste filme, como conseguiu manter-se profissional durante todo esse tempo?
Obrigada por o mencionar, porque foi muito duro e preparei-me bastante. Como dizer? No início ouvi a voz da Hind na internet e soube que existia uma gravação do Crescente Vermelho. Contactei o Crescente Vermelho para obter a gravação completa. Eram 70 minutos. Eles tinham publicado apenas um pequeno excerto online e os 70 minutos eram extremamente difíceis de ouvir. Precisei de tempo. Não conseguia ouvi-los assim, de uma só vez.
Depois, para começar a trabalhar, peguei na gravação e transcrevi-a em francês, para trabalhar noutra língua. Em seguida, quando falei com os protagonistas desta história, do Crescente Vermelho, aconteceu o mesmo: falaram-me em árabe e eu escrevi tudo em francês. Portanto, trabalhei noutra língua. Foi algo que fiz sozinha.
Depois, no plateau, é outra história, porque tinha atores e estávamos todos mergulhados numa emoção muito forte. Para os atores, era especialmente intenso, porque estavam a falar com a voz daquela pequena menina. Mas dizíamos muitas vezes a nós próprios que éramos privilegiados. Fazemos arte. Eles são atores, palestinianos, obviamente, e estávamos a fazer algo que tem sentido, algo importante.
O facto de termos esse sentimento de sermos testemunhas, de honrar a voz daquela criança, de contar o que se passa em Gaza através desta história, deu-nos muita força. Sempre que havia crises de choro, fazíamos uma pausa, abraçávamo-nos e dizíamos: estamos a fazer algo muito importante. E isso empurrou-nos até ao fim.
Tinha outro projeto em curso, preparado para filmar: o Mimesis. Porque decidiu colocá-lo de lado e avançar para este filme?
Sim, estava de facto prestes a começar esse projeto, que tinha desenvolvido durante anos e que fala de storytelling. Mas quando ouvi a voz da Hind Rajab, disse a mim própria: este não é o momento. Existe uma urgência. É preciso ser testemunha. Por isso, pus o outro projeto de lado.
Filmei A Voz de Hind Rajab, fui a Veneza e, depois, filmei outro projeto recentemente. Mas foi muito duro fazer A Voz de Hind Rajab. Muito duro. Mas não o fazer não era opção.
O filme — como outros na sua carreira — tem uma dimensão documental muito forte. Qual é a importância de documentar e, ao mesmo tempo, ficcionar? Como faz essa união?
São escolhas que se impuseram durante a realização. No início, tínhamos o som. Eu sabia que o som seria a coluna vertebral do filme. Seria o centro. Aliás, o filme chama-se A Voz de Hind Rajab.
Quando temos o som, sabemos o que se passa apenas ao ouvi-lo. Existem imagens no som. Sabemos que a menina está num carro, rodeada pelos cadáveres da família. Há tanques à volta a disparar. Nesse som, já percebemos e construímos imagens. Por isso mesmo, decidi que não iria duplicar isso com imagens. Seria, antes de mais, eticamente errado.
Eu queria que a voz dela estivesse viva. No filme, não a vemos morrer. Dizemos que o telefone cai. E mesmo no fim, vemos que ela vive. Decidi contar a história do ponto de vista de quem a ouviu, de quem tentou salvá-la — os funcionários do Crescente Vermelho.
Podia ter feito um documentário com eles, mas nem todos queriam ser filmados. Queriam falar comigo, dar o seu testemunho, mas não aparecer diante da câmara. Num documentário, não se pode filmar quem não quer ser filmado. E, além disso, desde o início, queria fazer um filme no presente. Não um documentário sobre algo que já aconteceu, mas um filme impactante, em que, enquanto ela está viva, ainda é possível salvá-la.

Como fazer isso com as ferramentas do cinema? Pedindo a atores que façam um reencenamento do que aconteceu nos escritórios e na gravação. Foram escolhas de encenação arriscadas, admito, mas penso que muito eficazes em termos de impacto e de respeito pela memória daquela criança e da sua voz.
Até que ponto os verdadeiros protagonistas desta tragédia estavam traumatizados por este acontecimento?
Muito. Por exemplo, um deles diz, num momento do filme, que, se surgir mais uma fotografia de um colega morto naquela parede, ele pára. E foi isso que fez. Depois do bombardeamento em que morreram dois colegas — Youssef Zayn e Ahmed Madhoun — que ele tinha enviado após garantir a rota segura, no dia seguinte demitiu-se. Abandonou o trabalho. É um trabalho impossível.
Como foi discutida a questão ética do que mostrar e do que não mostrar?
Antes de tudo, era essencial ter não só o acordo, mas o apoio da família da Hind. Isso era fundamental. Liguei à mãe dela. Foi a primeira coisa que fiz. Disse-lhe: “Vou fazer este filme”. É uma mulher incrível. Disse-me: “Quero justiça para a minha filha. Se o teu filme pode ajudar, faz”. Ela esteve sempre por trás do filme. Vemo-la no final.
Depois, havia a questão do que mostrar e do que não mostrar. Muitas pessoas sugeriam que era preciso mostrar a Hind no carro, os tanques, os disparos, porque seria um filme de guerra. Para mim, isso estava fora de questão. A questão ética era não filmar a morte daquela criança, mas filmar o seu apelo à vida.
Não mostrar uma gota de sangue, mas ainda assim fazer um filme impactante. Porque é contado do ponto de vista de quem tenta salvar vidas. Queria mostrar o sistema da violência — que não é apenas um sistema de tiros, mas um sistema de leis impostas pela ocupação. Em muitos países, uma ambulância chega em oito minutos. Lá, não. Pode demorar uma hora, duas, três horas. E pessoas morrem não por negligência, mas porque a ambulância é impedida de chegar.
Contactou também as famílias dos homens mortos na ambulância?
Sim. É uma história atroz. A mulher de um deles acredita até hoje que ele ainda está vivo, talvez numa prisão israelita. Prefere acreditar nisso. E a filha pequena, sempre que ouve uma ambulância, corre para a rua. É um crime atroz.
A estética do filme foi pensada desde o início?
Sim e não. Tivemos longas conversas com o diretor de fotografia, Juan Sarmiento. Sabíamos que não seria um filme de imagens “bonitas”. É um filme de urgência.
Os atores aprenderam o texto palavra por palavra, fiel ao que foi dito nos testemunhos reais. Mas ouviram a voz da Hind Rajab apenas diante da câmara. As reações são autênticas. A câmara está ao ombro, colada às personagens. Por vezes, retiramos completamente a imagem e ficamos apenas com o som.
Mantém contacto com as pessoas ligadas a esta história?
Sim. A mãe da Hind já não está em Gaza. Encontrámo-nos no Doha Film Festival. Foi a primeira vez que os atores encontraram as pessoas reais que interpretam. A mãe fez um discurso belíssimo. Disse que, depois de tanta solidariedade, sente que precisa de fazer algo pelas crianças vivas de Gaza — há muitos órfãos, muitos amputados.
Decidimos que, se houver lucros, devem ser revertidos para o Crescente Vermelho e para projetos destinados às crianças de Gaza.

O filme estreou, esteve em Veneza, mas o que se passa em Gaza continua. Como vive com isso?
Quando ouvi os detalhes do assassinato da Hind Rajab, pensei que seria um ponto de viragem. Mas não foi. Continua. Não há jornalistas lá. Muitos foram mortos. Vai levar anos para percebermos a dimensão de tudo o que aconteceu.
Neste caso falou de uma urgência que a levou a dar primazia a filmar A Voz de Hind Rajab, mas como escolhe, geralmente, os projetos?
Não escolho por temas. É sempre uma emoção. Um encontro muito forte com uma história, com um som. Algo que me marca profundamente e que quero partilhar com os espectadores.
Já sabemos que tem um novo projeto, o Mimesis. Pode falar um pouco dele?
É um filme sobre a arte de contar histórias. Uma ficção passada na Tunísia, entre os anos 1940 e 1990. Uma lenda num vilarejo que se torna uma verdade absoluta. É uma metáfora da nossa relação com a verdade hoje.
Depois da estreia em Veneza, foi frequentemente atacada online pelo filme que fez. Esses ataques continuam?
São trolls. Não lhes dou importância.
Foi importante o apoio de figuras internacionais ao filme, como Brad Pitt?
Foi importante porque este não é um filme esperado pelo mercado. Mas queríamos que a voz daquela criança ressoasse em todo o lado. Joaquin Phoenix apoiou o filme e, mais recentemente, juntaram-se Michael Moore e Spike Lee como produtores executivos.






