Paula Astorga: “ninguém que vem ao Doclisboa está preocupado com a ideia de vender o seu filme à Netflix”

(Fotos: Divulgação)

Prestes a arrancar com a sua 22ª edição, que acontece esta quinta-feira, 17 de outubro, o Doclisboa apresenta-se mais uma vez com um forte sentido de “comunidade”, “como um espaço seguro para o espectador/criador” e “com uma ideia de equilíbrio”, tendo na mente que o “espectador é uma pessoa sensível e inteligente que procura num festival uma experiência social e emocional, mas também fazer parte de um sucesso cultural”.

Estas são as ideias-chave que saíram de uma longa entrevista com Paula Astorga, que assumiu a direção do festival no final de 2023, sucedendo no cargo a Miguel Ribeiro. Assumindo que as escolhas da equipa de programação têm sempre em conta “a relevância artística, cinematográfica, social, política e filosófica, num processo em que se atravessa o campo das emoções”, Paula confessa que realizar um festival num idioma que não é o seu tem o seu quê de desafio, mas que o mais importante era “compreender a tradição” e “conectar-se intimamente” com a identidade do festival”. “É tanto um desafio como uma descoberta”, diz-nos, sublinhando que mais do que pensar na ideia central de um autor, a sua equipa foca-se em “diferentes olhares”, os quais trazem consigo uma maior “pluralidade”.

Augusto M. Seabra

A coluna vertebral do Doclisboa é o seu posicionamento e compromisso”, acrescenta Luca D’Introno, programador do festival há vários anos: “Embora tenham mudado várias direções nos últimos anos, a partir de 2012 o festival estruturou-se de forma mais coesa e compacta. Não que antes não fosse assim, mas houve uma forma diferente de pensar como programar”

E nesse novo “pensar o festival”, Luca chama à equação um nome a quem esta edição do Doclisboa é dedicada: “Augusto M. Seabra foi um pensador, programador e codiretor que ajudou o evento a mudar o pensamento quanto à forma de se programarem os filmes e o diálogo dos programadores entre si. Isto para dizer que, apesar das coisas terem mudado depois da pandemia, o legado do Doclisboa foi-se mantendo. As coisas mudaram há muitos anos e o Doclisboa já não é um festival ortodoxo em relação ao documentário. Abraçamos vários formatos, como o híbrido, embora não gostemos de encarar o cinema com etiquetas”“É mais fácil identificar o que o festival não é”, adiciona Paula. “O Doclisboa não é um festival temático nem de género. O que se cria aqui é uma tridimensionalidade de possibilidades, das preocupações do presente, do contexto da memória, da ambição por um pensamento crítico, e uma relação do cinema com a arte”.

Curadoria, formação e validação

O cinema de Pierre Creton é um dos pontos altos deste Doclisboa

Confirmando o seu estatuto de “formador” de públicos, mas sem querer o epíteto de estar aqui para “dar lições”, quando falamos da escolha de filmes por parte dos programadores do festival, quer Luca, quer Paula, confirmam (entre risos) que existem “conversas com muita paixão”, mas que o “gosto” pessoal é colocado de lado. “O fundamental numa seleção é a relevância de um filme”, explica a dupla, acrescentando que esta relevância pode ser “artística, cinematográfica, social, política e filosófica”, mas que atravessa sempre o campo das emoções. “O que um programador faz é partilhar emoções, sejam elas o rir ou um mero sorriso que se agarra, mas também a dor, a angústia e solidão”, explica Astorga, não esquecendo o lugar do cinema como um “espaço hipnótico que, além da proposta plástica, inspira” quem o vê. 

Em colaboração com a Cinemateca Portuguesa, o Doclisboa apresenta a primeira retrospetiva europeia do cineasta mexicano Paul Leduc (1942-2020)

Por isso mesmo, ambos olham para o festival como um lugar de “emoção cultural, de  criação e intercâmbio de diálogos reais, e não apenas como um mero intermediário para a indústria”. Segundo Paula: “os festivais têm a função de manter viva a criação fílmica, defendendo os olhares diversos e plurais, e as possibilidades de experimentação a partir dos próprios criadores. Falamos de espaços de formação, profissionalização e de uma indústria. Mas de uma indústria, que tem dois caminhos: o do entretenimento e negócio; e o do espaço pessoal. É preciso assim um espaço de mediação, um ecossistema para o cinema se alimentar a si mesmo. Creio que os festivais de cinema têm uma função muito importante de inspirar e manter um espectador que também tem a possibilidade de ser um criador. E um criador que também é espectador”.

Reconhecendo que os festivais servem igualmente como espaço para o reconhecimento, Paula acredita que a identidade do Doclisboa dá a possibilidade a um produtor ou realizador de entender onde se encaixa “com filmes da mesma espécie”, tudo num registo de partilha “do mesmo idioma (cinematográfico)”. Por isso mesmo, a mexicana diz que “ninguém que vem ao Doclisboa está preocupado com a ideia de vender o seu filme à Netflix. Nem a Netflix vem ao Doclisboa para adquirir filmes”, algo que para si não é bom nem mau, pois no “universo gigantesco da criação audiovisual existem nichos, espaços e mecanismos” muito próprios.

Tribeca ali ao lado…

Já com as suas datas marcadas há um ano, a 22ª edição do Doclisboa viu cair do céu, em cima das suas datas, o Tribeca Festival Lisboa. Esse facto não tirou seguramente o sono a Paula ou Luca, mas deixa uma sensação de estranheza pela chegada de uma franquia internacional a Lisboa. Abordando diretamente o assunto, mas sublinhando tratar-se de uma opinião muito pessoal, Paula fala em “desastre” na forma como as empresas norte-americanas (neste caso a Tribeca Enterprises) estão a tentar posicionar as suas marcas à custa de outros países. “Parece-me uma ideia abusadora, colonizadora e irrespeitosa”, diz-nos, explicando que no México até houve uma edição especial do Festival de Sundance, mas que no Brasil a ideia de receber o Festival de Tribeca foi recebida com “fúria”“É o progredir de uma narrativa hegemónica que, mais do que pensar ao que vai, tenta impor-se. Para mim, foi uma surpresa ver isto acontecer na Europa, pois pensava que só faziam isso aos países do terceiro mundo ou em desenvolvimento. Creio que em vez de enriquecer culturalmente, estes eventos empobrecem. Há toda uma ideia homogeneizante, como se só existisse uma forma de pensamento no cinema (…) A identidade do Doclisboa é suficientemente forte para se aguentar, mas o que existe [neste modelo de negócios] é a imposição de um star system com Robert de Niro e Whoopi Goldberg, que não representam o cinema contemporâneo que plantamos, nem a conversa que procuramos ter. Creio que Tribeca é uma centelha, algo efémero e pouco transcendente”

O Doclisboa decorre de 17 a 27 de outubro em espaços como a Culturgest, o Cinema São Jorge, a Cinemateca Portuguesa, a Casa do Comum do Bairro Alto e o Cinema Ideal. 

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