A “Barbie” que se cuide, pois o seu reinado cor da rosa vai receber uma ofensiva brasileira cheia de cor e humor, endossada por um fenômeno teatral que começou pequenininho na sala de espetáculos Sesc Tijuca, em 2017, e ao longo dos últimos seis anos contabilizou cem mil pagantes – cifra que, para as artes cénicas, é blockbuster.
O destino de “O Porteiro”, potencial rival made in Brasil da boneca encarnada por Margot Robbie, é repetir o mesmo feito na tela. No dia 31 de agosto, salas de exibição do Acre ao Rio Grande do Sul – os extremos da pátria verde e amarela – vão conhecer Waldisney, o responsável pela agitada portaria de um prédio onde inquilinas nervosas e inquilinos neuróticos desafiam as condições normais da temperatura e pressão da paz condominial. Depois que o local é alvo assaltantes, o delegado – encarnado pelo intérprete do rufião Paulinho Gogó, Maurício Manfrini – passa a suspeitar do mais devotado funcionário do prédio, que é xará do criador do Mickey e veio da Paraíba para ser feliz no Sudeste.
Filmada por Paulo Fontenelle, a aventura audiovisual de Waldisney é bem parecida com a história pessoal do seu criador e intérprete, Alexandre Lino. Nesta quarta-feira, ele se apresenta em Brasília, no palco do Sesi Taguatinga. Neste fim de semana, no sábado e domingo, volta ao Centro Cultural Imperator, com a certeza de lotar a charmosa casa de espetáculos do bairro do Méier (na Zona Norte do Rio de Janeiro) e arrancar sorrisos fazendo da plateia parte essencial dos abilolados causos de Waldisney. Vindo de Gravatá, no agreste pernambucano, e radicado no Rio de Janeiro há três décadas, Lino, hoje com 49 anos, é bacharel em Cinema pela Unesa e finaliza o Mestrado em Artes Cénicas pela UniRio em 2024. Iniciou a sua carreira profissional, nos anos 2000, no Teatro Glória, sob a gestão de Antônio Abujamra, na Resistência Cia de Teatro, fazendo o premiado espetáculo “Patativa do Assaré”. Desde então, esteve no elenco de cerca de 20 peças, 7 longas-metragens e 15 curtas, além de ter brilhado em várias participações na televisão. Em 2019, no auge do governo Bolsonaro, desafiou as mordaçsa sobre a indústria cultural ao encenar “O Substituto”, texto com o qual desafiava o fascismo.
Mas foi com “O Porteiro” que Lino virou uma grife. Quem vê o seu hilariante desempenho em cena no monólogo sobre a vida de migrantes nordestinos no RJ, volta para pedir mais. Feito o Coelho Ricochete dos desenhos animados do estúdio Hanna-Barbera, o ator salta de um lado para o outro do Imperator, desafiando as leis da gravidade, levando café e água para o público, enquanto desfia o rosário de esquisitices do dia a dia de trabalho de Waldisney. Essas mesmas maluquices podem fazer dele o maior campeão das bilheteiras brasileiras de 2023.
Para 2024, a sua agenda já está movimentada. Ele será visto na séria “Cinema Café”, como Carlitos e vai filmar o documentário “Banabuiú: Grande Sertão Teatro”. Promete ainda um novo espetáculo. Se tudo der certo, fará isso tudo com um super êxito comercial cinematográfico no curso.
Na entrevista a seguir, Lino conta ao C7nema o que espera deste flerte com os espaços exibidores.
De que maneira a dramaturgia de “O Porteiro” mudou a sua relação com o teatro e o que essa peça te apresentou de mais tocante na reação com o público?
“O Porteiro” parte de um compromisso com o real, assim como grande parte dos meus trabalhos. A proposta sempre foi transpor para a cena essas histórias de pessoas simples e comuns, pois são nelas que me reconheço e enxergo a força do povo brasileiro. A dramaturgia de Paulo Fontenelle busca fidelizar as entrevistas, coletadas por nós, e reiterar a ideia do que chamo de “teatro do pertencimento” em minhas obras. Porém, “O Porteiro” é o meu trabalho de maior aproximação com a plateia e eles, o público, constroem comigo uma outra parte da dramaturgia que não está escrita. Isso é mágico, é único e me mostra todos os dias o quão poderoso é o teatro e quão extraordinária é essa relação público x artista. Eu me emociono ao ver que o teatro pode ser um ato de comunhão, e de facto é.
Qual é a sua expetativa para o filme neste momento em que o cinema brasileiro precisa tanto de um sucesso? Como foi revisitar a personagem?
Alexandre Lino: Costumo não depositar expetativas, mas sou um realista esperançoso, como dizia Ariano Suassuna. Estou muito orgulhoso do filme que fizemos. Estão ali os ingredientes em que acredito. Humor, delicadeza, humanidade, representatividade, honestidade e muito afeto. O elenco é um encontro de amigos e a arte se beneficia muito disso. Fomos felizes fazendo “O Porteiro” e estamos muito desejosos de que o público, de alguma forma, possa se reconhecer ali e sentir a mesma alegria. Flertamos com um humor ingénuo, muito raro nos dias de hoje, e disso o público já sinalizou que está sentindo a falta. O cinema também. Viver Waldisney nas telas faz parte daqueles sonhos que estavam na minha bagagem desde quando cheguei no Rio de Janeiro, em 1993. Isso é algo imensurável e indescritível.
De que maneira a Trilogia Nordestina feita por você no teatro faz avançar a sua relação com a região que mudou politicamente o destino do país?
Alexandre Lino: Sou um artista nordestino e sou daqueles que sentem um orgulho danado de ressaltar isso em qualquer situação. Por sorte, escolha e vocação, fui sendo convocado para viver no teatro personagens em obras que sempre falaram do Nordeste. Desde os meus primeiros anos foi assim. Vivi o Rufino em “Mar Morto” de Jorge Amado; o Juca em “Patativa do Assaré”; o Cabo Tenório no musical sobre Jackson do Pandeiro de João Falcão etc. Mas tenho a minha trilogia nordestina: “Domésticas”, de 2012, “Nordestinos”, de 2015, e “O Porteiro”, de 2017, consegui trazer algo que considerava fundamental ser visto e discutido. Esses três espetáculos foram criados ouvindo pessoas e as suas histórias de vida e superação. Histórias de nordestinos que deixaram as suas terras em busca de realização nas cidades dos sonhos, como o Rio de Janeiro e São Paulo, assim como eu. Compartilhar em cena as verdades do outro, que também são suas, é um ato revolucionário. E digo isso porque não tenho dúvidas de que invisível não são as pessoas, invisíveis são as histórias de pessoas simples e comuns. Projetar e celebrar o Nordeste é meu compromisso com minhas raízes. É notória a força do meu povo, seja como braço construtor das potências econômicas do país, seja pela luta pela democracia e dias melhores ou como artistas inveterados. Eu, assim como Bráulio Bessa, não canso de afirmar: “Quanto mais sou nordestino, mas orgulho tenho de ser”.

