Michèle Jacob e as crianças perdidas em Karlovy Vary

(Fotos: Divulgação)

Fortemente inspirada pela famosa história de J. M. Barrie de Peter Pan, a belga Michèle Jacob estreou-se nas longas-metragens com “The Lost Children”, um conto sombrio sobre abandono, perda e trauma que invadiu o Festival de Cinema de Karlovy Vary, inserido na secção Proxima.

Passado totalmente em paisagens bucólicas, no filme seguimos um grupo de crianças que são deixadas à sua conta quando o pai desaparece. Decididas a viver sozinhas, e sem necessidade dos adultos, o quarteto colide num conto de fadas plúmbeo quando uma “terra encantada” é encontrada na sua casa em ruínas, despertando todo o tipo de memórias do passado. “Li a história do Peter Pan aos 9 anos. Foi o primeiro romance que li e fiquei transtornada com toda a tristeza que havia nele.”, explicou-nos a realizadora. “Na obra original do  J. M. Barrie, o Peter Pan é alegre, mas também cruel, solitário e narcisista. Só mais tarde descobri o que o Barrie queria contar (…) Foi uma história que me tocou muito e, quando me tornei mãe, ganhou uma nova dimensão. Pensei que se o Peter Pan fosse um adulto hoje, que tipo de pai seria?”.

Além do trabalhar na identificação dos traumas infantis, existe neste drama uma componente que aprofunda os efeitos duradouros que os eventos escondidos na nossa mente têm na nossa maneira de ser em adultos. Algo que a cineasta opta por mostrar através do cinema fantástico, em que monstros escondem algo bem real e assustador. “A dimensão trágica do trauma e a abordagem fantástica  que aplico apresenta-se essencialmente através de pesadelos e daquilo como que sonhamos”, explica Michèle. “Quando temos pesadelos, eles têm uma forma muito pessoal. Segui o ponto de vista das crianças, pois se fosse seguir a perspectiva dos adultos tinha de entrar no campo da psicanálise e forçosamente teríamos algo palavroso, embora sincero. Pensei mais visualmente como podemos mostrar algo que esquecemos e que nos mete imenso medo. Os pesadelos no filme tinham assim de ser uma grande máscara, na forma de um monstro que sentimos real, mas que não é um organismo com algo dentro dele ou um animal em si. É algo que não precisa correr para nos apanhar, nem se movimenta muito, ou é excessivamente agressivo. O meu pensamento era como seria o pesadelo de uma criança quando fecha os olhos. A que se assemelha isso é porque existe este monstro em nós?”.

Na demanda de criar uma criatura que explora os nossos medos e traumas, a realizadora confessa ter em “Under The Skin”  e “Inside Out” influências, mas a maior de todas – em termos visuais – foi mesmo Hayao Miyazaki: “Na criação visual, as minhas referências foram principalmente Miyazaki, da Viagem de Chihiro e Princesa Mononoke, nos espíritos e monstros nos quais sentimos que existe internamente uma espécie de melancolia e raiva, mas também algo de doçura. Há algo de muito orgânico nas criaturas do Miyazaki.”. 

Michèle Jacob em Karlovy Vary

Não apenas pelas limitações do orçamento do filme, mas igualmente por decisão autoral, a cineasta escapou a uma construção gráfica 3D da “besta”. Em vez disso, temos um “fato” concreto para a criatura: “O nosso monstro tinha um fato concreto e não seguimos a via de construção 3D, pois ninguém acreditaria. Depois adicionamos o som para captar a sua essência de besta. Fizemos um enorme trabalho no som e tudo o que vamos ouvindo ao longo das suas aparições são lembranças do passado transformadas em algo, a partir do imaginário das crianças.” 

O Futuro

Já a trabalhar num projeto televisivo para a RTBF belga, Michèle vai voltar a estudar as relações, mas inverte um pouco o processo que vimos neste “The Lost Children”. Na série de 8 episódios, chamada “Arcanes”, ao invés de termos um grupo de crianças após o desaparecimento do pai, temos uma mãe em busca do seu filho desaparecido. Para Michéle, um tema novamente em torno da família não é coincidência. “A questão da família interessa-me muito, mas além disso existe em mim a ideia que um adulto é o pai, irmão ou filho de alguém. Na série que vou filmar em agosto, esta mãe, para encontrar o filho, tem de entrar no seu imaginário. Existe em mim uma questão de lembrar os adultos que, um dia, já foram crianças.

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