Artesão das estéticas documentais, Victor Lopes demonstra no seu cinema um interesse recorrente na pulsão poética do português, e na potência lírica das suas palavras, como se viu em “Língua” (2004); no etnográfico “Serra Pelada – A Lenda da Montanha de Ouro” (2013); e, agora, no pulsante “Fausto Fawcett Na Cabeça”. Sensação pop no Festival do Rio, a longa-metragem aporta agora na 46. Mostra de São Paulo partindo do desejo de construir uma cinebiografia do poeta e compositor por trás da canção-crónica “Kátia Flávia” para realizar um sinestésico jogo narrativo. Nesse jogo, passado real, memória pessoal e invenção conjugam-se numa montagem exuberante.
Cantor, poeta e compositor de músicas ícones como “Rio 40 Graus”, Fawcett é também autor de cinco romances e diversas performances, que desvendam um vasto e singular universo, entre o teatro, o cabaret e o lirismo beatnik do Brasil. Partindo de signos reais e quotidianos com raízes em Copacabana, a sua obra cruza fronteiras narrativas, filosóficas e temporais para instaurar visões futuristas e experiências sensoriais que chacoalham a condição humana, carregando os seus interlocutores para outros mundos. O destino do filme-transe de Lopes é entrar nestes mundos que habitam a mente criativa, inquieta e desafiante desse singular multiartista.
Há duas projeções do filme em São Paulo: uma será nesta quinta, às 21h15 (1h15 em Portugal), no Itaú Augusta 1, e a outra no sábado, às 14h (18h de Lisboa), no Museu da Imagem e do Som (MIS-SP).
Na entrevista a seguir, Lopes fala ao C7nema sobre a sua abordagem do mito de Fausto… o Fawcett.

A que educação sentimental Fausto Fawcett submeteu o Brasil? O que a poética dele aponta sobre o modo de criar do Rio de Janeiro dos anos 1980 e 90?
A meu ver, desde os primórdios, Fausto Fawcett é um artista que sempre esteve além do seu tempo. Partindo de signos quotidianos e épocas sobrepostas entre elementos populares, fundidos com temas eruditos ou obscuros, a sua obra une o poético ao filosófico, usando a força da palavra sempre de forma cinematográfica e musical. É invenção em estado permanente, como vemos no filme. Desde os anos 1980, dos discos aos livros, incluindo performances lancinantes, tudo que o Fausto fez, e continua fazendo, dialoga com “Brasis” atemporais, em dimensões que transcendem a memória afetiva.
O seu documentário vai além da biografia para incorporar, na forma, a estética de Fawcett. O quanto esse dispositivo reflete conscientemente a poética dele e o quanto é fruto das buscas que você tem feito ao longo dos seus anos como documentarista?
Quando a TvZero e o Roberto Berliner, produtores do filme, ofereceram-me esse banquete de presente, ficou claro que tínhamos que trabalhar com um arrojo formal e estético à altura do Fausto. Essa sinergia com a grandeza que a obra dele merece iluminou todo o projeto. Gosto de viver o cinema como experiência e transe, seja no documentário ou na ficção. Entrar na cabeça de um personagem tão fascinante me libertou de amarras narrativas e biográficas rumo a uma obra sensorial, poética e contundente que amplia as fronteiras do meu ofício e aponta caminhos que preciso trilhar. O resultado é uma ÓperaDoc Cyberfunk de Fricção Científica e valeu a viagem.
O quanto a música e a poesia brasileiras mudaram sob a influência de Fausto?
Kátia Flávia foi o primeiro rap nacional a tocar na rádio e, desde então, Fausto Fawcett deixa marcas e caminhos abertos, lado a lado com seu maestro Laufer, sempre cercados de diversos “dream teams“. Das parcerias com Fernanda Abreu, encabeçadas pelo hino “Rio 40 Graus“, a colaborações com o Skank, Lulu Santos, Chico Science, Bethânia. Ele cruza com bandas com Dado Villa Lobos, João Barone, Dé Palmeira e Charles Gavin, entre tantos outros. Cruza ainda com artistas como Deborah Colker, Zerbini, Barrão e Sergio Mekler. Contudo, de muitas formas, a obra do Fausto não é ainda dimensionada na proporção do que ele representa como artista e pensador na arte contemporânea. O filme está aí para isso: mais uma ponta do icberg, mais um fragmento da colagem. Cápsula de Tempo de uma metamorfose fixa.
Quais são os próximos passos da sua obra?
O financiamento do projeto saiu em plena pandemia, e trabalhamos direto na edição já preparando a filmagem, que aconteceu há um ano. Avançar em meio a tanta pulsão de morte impôs várias urgências e potencializou ainda mais a realização do filme até a estreia no Festival do Rio. Depois de ótimas reações, partimos agora para a Mostra Internacional de SP e a partir daí o foco será apresentar o filme em festivais internacionais e difundir a obra de um artista raro no Brasil e no mundo. O bebê nasceu forte, agora é correr atrás.
A 46.ª Mostra de São Paulo termina no dia 2 de novembro.

