Responsável por manter acesa a chama francófona do cinema canadiano na seara dos maiores festivais de cinema, sempre a retratar os fantasmas que nos cercam, Denis Côté celebra a passagem do seu trabalho mais recente, “Un Été Comme Ça”, pelo Brasil, na 26ª Mostra de São Paulo, após uma elogiada travessia pela Berlinale, no concurso pelo Urso de Ouro. Nas projeções em São Paulo, a longa-metragem será projetada com o título em inglês, “That Kind of Summer”. As sessões serão esta quarta, às 16h20 (20h20, em Lisboa), no Reserva Cultural 1; no dia 31, às 16h (20h em Portugal), no Cinesesc; e no dia 1º de novembro, às 14h (18h em terras lusas), Espaço Itaú Frei Caneca. É o filme mais requintado do realizador de 48 anos, que rodou 20 filmes de 2005 até hoje, configurando-se como um dos cineastas mais ativos, não só de seu país (o Canadá), mas de todo o mundo. A sua visibilidade internacional nasceu depois do culto em torno de “Vic+Flo Viram um Urso” (2013). Ali, Côté tornou-se um especialista em fantasmas, daqueles que nos assombram não com os jump scares do sobrenatural, mas nos quizilam pelos hiatos existenciais. Foi laureado em 2021 com o belíssimo “Hygiène Sociale”, que lhe valeu o prémio de melhor direção da mostra Encounters, no Festival de Berlim de 2021. Mas, distinções à parte, o canadiano mobiliza sempre as plateias.

Em “Un Été Comme Ça”, ele conta com atrizes em estado de graça: Larissa Corriveau, Laure Giappiconi e Aude Mathieu. Na trama, três mulheres com os desejos à flor da pele passam 26 dias em uma casa à beira do lago, que lhes serve de abrigo, mas também de espaço para a meditação. Elas são: Léonie (Larissa), Eugénie (Laure) e Gaëlle aka Geisha (Aude). Todas estão lá voluntariamente, sendo supervisionadas, com assistência social e terapia. O lema daquela casa é: “A hipersexualidade não é uma doença”. O objetivo desta experiência não é curar, mas permitir uma franca exploração de diferentes experiências, formas e extremos de desejo. O que importa, entretanto, não é a tesão, não é a febre. O que importa é o que as três acumulam em si e o quanto essa represa revela sobre a força do feminino e sobre a sororidade.
Na entrevista a seguir, concedida ao C7nema via email, Côté derruba os paradigmas sexistas.
Desde a sessão de “Un Été Comme Ça”, em Berlim, tenho a sensação de que Geisha, Léonie e Eugénie são pedaços da mesma alma, como se fossem uma só mulher. Mas que mulher é essa? Que simbolismo da força feminina carregam?
Eu teria cuidado com este pensamento porque o filme não é “sobre mulheres”. Trata-se de três personagens distintas, com três vidas e experiências diferentes. Sendo um homem que realiza e escreve,não posso fingir que faço um filme sobre todas as mulheres e sobre a feminilidade. Não estou a declarar algo sobre um grupo de pessoas e não quero que o filme “represente” algo. Estou investigando a vida de três mulheres em três fases diferentes das suas vidas. Todas elas lutam com algumas questões, mas também são complexas, fortes e capazes de mostrar um lado do que é ser um ser humano maduro.
Como foi construída a bela luz na direção de fotografia? Que elementos dessa paisagem contribuem mais para a construção da mise-en-scène?
Eu queria que o filme tivesse uma aparência bastante crua, sem belas imagens de cartão postal e sem perder tempo na paisagem ou na casa, com decoração, com mobílias. É um filme sobre pessoas, na sua interioridade, nos pensamentos, nas aspirações e lutas pessoais. Trabalhamos com muitos close-ups, como se tudo o que importa fosse o que as personagens têm a dizer e a comunicar. O filme não está nada erotizando e fugimos do voyeurismo. É bastante “antiespetacular”, às vezes.
Como um filme tão pessoal e autoral como “Un Été Comme Ça” se subsidia em uma indústria como a do Canadá? Como você avalia o cinema do Canadá hoje em dia?
Obviamente, cada país tem uma abordagem diferente da cultura e um sistema de financiamento diferente. No Quebec, penso que sou apoiado porque tenho uma assinatura aventureira. As instituições apoiarão abordagens comerciais, mas também gostam de apoiar assinaturas pessoais que podem ser vistas no circuito do festival, para reconhecimento internacional. O Canadá produz muito cinema comercial. Acho que posso encontrar o meu caminho no sistema, mesmo sem fazer grandes resultados nas bilheteiras. Sobre a minha avaliação, acho que o cinema em francês de Quebec é bastante diversificado, muito mais do que o cinema do Canadá em inglês.

